Há histórias empresariais que se constroem sobre a força de uma convicção e o amor profundo por um ofício. O percurso de Susana Teixeira, Proprietária e Chef do restaurante Cais da Lota, em Portimão, é um desses exemplos — feitos de persistência, aprendizagem e autenticidade.
Natural do Brasil e radicada em Portugal há duas décadas, Susana Teixeira fala da sua jornada com a serenidade de quem venceu pelo trabalho. “Comecei sem experiência alguma. Montei um snack-bar, investi o dinheiro e confiei a gestão a outras pessoas. Foi o meu primeiro investimento, obviamente que tinha de correr mal”, recorda, entre risos.
A adversidade, contudo, foi apenas o início de um percurso de superação. “Quando vendi o café, passado três dias, estava a trabalhar como copeira, a lavar louça. Passei de patroa a copeira”. Uma transição que muitos poderiam ver como um retrocesso, mas que Susana entende como o verdadeiro ponto de viragem: “Foi lá que aprendi tudo. Comecei como ajudante, depois cozinheira, até chegar a chef. Trabalhei cinco anos nessa casa. O Sr. José, um alentejano muito generoso, ensinou-me absolutamente tudo”.

Das mãos à gestão
A experiência prática deu-lhe a confiança e o conhecimento necessários para avançar para um negócio próprio – desta vez, com os pés firmes no chão. “Aprendi a gerir stocks, a lidar com equipas e, sobretudo, a administrar um restaurante. Não é só cozinhar. Esse foi o alicerce para o projeto que tenho hoje”, afirma com um sorriso seguro.
Foi assim que, há três anos, nasceu o Cais da Lota, numa das mais emblemáticas zonas de Portimão. O edifício, outrora devoluto, foi requalificado e entregue através de concurso público. “O objetivo da Câmara era um café-snack bar simples, com serviço de balcão e refeições ligeiras. Mas eu vi muito mais potencial. Disse: isto tem de ser um restaurante”.
Com o apoio do marido –“ele próprio fez todos os projetos e desenhos”, frisa – o espaço ganhou nova vida. “Transformámos tudo do zero. Não havia papéis, nem projetos, nem sequer ideias do que poderia ser. Hoje, três anos depois, posso dizer que o Cais da Lota é um sucesso acima das expectativas”.
Um restaurante que reflete o mundo
Susana Teixeira quis construir mais do que um espaço gastronómico: quis criar uma experiência de viagem no prato. “Trouxe um pouco do mundo para o Cais da Lota. Espanha, com a paella; Portugal e o Algarve, com as cataplanas e o peixe fresco; a Ásia, através do sushi; a América do Sul, nas carnes; e a Itália, nas massas. Quis que o cliente pudesse sentar-se à mesa e sentir o mundo num só lugar”. A escolha de produtos frescos é uma exigência inegociável. “Não há grandes armazéns. Trabalho com produtos comprados diariamente. Sou eu que vou às compras às sete da manhã, carrego e trago tudo. É cansativo, mas faz diferença no resultado final”. Chef e gestora em simultâneo, Susana continua a cozinhar, a provar, a supervisionar. “É o meu ADN. É o que me faz sentir viva”, confessa.

Da tradição à diferenciação
Num território com forte identidade piscatória, a opção de não servir sardinha pode surpreender. Mas a explicação é simples e honesta: “Seria um crime grelhar sardinha num grelhador a gás. E aqui atrás existem casas que o fazem no carvão, como deve ser. Não posso querer competir com eles – mando os clientes lá. É uma questão de respeito”.
Em vez disso, o Cais da Lota especializou-se nas carnes – especialmente nas sul-americanas. “Trabalhamos apenas com carnes da América do Sul, de qualidade premium. Uma das especialidades é a maminha grelhada, servida inteira, fatiada à frente do cliente e acompanhada com uma pedra quente, para que ele possa selar a carne ao seu gosto. É uma experiência visual e gastronómica”.
Uma equipa, uma família
O sucesso do restaurante assenta também numa equipa coesa e fiel. “São todos meus colegas e amigos. Foram escolhidos a dedo e estão comigo desde o início. Não dispensamos ninguém no inverno; não trabalhamos só com pessoal sazonal. Somos uma equipa o ano inteiro”, sublinha com visível orgulho.
Essa estabilidade reflete-se no atendimento – e, consequentemente, na fidelização dos clientes. “O serviço é meio caminho andado para a pessoa voltar. É o primeiro contacto e define toda a experiência. Tentamos sempre receber os clientes como gostaríamos de ser recebidos. Que se sintam bem, confortáveis, com vontade de regressar”.

Enfrentar a sazonalidade com criatividade
Como em tantos projetos no Algarve, a sazonalidade é um desafio inevitável. “Sente-se muito. Mas encontrámos soluções: criámos menus fixos e acessíveis durante a semana, pensados para quem trabalha na zona, e menus especiais para grupos ou aniversários. Assim conseguimos manter a dinâmica no inverno”.
O turismo, admite, é crucial no verão, “mas os clientes locais são o nosso pilar durante todo o ano”. O posicionamento é equilibrado. “Praticamos preços médios. Uma refeição ronda os 25 euros por pessoa, o que é justo. Também temos menus de almoço a 12 euros, com vista para o rio. Acho que está perfeitamente dentro dos valores da região”.
Música, convívio e boa energia
O Cais da Lota é mais do que um restaurante. É um ponto de encontro. “Queremos que seja um lugar de convívio – para famílias, grupos de amigos, casais. Por isso, organizamos noites com música ao vivo no inverno e sunsets com dança latina no verão. É uma forma de dar vida à zona ribeirinha, que esteve tanto tempo esquecida”.
Susana fala do espaço com carinho quase maternal. “Costumo dizer que o Cais da Lota é o nosso bebé, com três anos. Está a crescer acima de tudo o que imaginávamos. As pessoas abraçaram-nos. Os comentários nas redes e as avaliações mostram esse reconhecimento. É muito gratificante”.
Os sabores e o futuro
A carta de sobremesas é também motivo de orgulho. “Fazemos tudo na casa. Desde o pudim tradicional ao crumble de pera, o banoffee, a tarte merengada de chocolate branco com limão e a cheesecake de frutos silvestres. São irresistíveis”, garante entre risos.
Quanto aos vinhos, admite que a carta está em evolução. “Ainda não encontramos o parceiro ideal. Temos boas referências do Algarve, do Alentejo e do Douro, mas continuo à procura daquele vinho que diga: é este. É o vinho da casa”.
Com o Natal e a passagem de ano à porta, o entusiasmo renova-se. “Trabalhamos até dia 23 de dezembro e depois abrimos para a noite de Réveillon, só com reservas. É uma noite muito especial. Há fogo de artifício, música, menu personalizado desde o welcome drink até à ceia. Vale mesmo a pena”, sublinha.

A realização de um sonho
Hoje, passadas duas décadas em Portugal, Susana Teixeira sente orgulho no caminho percorrido. “Sempre acreditei nos meus sonhos. As dificuldades aparecem todos os dias, mas o segredo é nunca desistir, nunca perder o foco. A honestidade e o trabalho compensam sempre. Lá à frente, as coisas acontecem”.
Entre Portugal e o Brasil, onde mantém negócios familiares ligados à construção, divide o tempo com equilíbrio e determinação. “Agora já vou mais vezes ao Brasil, duas ou três vezes por ano. Em janeiro, quando fecho o restaurante, costumo ir. Mas a nossa vida está aqui. O Cais da Lota é o projeto da minha vida”.
A sua ambição, hoje, passa sobretudo por manter o que já construiu. “Não quero crescer mais, quero manter a qualidade com que começámos – e isso, no tempo que vivemos, já é um grande desafio”.
À beira do rio Arade, o restaurante Cais da Lota personifica o espírito da sua criadora: determinado, genuíno, acolhedor. Um espaço onde se sente o mar, o mundo e o sonho de alguém que fez da cozinha uma forma de viver e de vencer.






