Há mais de 80 anos a proteger as comunidades marítimas, a Mútua dos Pescadores continua a reinventar-se entre a tradição mutualista e os desafios da modernidade. Em entrevista, João Paulo Quinzico Delgado, Presidente do Conselho de Administração, traça o percurso da cooperativa fundada em 1942, reflete sobre os impactos da Política Comum de Pescas e aponta caminhos para o futuro da proteção social no setor do mar, onde o modelo cooperativo assume um papel cada vez mais decisivo.
A Mútua dos Pescadores é uma referência na proteção das comunidades marítimas há mais de oito décadas. Como tem evoluído o vosso papel ao longo dos anos, especialmente face aos novos desafios que hoje se colocam ao setor do mar?
A Mútua dos Pescadores, como estrutura umbilicalmente ligada ao setor marítimo desde a sua fundação em 1942, tem vindo a acompanhar e a refletir no seu interior, bem como nas suas orientações estratégicas, as mutações ocorridas neste setor ao longo da nossa história recente. Desde logo, a opção de abrir o seu leque de respostas no plano da sua missão económica – a atividade seguradora –, à Nautica de Recreio, às atividades Marítimo-Turísticas ou ao Transporte Marítimo, quando até ao ano 2000 a exclusividade da sua ação radicava no setor Pesca. Foram decisões políticas difíceis de tomar, tendo em conta a identidade genética da organização, mas foram orientações estratégicas acertadas que conferiram, e conferem, um maior raio de ação e um maior equilíbrio à atividade geral da Cooperativa.

Como é que a Mútua concilia a sua missão mutualista com a necessidade de inovação e adaptação às novas realidades do setor marítimo?
Em nossa análise, só se pode acompanhar as transformações ocorridas em qualquer área, comunidade, setor ou território se houver conhecimento profundo sobre as realidades onde se quer intervir. Como condição imperativa para que tal aconteça é necessário uma grande proximidade e identificação com objeto intervencionado – pessoas, comunidades, território, setor, entre outros. Neste campo a Mútua dos Pescadores estruturou-se, de forma absolutamente inovadora e ampla. Conta com cerca de oitenta dirigentes em todo o país marítimo e tem tido uma responsabilidade institucional de grande elevação, fatores que nos permitem refletir coletivamente sobre as principais transformações sentidas e agir sobre as mesmas. São todos estes contributos, vindos de tanta gente e de tantas comunidades em todo o país, que nos permitem um conhecimento profundo daquilo que temos para melhor desenharmos o setor que queremos construir. Tem sido este o segredo da longevidade e da capacidade de adaptação da nossa cooperativa a um setor, e a um país, em acelerada transformação.
Como avalia o impacto da política comum de pescas da União Europeia no desenvolvimento da pesca artesanal em Portugal, especialmente em relação à proteção dos pescadores e da sua atividade?
Neste percurso de quase quatro décadas, o impacto da Política Comum de Pescas em Portugal tem sido atribulado. O setor está extremamente reduzido em termos de profissionais e de empresas, e a braços com um défice da balança comercial de produtos da pesca superior a 1.2M€, isto em 2024. De 1986 até hoje, perderam-se mais de 40 mil pescadores e cerca de 60% das unidades de pesca.
No entanto, as embarcações que hoje temos, bem como as condições de trabalho a bordo, são amplamente diferentes daquilo que era a realidade da frota nacional há cerca de quatro década a esta parte. Sabemos que o conceito de “sinistralidade zero” não existe, e que a atividade é desenvolvida em situações de risco constante, ainda assim, neste campo da segurança e proteção dos profissionais da pesca, que ainda resistem no setor, é radicalmente melhor. Se analisarmos o conceito mais largo de proteção social, consideramos que num setor em queda, seja do número de profissionais, seja ao nível dos rendimentos auferidos – matérias claramente correlacionadas –, os profissionais estão cada vez mais desprotegidos, seja no presente, seja em relação ao seu futuro.
Pode partilhar connosco histórias reais de profissionais do mar que tenham encontrado na Mútua um suporte vital nas suas vidas e carreiras? Que impacto concreto têm sentido junto das comunidades?
No que concerne à reparação de sinistros, graves ou menos graves, a Mútua sempre se empenhou ao máximo, de forma próxima, humanizada e célere, em fazer o melhor possível para que as suas vidas fossem afetadas o menos possível. Logo, em muitos casos, para sinistrados e suas famílias a Mútua foi um suporte vital.
No prosseguimento das suas carreiras e na sua qualificação profissional, a Mútua também se afigurou determinante quando afetava, e afeta, parte dos seus resultados à formação dos seus cooperadores, designadamente nas áreas da segurança marítima. Apoiou por exemplo a formação a muitas dezenas de associados seus no domínio da Segurança Básica – STCW, o que lhes permitiu obter requisitos essenciais para prosseguirem as suas carreiras no setor marítimo. Caso contrário, muitos ficariam vedados a esta possibilidade por não terem condições materiais para suportar um curso que era, à época, extremamente dispendioso. Também neste campo, a Mútua teve um papel determinante no rumo da vida de muitos marítimos.
Que visão tem a Mútua dos Pescadores para o futuro da proteção social no setor marítimo, especialmente tendo em conta as novas gerações de trabalhadores e as transformações económicas, tecnológicas e climáticas?
Tendencialmente, vamos tendo profissionais mais preparados e em melhores condições para responder aos múltiplos desafios que o setor marítimo irá colocar, tal como hoje já coloca. Será, em nossa análise, central valorizar social e profissionalmente estes trabalhadores para que se fixem nas suas profissões, para que tenham orgulho do seu trabalho e para que tenham a verdadeira dimensão dos impactos dos seus contributos, individuais e coletivos, para o desenvolvimento integral do funcionamento da nossa vida coletiva, seja na dimensão económica, social, cultural ou no plano ambiental. Voltamos à velha questão do desenvolvimento integral do individuo para que se torne ator central na construção de um outro setor e de um outro mundo. Para tal, é preciso criar as condições concretas para que essa transformação possa existir. Só assim se poderá proteger os trabalhadores, protegendo-se, e assegurando-se, o desenvolvimento integrado e equilibrado do setor marítimo. Infelizmente, temos verificado uma realidade bem diferente com o abandono dos setores tradicionais no campo marítimo, precariedade nos setores emergentes, desvalorização genérica das profissões e indefinição estratégica relativamente ao aproveitamento do mar e dos seus recursos, no sentido de os colocar ao serviço dos interesses do país e do seu povo.
Que mensagem final gostaria de deixar?
Permitam-me ainda assinalar aqui que, para além desta relação com as pescas e o mar, de onde parte esta pequena entrevista, a Mútua tem um compromisso maior com as suas comunidades, não fosse ela a primeira cooperativa de utentes de seguros portuguesa, desde 2004, e um exemplo de longevidade em relação às suas congéneres Mútuas de Seguros, criadas na mesma época, que já não existem.
De facto, se em 2000 abriu a sua linha de intervenção para outras atividades marítimas, hoje podemos afirmar que a Mútua protege todas as pessoas e seus bens, suas habitações, de todas as atividades económicas, bem como associações, entidades do setor público e do setor cooperativo e social.
E como temos vindo a frisar, como empresa sólida, o objetivo é continuar a crescer de forma consolidada e agir com segurança, reforçando os meios próprios e qualificando os seus recursos humanos, para continuar a ser a referência maior no setor da Pesca e demais atividades marítimas, bem como afirmar-se cada vez mais nos restantes setores de atividade. Promovendo em simultâneo, uma visão diferente da atividade seguradora e dos seguros, reforçando a sua função social, e mostrando que o modelo cooperativo é eficaz nesta atividade e responde às necessidades das pessoas.
Contribuir para o reforço das organizações em que as pessoas não são meios, mas fins em si mesmos, e em que os valores e princípios cooperativos não são apenas uma carta de princípios a que se deve obedecer, mas um modo de fazer que está no seu ADN, é também a missão desta cooperativa de utentes de seguros.
No ano em que se assinala o Ano Internacional das Cooperativas, designado pela Organização das Nações Unidas, e num momento em que a Paz e os valores humanistas estão tão frágeis, estas questões são ainda prementes.





