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A coragem de liderar com alma

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Movida por coragem e compaixão, Manuela Pimenta transformou a ciência numa missão de vida. Da mudança ousada de carreira à criação de projetos que levam diagnóstico e esperança à Guiné-Bissau, o seu percurso é um testemunho de como o conhecimento ganha verdadeira força quando se coloca ao serviço do outro. Mais do que uma farmacêutica, é uma voz ativa pela dignidade e pela vida — uma mulher que faz da ciência um ato de amor.

O seu percurso profissional reflete uma notável combinação entre rigor científico e compromisso social. Que momentos ou decisões considera terem sido determinantes para construir a carreira que hoje a define?

A minha carreira foi marcada por alguns momentos de coragem. Destaco dois. O primeiro foi escolher Ciências Farmacêuticas depois de já ter uma licenciatura em Engenharia. Foi um salto arriscado, porque comecei praticamente do zero. Mas foi também a prova de que vale a pena mudar de rumo para seguir os nossos sonhos. Hoje sei que foi a decisão certa. Ainda fui a tempo de obter três especialidades: Farmácia Comunitária, Análises Clínicas e Genética Humana. Talvez por isso me reveja no conceito de STEM Woman.

O segundo momento foi acompanhar o meu pai nas suas missões humanitárias na Guiné-Bissau. Já o acompanhava no laboratório que fundou em Ponte de Lima, mas juntos demos um salto qualitativo quando começámos a trabalhar mais profundamente na melhoria do diagnóstico laboratorial naquele país.

Ajudámos a implementar um laboratório low-cost num hospital pediátrico nos arredores de Bissau, tornando as análises básicas acessíveis à população. Foi aí que percebi que um diagnóstico atempado pode mudar um destino. Na Guiné-Bissau essa realidade torna-se mais evidente, mas é uma verdade universal: a ciência só cumpre o seu propósito quando chega a todos, sobretudo a quem mais precisa.

 

Manuela Pimenta

 

A sua ligação à Associação Hemato Pa Bô tem tido um impacto notável no reforço do diagnóstico e da formação em saúde. Que conquistas mais a orgulham neste projeto e que desafios persistem no terreno?

A Hemato Pa Bô, que em crioulo significa “hematologia para ti”, nasceu da escassa formação em medicina laboratorial e da dificuldade na interpretação dos boletins analíticos. Simplificámos conceitos e privilegiámos formações muito práticas.

Já formámos mais de meia centena de profissionais de saúde: médicos, biomédicos, bioquímicos e técnicos de laboratório. São os nossos Super-Heróis. Muitos continuaram a especialização na Guiné-Bissau e além-fronteiras.

Aprendemos que mais importante do que esperar pelo curso perfeito é ensinar com o que sabemos e com o que temos. Outra característica muito nossa é valorizar os coffee-breaks. Barriga vazia não aprende. Esses momentos acabam por criar redes de partilha entre profissionais de vários hospitais e clínicas.

Persistem desafios, como a burocracia no envio de contentores, o custo das viagens e a falta de financiamento. Muitas vezes recorremos a campanhas de crowdfunding para adquirir equipamentos.

Existe agora um pequeno aparelho point-of-care, o Ozelle®, ideal para locais com acesso limitado a energia e água. Para já é um sonho, mas sei que o vamos concretizar. Quem sabe se entre os leitores desta entrevista não estará alguém disposto a ajudar-nos a dar esse próximo passo.

 

 

Ao longo do seu percurso tem estado envolvida em vários projetos de intervenção comunitária e humanitária, como a Hemato Pa Bô, o Rotary ou iniciativas de cooperação em saúde. De onde nasce esta vontade de agir para além da prática profissional?

Há inquietações que nascem connosco e que, com o tempo, revelam o nosso propósito de vida. Mais do que ser uma profissional de referência, quero ser mãe de um mundo melhor. Num mundo cada vez mais desigual, é preciso trabalhar todos os dias para que saúde, educação e oportunidades não sejam privilégios. A missão começa sempre no coração, não na tarefa. Ao longo dos anos envolvi-me em várias iniciativas comunitárias. No Rotary Club de Viana do Castelo encontrei companheiros dedicados ao serviço à comunidade. Este ano dirijo os Projetos Humanitários e preparo-me para assumir a presidência do clube no ano rotário 2027/2028. Integrarei também a direção da Associação de Cooperação com a Guiné-Bissau (ACGB). Sou presença regular nas campanhas do Banco Alimentar de Viana do Castelo, no armazém e na organização de voluntários. Na dimensão científica integro os corpos sociais da Sociedade Portuguesa de Medicina Laboratorial e da Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos. Integro também os corpos sociais da Firstpharma Solidária, com a qual já realizámos três missões conjuntas na Guiné-Bissau.

Também gosto muito de falar com os jovens. Dou palestras em escolas e universidades sobre missões e saúde global. É uma forma de mostrar que ciência, voluntariado e cidadania podem e devem caminhar juntos. O futuro constrói-se quando transformamos conhecimento em serviço.

O Dia Internacional da Mulher convida à reflexão sobre o valor do cuidado e da empatia na liderança. Que significado pessoal atribui a esta data, tendo em conta o seu percurso profissional e humano?

Para mim, o Dia Internacional da Mulher tem um significado profundo pelas experiências nas missões em África. No terreno confrontamo-nos com realidades duras: excisão genital feminina (fanadu di mindjer), casamentos infantis, gravidezes precoces e pouco espaçadas, trabalho infantil e limitações no acesso à educação.

Estas situações têm impacto direto na saúde das mulheres. Uma das minhas lutas é a mortalidade materna. Dar à luz não pode ser uma sentença de morte. A jornalista Catarina Furtado trouxe este tema para o espaço público no programa da RTP Dar Vida sem Morrer. Em muitas partes do mundo dar vida ainda significa correr um grande risco de morrer. E esse risco aumenta a cada nova gravidez. Ao longo destes anos temos sido a voz de quem não a tem, de tantas mulheres que perdem a vida no momento que deveria ser o mais mágico das suas vidas. Tornei-me uma embaixadora das Mindjeris. É por elas que continuo esta luta contra um “Golias” chamado mortalidade materno-infantil. Defender os direitos das mulheres é defender a vida e o futuro das comunidades.

 

 

Num tempo de rápidas transformações tecnológicas e sociais, que mensagem deixaria às jovens mulheres que desejam construir uma carreira em saúde, marcada pela competência técnica mas também pelo compromisso ético e solidário?

As competências técnicas e científicas são essenciais na área da saúde. É preciso estar sempre atualizado, ter ética e rigor.

Mas aprendi que isso, por si só, não chega. As competências humanas são igualmente fundamentais: a empatia, a escuta ativa, a capacidade de compreender o outro e de trabalhar em equipa.

O conselho que deixo às jovens mulheres é que descubram o seu porquê, o seu propósito de vida. O que as move? O que as apaixona verdadeiramente? A ciência tem de ter alma. Quando juntamos competências científicas com humanidade e sentido de missão, não há Inteligência Artificial que nos derrube. Aí damos dez a zero às máquinas. No fundo, todos nós podemos escolher ser contrabandistas de esperança.

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