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A essência cooperativa da Adega da Labrugeira

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Com 52 anos de história, a Adega Cooperativa da Labrugeira reafirma-se como um dos pilares do setor vitivinícola de Alenquer. Sob a liderança de José Paulo Duarte, a instituição, nascida da união de dezenas de viticultores, aposta hoje na recuperação de castas autóctones, na modernização da produção e na valorização do território, procurando conciliar tradição, identidade local e inovação num mercado cada vez mais competitivo.

Uma região que fez histórias e vinhos

A região de Alenquer é, desde há séculos, reconhecida como um território privilegiado para a produção de vinho. No século XII, a Casa Real Portuguesa já escolhia os seus vinhos e entre os séculos XVI e XIX, vários autores reforçaram essa reputação. Camilo Castelo Branco, na obra “A Filha do Regicida”, destacava a Labrugeira como uma zona onde “a taverna fazia lastro a dois tragos bons de vinho da terra”, atestando a fama antiga do território.

O terroir, moldado pela encosta soalheira, pelos solos argilosos e pela suave influência do Atlântico, continua a ser o segredo da região. A proximidade ao oceano e a exposição ao sul conferem uma frescura equilibrada tanto aos tintos como aos brancos, característica que distingue os vinhos de Alenquer dentro da região de Lisboa.

 

José Paulo Duarte, Presidente

 

1973: O ano em que a união criou uma adega

A história formal da Adega Cooperativa da Labrugeira começou em 1973, quando viticultores  do alto concelho de Alenquer se aperceberam de que o futuro das suas vinhas seria mais sólido se construído em conjunto.

Assim nasceu a ideia de criar uma estrutura comum capaz de dar voz, valor e projeção ao trabalho agrícola de cada família. Eram 18 sócios fundadores, mas rapidamente a cooperativa cresceu para mais de 300 associados, tornando-se, ao longo da década de 1980, uma referência no concelho. Em 1984, já eram 320 viticultores unidos pelo mesmo propósito.

Inicialmente, a adega viveu um período de forte expansão, fruto da adesão massiva dos produtores e da evolução do setor vitivinícola no país. Em 1975, numa altura em que o país se modernizava, iniciaram-se as obras que dariam origem às atuais instalações construídas de raiz pelos próprios agricultores, ao contrário de outras cooperativas da região que receberam edifícios da Junta Nacional dos Vinhos.

A identidade mantida com uvas dos sócios

Para José Paulo Duarte, Presidente do Conselho de Administração há três anos, a razão pela qual a adega mantém identidade e continuidade ao longo de meio século é simples e profunda:

“Mantém-se através do esforço dos sócios em acreditar e colocarem cá as suas uvas”.

Por mais prémios que os vinhos acumulem, nada sobrevive sem confiança, compromisso e matéria-prima. É esse pacto entre viticultores e a adega que permite preservar o espírito cooperativo original.

 

 

 

Vital: uma casta salvaguardada pela cooperação

O “Empatia Branco” através da sua casta Vital tem se destacado nos últimos tempos. A casta Vital, outrora dominante no Oeste, esteve quase extinta por ser difícil de trabalhar. Mas quando bem cuidada, mostra-se única.

O projeto nasceu em 2017, numa troca de saberes e castas autóctones entre o município de Alenquer e o de Benkovac na Croácia. A casta vital beneficia da altitude da Serra de Montejunto, e da  frescura natural do Atlântico e um terroir ideal. O resultado é um vinho que “cria empatia” e devolve vida a uma casta histórica da região.

O terroir que marca o caráter dos vinhos

As vinhas da região, muitas delas em meia-encosta e bem expostas ao sol, têm baixa produtividade, mas elevada concentração, originam vinhos com estrutura, aroma e longevidade. Os solos argilosos, aliados à humidade moderada e à proximidade do mar cerca de 14 quilómetros em linha reta, garantem a acidez equilibrada que caracteriza os vinhos de Alenquer.

A Adega Cooperativa da Labrugeira apresenta uma gama diversificada de vinhos e bebidas espirituosas, distribuídos por quatro segmentos principais: Vinhos DOP Alenquer, Vinhos IGP Lisboa, Vinhos sem denominação e Bebidas Espirituosas. A autenticidade da Serra de Montejunto, a influência atlântica e o saber tradicional definem o carácter dos produtos.

Os selos DOP Alenquer e IGP Lisboa reforçam o compromisso com a origem e a qualidade. Para o presidente, estes reconhecimentos são fundamentais: “Os nossos vinhos podem estar lado a lado com qualquer vinho do Douro ao Alentejo”.

  • Alguns vinhos DOP Alenquer: Empatia (Branco e tinto);
  • Alguns vinhos IGP Lisboa: Velharia Reserva (Tinto), Talismã Reserva (Tinto e Branco) e Fructus – Leve (Branco e Rosé).

Exportação, desafios e o futuro das cooperativas

A adega já exportou mais de metade da sua produção. Atualmente, o objetivo é recuperar mercados e aumentar o valor acrescentado dos vinhos. Para Mário Afonso, financeiro da cooperativa, isso permitirá pagar melhor aos produtores, reforçando a sustentabilidade da comunidade.

Ambos sublinham a importância social das cooperativas, que sustentam famílias, preservam atividade agrícola e promovem coesão territorial, algo frequentemente esquecido pelos sucessivos governos.

Com cerca de 150 sócios ativos atualmente, a Adega da Labrugeira enfrenta desafios, mas mantém-se firme no compromisso de trabalho e transparência. Modernizar processos, valorizar o produto e conquistar novos mercados são metas claras.

 

 

 

Um futuro feito de memória

José Paulo Duarte guarda memórias que explicam a sua defesa apaixonada das cooperativas. Recorda, em criança, as dificuldades que a sua família e tantas outras da região enfrentavam para vender as uvas a preços justos. A solução acabou por ser tornarem-se sócios da Adega Cooperativa da Labrugeira.

É uma herança, mas também uma escolha consciente, a mesma que há 52 anos, uniu 18 agricultores numa visão que ainda hoje se ergue na paisagem de Alenquer.

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