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José Miguel Júdice no Fora do Lugar: liberdade, risco e a geração que não pode ficar na bancada

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Depois de mais de um ano afastado do espaço público, José Miguel Júdice regressa em exclusivo no segundo episódio do Fora do Lugar, podcast conduzido por João Maria Botelho e Raquel Burgoa Dias. A conversa parte da liberdade, mas rapidamente chega ao que essa palavra implica para um país: deveres, trabalho, concorrência, inteligência artificial, participação política e responsabilidade coletiva.

Há conversas que interessam menos pelo comentário imediato e mais pela constelação de ideias que deixam. O segundo episódio do Fora do Lugar, com José Miguel Júdice, pertence a essa categoria. Não é uma entrevista de atualidade no sentido estreito do termo. É uma conversa sobre Portugal, sobre a liberdade e sobre a forma como uma sociedade decide se quer ser apenas protegida ou verdadeiramente responsável.

 

 

Logo no início, a exceção fica clara. “Estou fora do espaço público há um ano e tal, e isto foi uma enorme exceção”, afirma José Miguel Júdice. O regresso acontece no Fora do Lugar, conduzido por João Maria Botelho e Raquel Burgoa Dias, num episódio que junta memória pessoal, diagnóstico político, visão económica e interpelação geracional.

A liberdade é o fio condutor. Mas não aparece como palavra de decoração. Júdice começa por dizer que a liberdade está no seu ADN. A frase nasce da história familiar, do pai preso antes do 25 de Abril, da experiência da cadeia depois da revolução e de uma relação quase física com a ideia de ser livre. Mas o ponto mais forte surge quando recusa reduzir a liberdade a um catálogo de direitos. “A liberdade não é só direitos, liberdades e garantias. É também uma enorme responsabilidade. A liberdade dá-nos deveres.” A conversa não trata a liberdade como conforto, mas como exigência. Numa cultura pública habituada a reivindicar direitos, apoios e proteção, Júdice coloca a pergunta inversa: que deveres estamos disponíveis para assumir?

“Um dos problemas do país é que pensamos muito nos direitos que temos, mas pensamos muito pouco, como povo, nos deveres que também temos”, diz. A frase atravessa todo o episódio. Direitos sem deveres produzem exigência sem responsabilidade. Proteção sem risco produz dependência. Democracia sem participação entrega o espaço público a quem grita mais alto.

A conversa tem particular interesse para uma publicação como a Business Magazine porque liga liberdade política, cultura económica e competitividade. João Maria Botelho coloca a questão de forma direta: “Portugal fala muito dos direitos e das necessidades, mas menos de produtividade, capital, risco, exigência e consequência.” É uma das formulações mais importantes do episódio, porque desloca o debate da queixa para a criação de valor.

José Miguel Júdice responde sem suavizar o diagnóstico. Defende que Portugal tem dificuldade em aceitar concorrência, transparência e responsabilização. Vê no país uma tendência para procurar proteção antes de liberdade, segurança antes de risco, estabilidade antes de mérito. A consequência é económica, institucional e cultural: menos mobilidade, menos exigência, menos espaço para quem quer entrar, competir e crescer.

“Liberdade, transparência e concorrência são as três coisas de que o país precisa”, resume.

O episódio passa depois por uma crítica ao assistencialismo e à forma como o Estado condiciona a maturidade cívica dos cidadãos. Para Júdice, pagar impostos não esgota o dever de cada pessoa perante a sociedade. Pelo contrário: “É depois de pagar os impostos que começas a ter responsabilidade perante a sociedade.” A frase é desconfortável porque contraria uma ideia muito enraizada: a de que a cidadania fica cumprida quando o Estado cobra e distribui.

A liberdade implica risco. Implica aceitar que o mérito tem consequência, que a produtividade importa, que a proteção excessiva pode impedir a renovação e que a responsabilidade não deve ser sempre transferida para o Estado, para os políticos, para os ricos, para os pobres ou para qualquer entidade externa.

“O problema é que os constrangimentos estão dentro de nós”, afirma. Não significa que os obstáculos externos não existam. Existem. Mas o episódio recusa transformá-los em destino. Júdice recorda a infância na zona pobre da Sé Velha, em Coimbra, onde muitas crianças viviam em casas sem janelas e começaram a trabalhar aos nove anos. A partir dessa memória, sublinha o progresso material e social do país: “Na zona mais degradada de Portugal vive-se hoje dez vezes melhor do que se vivia há 60 ou 70 anos.”

Esta é uma das passagens mais fortes da conversa porque obriga a introduzir memória histórica no debate público. Portugal tem desigualdades, bloqueios e falhas profundas. Mas também é um país mais livre, mais alfabetizado, mais seguro e com melhores condições de vida do que há meio século. Sem esta memória, a crítica transforma-se facilmente em ressentimento. Com ela, torna-se mais exigente.

A juventude entra no episódio precisamente por aqui. João Maria Botelho e Raquel Burgoa Dias conduzem a conversa para o lugar das novas gerações num país que, apesar de mais desenvolvido, continua a dificultar a ambição. O tom de Júdice é duro, mas não é derrotista. A sua mensagem aos jovens não é para esperarem autorização, nem para se resignarem à queixa.

“Vão para a política. Façam política. Digam alto o que pensam baixo.”

É uma das frases centrais do episódio. Para Júdice, a política não pode ficar entregue aos que vivem dentro dos aparelhos partidários ou aos extremos que dominam o ruído. Se os jovens não ocuparem espaço, outros ocuparão por eles. E se quem tem ideias se retirar por medo da exposição, o espaço público fica nas mãos de quem tem menos vergonha e menos pensamento.

Raquel Burgoa Dias leva a conversa para o plano da governação de longo prazo: “Se pudesse aconselhar um Primeiro-Ministro e governar a próxima década sem pensar apenas na próxima eleição, quais seriam as três primeiras prioridades?” A resposta de Júdice regressa ao essencial: liberalizar, aumentar a transparência, reduzir o peso do Estado, diminuir a lógica assistencialista e colocar mais dinheiro no bolso das pessoas, sobretudo das classes médias.

A inteligência artificial surge como outro eixo decisivo. Não aparece como tema tecnológico isolado, mas como nova fronteira de literacia, empregabilidade e autonomia. Júdice é claro: “Uma pessoa que não esteja preparada para trabalhar com inteligência artificial não pode exigir nada.” A frase é provocadora, mas aponta para um problema concreto. A IA não será apenas uma ferramenta adicional. Será uma linha de separação entre quem consegue adaptar-se e quem fica dependente de sistemas que não compreende.

Para os jovens, a mensagem é direta: não basta querer oportunidades. É preciso preparar-se para elas, lutar por elas e compreender as novas linguagens do poder económico e tecnológico. “Lutem pelas vossas oportunidades”, diz Júdice. “Lutem com seriedade, com moderação e com convicção.”

O episódio também discute elites, partidos, ordens profissionais, barreiras à entrada, lobby, urbanismo, trabalho e responsabilidade individual. Em todos estes temas, o mesmo princípio regressa: uma sociedade que bloqueia a concorrência protege os instalados; uma sociedade que desresponsabiliza os agentes degrada a confiança; uma sociedade que prefere segurança à liberdade perde capacidade de renovação.

No final, quando lhe perguntam o que significa estar fora do lugar, Júdice responde com ironia: “Estou mais fora do baralho.” A frase encaixa no espírito do podcast. O Fora do Lugar não procura conversas formatadas nem entrevistas de circunstância. Procura ideias que obrigam a sair da frase fácil.

Este segundo episódio confirma essa ambição. Com José Miguel Júdice, João Maria Botelho e Raquel Burgoa Dias não fazem apenas uma conversa sobre liberdade. Fazem uma conversa sobre aquilo que a liberdade custa: trabalho, risco, dever, coragem pública e capacidade de construir para lá da queixa.

Quem ouvir este episódio deve esperar uma conversa frontal, por vezes incómoda, mas intelectualmente viva. Uma conversa sobre o país que mudou, o país que ainda se protege demasiado e a geração que terá de decidir se quer ficar na bancada ou entrar no campo.

O episódio com José Miguel Júdice está disponível no YouTube e no Spotify.

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