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O papel do laboratório de neurogenética na medicina personalizada

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O Laboratório de Neurogenética do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC-UC) é considerado uma referência nacional no diagnóstico molecular de doenças neurológicas hereditárias, aliando investigação científica, colaboração clínica e formação avançada. Sob a coordenação da Prof.ª Maria Rosário Almeida, a equipa tem contribuído para um diagnóstico precoce e preciso de doenças neurodegenerativas — como as formas genéticas de Alzheimer e Parkinson —, promovendo uma medicina personalizada e uma maior literacia genética junto da sociedade.

 

Maria Rosário Almeida, PhD, CLG Coordenadora do Laboratório de Neurogenética Centro de Neurociências e Biologia Celular, Universidade de Coimbra (CNC-UC) Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia (CiBB) Investigadora Principal Convidada, Universidade de Coimbra

 

Como descreve a missão central do Laboratório de Neurogenética do CNC-UC e de que forma a realização de testes genéticos de elevada diferenciação tem contribuído para o diagnóstico molecular de doenças neurológicas em Portugal?

A missão central do laboratório consiste na realização do diagnóstico molecular precoce e rigoroso de diversas formas genéticas de doenças neurológicas, com especial enfoque nas doenças neurodegenerativas, contribuindo para uma melhoria dos cuidados de saúde prestados aos doentes e às suas famílias. As doenças neurológicas hereditárias, incluindo algumas formas de demência, em particular a doença de Alzheimer familiar, bem como formas genéticas da doença de Parkinson, doenças cerebrovasculares genéticas, e outras doenças neurodegenerativas, apresentam frequentemente grande complexidade clínica. Neste contexto, o diagnóstico genético tornou-se uma ferramenta central na abordagem destas doenças. Com recurso a tecnologias genéticas avançadas e à interpretação especializada das variantes identificadas, o laboratório contribui para a identificação da causa genética de diversas doenças neurológicas em doentes da região centro do país, permitindo uma melhor estratificação do risco, um seguimento clínico mais adequado, apoio à decisão terapêutica e aconselhamento genético das famílias. Para além da vertente assistencial, o laboratório desenvolve projetos de investigação científica sobre os mecanismos moleculares subjacentes a estas doenças.

Como é que a estreita colaboração com os serviços de Neurologia do país nomeadamente com o da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra contribui para consolidar o Laboratório como um centro de referência nacional nesta área e para otimizar o acompanhamento clínico dos doentes?

A colaboração estreita entre o laboratório e os clínicos que acompanham os doentes é essencial para a correcta interpretação das variantes genéticas identificadas e, consequentemente, para um melhor acompanhamento dos doentes. De acordo com as orientações do American College of Medical Genetics and Genomics, o enquadramento clínico é um dos critérios mais importantes na classificação de variantes genéticas. De facto, um resultado genético pode ter significados distintos consoante a história clínica do doente, a idade de início, os sintomas ou a evolução da doença. Neste contexto, a partilha de informação clínica detalhada entre clínicos e laboratório é essencial para uma interpretação adequada dos resultados. Por outro lado, sendo a genética uma área em constante evolução, este diálogo permite também melhorar o acompanhamento dos doentes ao longo do tempo, uma vez que variantes inicialmente classificadas como de significado incerto podem ser reclassificadas à medida que surgem novos dados científicos. Assim a estreita colaboração existente entre o nosso laboratório e os clínicos dos serviços de Neurologia de diversos hospitais do país, em particular com a ULS de Coimbra, é uma exigência de qualidade e responsabilidade, contribuindo para uma medicina verdadeiramente personalizada, centrada no doente e não apenas no resultado genético laboratorial.

Num contexto de rápidos avanços nas tecnologias de diagnóstico genético, de que forma o Laboratório integra o número crescente de testes preditivos na sua atividade assistencial e articula essa prática com o aconselhamento genético familiar?

Na verdade, os avanços tecnológicos na área da genética, nomeadamente a sequenciação de nova geração, têm permitido identificar cada vez mais formas genéticas de doenças neurodegenerativas previamente subdiagnosticadas, conduzindo a um aumento significativo dos pedidos de testes genéticos, incluindo testes preditivos em indivíduos assintomáticos com história familiar conhecida. Este novo cenário exigiu um modelo organizativo rigoroso, uma vez que a detecção de uma variante associada a uma doença neurodegenerativa de início tardio pode ter um impacto profundo na vida pessoal, familiar, profissional e psicológica no individuo. Por isso, a realização destes testes no nosso laboratório cumpre o disposto na Lei n.º 12/2005, de 26 de janeiro, que estabelece princípios fundamentais aplicáveis aos testes genéticos, com especial exigência no caso dos testes genéticos preditivos que se traduz numa prática estruturada: avaliação clínica prévia, sessões formais de aconselhamento genético pré-teste, período de reflexão quando aplicável, realização do teste apenas após consentimento esclarecido e acompanhamento pós-teste. Este enquadramento legal sublinha a importância da articulação entre o laboratório e o serviço de genética médica do Hospital Pediátrico de Coimbra, ULS de Coimbra, onde as consultas médicas são realizadas.

 

Carolina Teixeira, Ana Santos, Maria Rosário Almeida

 

 

De que forma a participação em consórcios internacionais tem impulsionado a investigação clínica e translacional desenvolvida no Laboratório de Neurogenética nos últimos anos?

O laboratório desenvolve projetos de investigação científica em estreita colaboração com equipas clínicas e académicas, nacionais e internacionais, promovendo a cooperação multidisciplinar. A experiência acumulada na análise e interpretação de variantes patogénicas, aliada à criação de bases de dados genéticos que reflectem o perfil genético da nossa população bem como os repositórios de amostras biológicas armazenadas, tem fornecido bases sólidas para o desenvolvimento de uma investigação clínica e translacional, apoiada no conhecimento adquirido ao longo dos anos no estudo de diferentes coortes de doentes. A integração em consórcios internacionais, tem sido crucial para o fortalecimento da investigação desenvolvida, uma vez que nos permite aceder a coortes maiores e mais diversificadas de doentes, dados genómicos avançados e metodologias inovadoras. A partilha de dados aumenta a robustez dos estudos, e tem gerado resultados que têm sido apresentados em sessões clínicas, reuniões científicas e publicações de artigos, beneficiando toda a comunidade científica.

O Laboratório desempenha também um papel relevante na formação pré e pós-graduada. Qual o impacto desta vertente na consolidação de competências e na criação de uma nova geração de investigadores em Neurogenética?

Sim é verdade, o laboratório acolhe e orienta estudantes nacionais e internacionais no âmbito de diversos programas de várias universidades do país, em particular da UC, com especial destaque para programas de Mestrado e Doutoramento. Também recebe estudantes para rotações laboratoriais, proporcionando-lhes uma experiência prática onde podem aplicar os conhecimentos teóricos adquiridos durante a sua formação académica e desenvolver competências técnicas, metodológicas e analíticas. Estas experiências contribuem ainda para a orientação vocacional dos estudantes, ajudando-os a optar por uma carreira científica, académica ou clínica. Esta atividade formativa tem promovido o desenvolvimento do pensamento crítico, autonomia científica e capacidade de interpretação de dados genéticos, competências essenciais para carreiras científicas, contribuindo igualmente para a formação de recursos humanos altamente qualificados e para a criação de uma nova geração de profissionais de saúde com competência clínicas e científicas na área da genética de doenças neurodegenerativas.

No contexto do Dia Internacional do DNA, que celebra o modelo da dupla hélice e o Projeto Genoma Humano, qual a mensagem do Laboratório de Neurogenética do CNC-UC para aproximar a sociedade da genómica aplicada às doenças neurológicas?

A principal mensagem que gostaria de partilhar neste dia é que o progresso científico nesta área não depende apenas do trabalho dos profissionais de saúde, mas também de uma sociedade informada e envolvida. Dar a conhecer à sociedade o trabalho desenvolvido em laboratório, promover a literacia genética e incentivar o diálogo entre investigadores, médicos e cidadãos, aumentando assim o conhecimento coletivo sobre as doenças neurodegenerativas, são passos fundamentais para que os avanços da genómica se traduzam em benefícios concretos para os doentes.

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