Reconhecida internacionalmente como uma das cientistas mais influentes da atualidade, Elvira Fortunato fala sobre o percurso que a levou da curiosidade universitária à liderança em projetos de investigação de impacto mundial. Entre a engenharia, a ciência e a política, a ex-ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior reflete sobre os desafios da carreira, o papel das mulheres na inovação e a importância de inspirar novas gerações a acreditarem no seu talento e nas suas ideias.
Como surgiu o seu interesse pela ciência e que fatores ou experiências a motivaram a enveredar por uma carreira de investigação científica?
O meu interesse pela ciência surgiu já durante o período em que estava na universidade. Eu sabia que queria ser engenheira, queria fazer coisas, construir soluções, e por isso entrei em engenharia. No entanto, foi apenas quando comecei a contactar com os laboratórios de investigação que nasceu verdadeiramente o “bichinho” da investigação. Sou, por natureza, muito curiosa, e a curiosidade é uma das condições fundamentais para fazer ciência. Costumo dizer que uma das minhas pernas é de cientista e a outra é de engenheira. No meu caso, estas duas áreas complementam-se na perfeição: a ciência permite descobrir e compreender, enquanto a engenharia permite transformar esse conhecimento em soluções concretas.
Ao longo da sua trajetória académica e profissional, quais foram os desafios mais significativos que enfrentou enquanto mulher na área da ciência e da tecnologia?
No meu caso particular, nunca senti diretamente grandes obstáculos por ser mulher. No entanto, sabemos que, de forma geral, muitas mulheres continuam a enfrentar desafios, sobretudo ao nível da progressão na carreira e da conciliação entre vida pessoal e profissional. É importante continuarmos atentos a essas questões e criar condições para que todas tenham as mesmas oportunidades.
Como conciliou e equilibrou os diferentes papéis que desempenhou ao longo da sua carreira, enquanto investigadora, professora, política e ex-ministra, e que aprendizagens retirou de cada um desses desafios?
A minha vida tem sido uma aprendizagem constante. Nunca fiz planos muito rígidos de querer ser isto ou aquilo. O que sempre ambicionei foi fazer o meu trabalho da melhor forma possível, independentemente de estar a desempenhar funções de professora, investigadora, mãe ou ministra. Ser mãe é, aliás, um dos papéis mais importantes da minha vida e também aquele que mais me ensinou. A maternidade traz-nos uma perspetiva diferente sobre o tempo, as prioridades e a responsabilidade que temos perante as gerações futuras.
Em todos esses papéis procurei dar sempre o melhor de mim. Tenho muito orgulho naquilo que faço e um enorme gosto pelo trabalho, que acaba por ser um pouco viciante. Cada experiência trouxe aprendizagens diferentes: a investigação ensina-nos a persistir, a questionar e a procurar soluções; a docência dá-nos a oportunidade de inspirar novas gerações; e a maternidade lembra-nos diariamente a importância de cuidar, orientar e dar exemplo.
A minha experiência como cientista foi também muito importante para o papel que desempenhei enquanto ministra. Considero fundamental conhecermos bem as áreas sobre as quais vamos governar. Ter trabalhado durante décadas na ciência e na academia deu-me uma compreensão direta dos desafios, das necessidades e do potencial do sistema científico e educativo, o que me permitiu contribuir de forma mais informada e responsável para as decisões políticas.
Quando iniciou a sua atividade investigadora, imaginava que as suas descobertas iriam ter um impacto tão relevante a nível nacional e internacional?
Sinceramente, nunca imaginei que o meu trabalho viesse a ter o impacto internacional que acabou por ter, e com isso projetar o nosso laboratório associado o i3N no mundo. Quando fazemos investigação, o que nos move é sobretudo a curiosidade científica e a vontade de descobrir algo novo. Ao longo do tempo, fomos percebendo que o trabalho desenvolvido pela nossa equipa estava a despertar um grande interesse internacional. Lembro-me bem de uma altura em que investigadores da Samsung, da Coreia do Sul, vieram a Portugal para ver de perto os transístores que desenvolvemos no nosso laboratório. Foi um momento muito marcante, porque demonstrava que aquilo que estávamos a fazer aqui em Portugal estava a ser reconhecido e valorizado por algumas das maiores empresas tecnológicas do mundo, trabalho esse que deu origem a uma patente.
Um outro exemplo desse reconhecimento foi o projeto INVISIBLE, na área da electrónica transparente e financiado pelo Conselho Europeu de Investigação, que liderei, e que acabou por receber o Horizon Impact Award, um prémio europeu que distingue projetos de investigação financiados pela União Europeia pelo impacto que geram na sociedade. Naturalmente, sinto-me muito orgulhosa por ver que o trabalho desenvolvido ao longo dos anos teve reconhecimento e impacto a nível internacional. Mas, acima de tudo, é gratificante perceber que aquilo que fazemos em laboratório pode contribuir para avanços científicos e tecnológicos que beneficiam a sociedade.
No contexto do Dia Internacional da Mulher, o mais recente relatório da Organização Europeia de Patentes indica que Portugal apresenta a maior percentagem de mulheres inventoras entre os países europeus. Que significado atribui a esta liderança e que fatores considera terem contribuído para este resultado?
Esta é uma notícia muito relevante e que me deixa particularmente satisfeita. O facto de Portugal liderar na percentagem de mulheres inventoras mostra que temos talento feminino altamente qualificado a contribuir para a inovação e para o desenvolvimento científico e tecnológico. Este resultado é certamente fruto de vários fatores: o investimento continuado na educação, a forte presença de mulheres no ensino superior e na investigação científica, e também políticas que têm procurado promover maior igualdade de oportunidades. É um sinal muito positivo, mas também um incentivo para continuarmos a trabalhar para que mais mulheres possam transformar conhecimento em inovação.
Na sua perspetiva, qual é o papel das mulheres na ciência e que medidas considera essenciais para promover maior igualdade e representatividade no setor?
Na ciência, curiosamente, temos hoje em muitas áreas até mais mulheres do que homens. O problema não está tanto no acesso inicial, mas sobretudo nas fases mais avançadas da carreira, onde ainda existem barreiras à progressão. Por isso, é fundamental criar mecanismos que apoiem as investigadoras nesses momentos críticos. Um bom exemplo é o programa RESTART, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que apoia o regresso à investigação após períodos de interrupção de carreira, nomeadamente associados à maternidade, e lançado durante a minha passagem pelo ministério. Medidas como estas são essenciais para garantir que o talento feminino não se perde ao longo do percurso científico.
No âmbito do Dia Internacional da Mulher, que conselho daria a jovens mulheres que ambicionam construir uma carreira de sucesso?
Como professora, há uma coisa que digo sempre aos meus alunos: nunca tenham preconceitos de inferioridade nem de superioridade. Acreditem nas vossas capacidades. Também lhes digo muitas vezes que estudem e que invistam na sua formação, porque a nossa liberdade passa muito pelas qualificações que temos. Quanto mais preparados estivermos, maior é a nossa capacidade de escolher o nosso caminho e a nossa profissão. Se gostam de ciência, sigam esse caminho com curiosidade, dedicação e persistência. A ciência precisa de talento, criatividade e diversidade. E, acima de tudo, nunca desistam dos vossos sonhos.







