Em entrevista à Revista Business Portugal, Vítor Poças, Presidente da AIMMP – Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal – partilhou a visão estratégica que está a reforçar a competitividade da fileira da madeira, destacando os desafios, as oportunidades e o papel crucial do setor na economia nacional.
Qual o desempenho do setor em 2024 e 2025, nomeadamente no contexto do Projeto Inter Wood & Furniture?
O setor da madeira e mobiliário demonstrou, em 2025, uma notável capacidade de resiliência mantendo as exportações acima dos 3000 M€ e um saldo positivo da balança comercial próximo dos 400 M€. Apesar de um enquadramento económico exigente: inflação acumulada, custos energéticos elevados e instabilidade logística, as nossas empresas reforçaram a sua presença externa, investiram em soluções de maior valor acrescentado e consolidaram relações em mercados estratégicos. Mantivemos níveis de competitividade comparáveis aos principais clusters europeus e assistimos a uma evolução consistente no design, na qualidade e na sustentabilidade dos produtos. Continuo a afirmar: a indústria portuguesa de madeira e mobiliário tem talento, tem visão e sabe reinventar-se.

De que forma a AIMMP está a trabalhar para impulsionar a capacidade exportadora das PME associadas, especialmente nos mercados mais exigentes?
A AIMMP segue uma estratégia muito clara no apoio às empresas: abrir mercados, reduzir riscos e reforçar a visibilidade internacional das empresas. Fazemo-lo através de projetos estruturantes como o Inter Wood & Furniture e da gestão da marca Associative Design – The Best of Portugal, apoiando a presença em feiras internacionais, missões empresariais, ações com compradores e apoio na transição digital das empresas. Trabalhamos de forma muito próxima com as PME, apoiando-as na qualificação dos recursos humanos, na certificação, no design, na digitalização e na adequação da sua oferta de produtos às exigências internacionais. Executamos projetos financiados e procuramos oferecer às empresas as melhores condições de participação nas feiras, criamos ferramentas de promoção conjunta e asseguramos acompanhamento jurídico e operacional em todas as etapas da internacionalização. O princípio é simples: todas as empresas devem ter condições para competir globalmente.

Poderia traçar uma panorâmica dos objetivos e expectativas para o Inter Wood & Furniture 2025-2027, destacando o impacto esperado para os associados e para a indústria?
O Inter Wood & Furniture 2025-2027 constitui o maior esforço coletivo de promoção internacional do setor! Ainda que o princípio estratégico se mantenha ao longo das várias edições, existem objetivos concretos em cada edição que orientam as linhas programáticas do projeto. Na edição de 2025-2027, apostaremos em mercados estratégicos, com destaque para os Estados Unidos, o Médio Oriente e Africa, sem esquecer a Europa Central e o mercado francófono. O impacto esperado é significativo e decorre da diversificação geográfica das exportações, do acesso a compradores de elevado valor, do reforço da produtividade e da aceleração da transição digital e sustentável. Este ciclo promoverá uma aproximação mais forte a segmentos globais de valor acrescentado como a arquitetura, hotelaria, contract, através da qualidade do produto e do design, capacitando as PME com instrumentos de nova geração para crescerem de forma consistente.
Que inovação tecnológica e práticas sustentáveis considera fundamentais para assegurar a competitividade do setor da madeira e mobiliário nos próximos anos?
A competitividade futura dependerá da capacidade das empresas integrarem a tecnologia e serem capazes de oferecer produtos de valor acrescentado, nomeadamente através do design, da funcionalidade e da qualidade, naturalmente. A questão da certificação é também um drive importante na competitividade das empresas.
A madeira continuará a desempenhar um papel central neste contexto pelas suas caraterísticas intrínsecas: é renovável, tem baixa pegada carbónica, reduz emissões e melhora o desempenho energético quando utilizada na construção e nos interiores. Falamos de soluções de madeira estrutural e madeira tecnologicamente transformada (CLT, GLULAM, LVL, entre outras), pré-fabricação, construção modular e sistemas híbridos de alto desempenho na construção, mas também em novas realidades como o ecodesign, o second life, a otimização energética, a valorização dos resíduos e a funcionalidade como caraterísticas importantes no mobiliário. A sustentabilidade é não só uma eficiência económica, mas também ambiental e social em dimensões fundamentais para o futuro do setor em Portugal.


Quais serão as principais prioridades estratégicas e metas da AIMMP para 2026, tendo em conta as tendências emergentes e o contexto da internacionalização?
Em 2026 reforçaremos três grandes eixos:
(1) Competitividade e produtividade:
- Programas de capacitação e formação avançada, designadamente em parceria com o Centro de Formação Profissional das Indústrias de Madeira e Mobiliário (CFPIMM);
- Apoio técnico permanente às empresas, incluindo a modernização tecnológica;
- Promoção institucional e de notoriedade do setor e dos seus talentos;
- Realização da Cerimónia do PNAM – Prémio Nacional de Arquitetura em Madeira;
- Organização dos prémios de design AD Challenge e Guilherme Award, reforçando a ligação entre indústria, academia, designers e arquitetos.
(2) Internacionalização expandida:
- Foco especial nos Estados Unidos e no Médio Oriente, mercados de enorme potencial;
- Consolidação da presença em feiras de referência global;
- Ações diretas com compradores internacionais e prescritores.
(3) Sustentabilidade e construção em madeira:
- Novo impulso à construção em madeira como solução natural para eficiência energética, segurança, conforto e descarbonização;
- Promoção ativa da certificação florestal, da economia circular e da valorização dos resíduos;
- Reforço da integração da madeira nas políticas públicas de habitação e construção sustentável.
A AIMMP continuará, assim, a construir o futuro com visão estratégica, exigência e ambição para colocar o setor português da madeira e mobiliário no lugar que merece nos mercados internacionais.





