Criado na Universidade do Algarve em 2008, o Laboratório Itinerante de Genética Molecular (Lab-IT) tem levado a ciência às escolas secundárias, aproximando alunos e professores das práticas reais da biologia molecular. Através de experiências como a extração de ADN, PCR e eletroforese, o projeto desperta vocações para as ciências da vida e ajuda docentes a integrar os avanços da genética nos currículos modernos, reforçando o papel desta área nas ciências biomédicas, ambientais e forenses.
Em que contexto foi criado o Laboratório Itinerante de Genética Molecular (Lab-IT) na Universidade do Algarve e como é que a sua missão principal responde aos desafios curriculares da Biologia no ensino secundário?
O projeto Lab-It, criado em 2008 por Leonor Cancela, teve como objetivo contribuir para melhorar a aprendizagem de técnicas de genética molecular, um tema introduzido na época nos programas de biologia do ensino secundário. O projeto visava promover formação aos docentes e simultaneamente introduzir atividades laboratoriais em genética molecular para complementar os conceitos teóricos ensinados na escola através da realização de protocolos experimentais baseados em cenários teóricos com foco em temas de ciências forenses, ecologia ambiental, aplicações biomédicas e métodos de diagnóstico. https://www.ualg.pt/en/lab-it-itinerant-laboratory.

De que forma as sessões práticas com técnicas como extração de ADN, PCR e eletroforese fomentam não só o interesse dos alunos pelo ensino superior em biotecnologia e ciências da saúde, mas também a adaptação dos professores aos programas curriculares de Biologia?
As abordagens implementadas ajudam docentes e alunos a consolidar os conceitos de biologia molecular e suas aplicações em situações reais. Simultaneamente promovem discussões sobre os novos avanços na área e sobre as opções de carreira universitária relacionadas com os temas discutidos. Para além das sessões práticas, o Lab-It também tem promovido seminários sobre temas de interesse para alunos e professores.
De que modo as parcerias com entidades como Ciência Viva, BIOSKEL/CCMAR e CRIA, no âmbito do KCITAR e fundos europeus, impulsionam a expansão do Lab-IT para além do Algarve, fomentando investigação aplicada em áreas ambientais e forenses?
As parcerias citadas reforçam a capacidade do Lab-It para ampliar o seu alcance para além do Algarve. As sessões práticas têm gerado elevado interesse entre os alunos, que referem, através de inquéritos anónimos, uma melhor compreensão dos métodos de biologia molecular abordados nas aulas teóricas. Para um número significativo de alunos estas sessões também fomentaram o interesse em desenvolver, no futuro, trabalhos de investigação nessas áreas em contexto universitário.
No âmbito do Dia Internacional do ADN, que mensagem o Lab-IT gostaria de transmitir à comunidade escolar e geral sobre o papel da genética molecular nas ciências biomédicas, forenses e ambientais, ilustrada pelas suas ações de divulgação?
A aprendizagem dos conceitos e metodologias relacionados com o fluxo de informação genética nas células é crucial para compreender o seu impacto na ciência moderna, e na forma como este conhecimento veio alterar o nosso dia a dia incluindo a forma como diagnosticamos doenças, produzimos alimentos e resolvemos crimes, impulsionando inovações que abordam desafios críticos em matéria de saúde, ambiente, sustentabilidade e segurança.
Da molécula ao Ser Humano: Uma abordagem transdisciplinar na Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve
O corpo humano vem com um magnífico livro de instruções, que, apesar de escrito num alfabeto de apenas quatro letras, contém toda a informação necessária para regular o seu funcionamento no espaço e no tempo durante todas as etapas da vida. Toda esta informação está contida na molécula de ADN, localizada no núcleo de cada uma das nossas células. Pela primeira vez descrito em 1953 no formato em que hoje o conhecemos, o ADN é uma componente essencial da nossa identidade como seres vivos, desde que há milhares de milhões de anos uma primeira célula conseguiu guardar esta molécula e transmitir essa informação a futuras gerações. O mais espantoso é que, apesar de todas as células num organismo terem a mesma informação genética, utilizam programas genéticos diferentes em momentos diferentes, com conjuntos específicos de genes a serem ligados ou desligados em sequência, dependendo da zona do corpo onde se encontram. Assim, apesar de terem as mesmas instruções de origem, um neurónio comporta-se de forma diferente de uma célula do fígado ou do coração. Em cada um destes órgãos, existem diversos tipos de células, todas com a mesma informação no seu ADN, mas todas com uma função específica e distinta. É do funcionamento harmonioso de todos estes elementos, escritos a partir de um mesmo livro de instruções cuidadosamente guardado no núcleo da célula, como se de um centro de controlo se tratasse, que sentimos, sonhamos e vivemos. Mas nem sempre tudo corre bem: por vezes, a informação genética sofre alterações, com partes do código a serem apagadas ou alteradas, fazendo com que as células passem a receber informações diferentes do seu centro de controlo. Assim surgem algumas doenças. Não podemos deixar de falar na informação genética que coabita connosco há milhões de anos. Além dos 30 triliões de células que constituem em média o corpo humano, adicionalmente vivem connosco em simbiose cerca de 40 triliões de microorganismos, principalmente no intestino. Deste diálogo entre a nossa informação genética e a dos microorganismos que coabitam connosco, e o ambiente que nos rodeia, surge a nossa identidade enquanto seres vivos.
Na Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas (FMCB), a saúde humana é abordada desde as manifestações patológicas que surgem na prática clínica, até à mais elementar molécula residente nas nossas células. Nas licenciaturas, mestrados e programas doutorais da FMCB, o ensino da genética está presente de forma transversal e integrado com as atividades de investigação. A investigação que desenvolvemos abrange as doenças neurológicas, cardiovasculares, osteoarticulares e metabólicas, passando pelo cancro ou perturbações do desenvolvimento embrionário, desde as alterações cromossómicas mais frequentes às síndromes mais raras. Investigamos ainda os mecanismos de regulação epigenética, que tornam a expressão genética mais diversificada a partir do código escrito no ADN. Destacamos a criação da unidade curricular de Epigenética na licenciatura em Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve, pioneira na introdução desta disciplina como obrigatória ao nível da licenciatura há 10 anos.
Na FMCB, promovemos ativamente a literacia e atualização na área da Genética, e o projeto Lab-It é um bom exemplo desta prática ao nível do ensino secundário, dirigido a professores e alunos.
Inês Araújo, Diretora da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas
Tiago Outeiro, Subdiretor da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas
Leonor Cancela, Professora Catedrática Emérita da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas, e Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2026






