Célia Coelho, CEO da Archeocélis, revela em entrevista exclusiva o seu percurso de coragem e visão estratégica na arqueologia empresarial portuguesa — um setor tradicionalmente masculino —, defendendo o património como motor de desenvolvimento sustentável, partilhando desafios subtis para mulheres líderes, estratégias de igualdade na empresa, numa reflexão inspiradora para o Dia Internacional da Mulher.
Enquanto mulher e CEO da Archeocélis, fale-nos como foi trilhar esse caminho no mundo empresarial?
Enquanto mulher e CEO da Archeocélis, trilhar este caminho no mundo empresarial foi, desde o primeiro momento, um exercício de visão estratégica, coragem institucional e compromisso com a excelência.
A criação da Archeocélis não surgiu apenas como uma oportunidade de mercado, mas como uma afirmação clara de que a arqueologia deveria ocupar um lugar central no desenvolvimento territorial e nas grandes intervenções públicas. Num setor profundamente ligado à construção civil – historicamente marcado por lideranças masculinas e por dinâmicas empresariais tradicionais – a decisão de fundar e dirigir uma empresa representou mais do que um desafio profissional: foi um posicionamento consciente.
Nunca encarei o facto de ser mulher como um elemento de excecionalidade a destacar, mas também não ignorei o contexto em que me inseria. A presença feminina era significativa no meio académico e técnico, mas menos visível nas instâncias de decisão, na negociação estratégica e na liderança empresarial. Assumir a direção da Archeocélis significou, portanto, assumir também a responsabilidade de demonstrar que competência técnica, capacidade de negociação, autoridade institucional e visão estratégica não são atributos de género – são fruto de preparação, experiência, ética e firmeza de caráter.
O percurso não foi isento de desafios. Houve momentos em que foi necessário afirmar legitimidade técnica em ambientes tradicionalmente masculinizados; outros em que foi essencial defender a arqueologia como parceiro estratégico – e não como obstáculo – em projetos de grande escala. A construção de credibilidade fez-se pelo trabalho consistente, pelo rigor científico intransigente e por uma postura firme, mas dialogante.
Ao longo dos anos, compreendi que liderar é equilibrar exigência com escuta, autoridade com clareza, estratégia com responsabilidade patrimonial. A maturidade trouxe a consciência de que a liderança mais sólida não é a que se impõe, mas a que se consolida através da coerência entre discurso e prática. A Archeocélis cresceu sustentada por esse princípio: excelência metodológica, ética profissional e compromisso inequívoco com a valorização do património.
Ser pioneira implicou responsabilidade acrescida. Não apenas para consolidar a empresa como referência no setor, mas também para contribuir – ainda que de forma silenciosa – para abrir caminho a outras mulheres que hoje assumem funções de direção com maior naturalidade e reconhecimento.
Se há mérito neste percurso, ele reside na coerência, na recusa da mediocridade e na aposta contínua na excelência científica e institucional. Mais do que ser “a primeira mulher” em determinados contextos, procurei ser uma líder íntegra, estrategicamente preparada e profundamente consciente da responsabilidade social e patrimonial que a nossa área exige.
Hoje, continuo a exercer a liderança da Archeocélis com a mesma convicção que marcou o início do projeto – mas com a maturidade que o tempo e a experiência consolidaram. O legado que procuro deixar não é apenas empresarial; é um legado de competência, ética, coragem e compromisso com o património. E é esse legado que verdadeiramente honra o meu percurso enquanto mulher e enquanto líder.

Quais considera serem os principais desafios que as mulheres ainda enfrentam em cargos de liderança no setor da arqueologia e da salvaguarda do património, e que estratégias têm sido adotadas na Archeocélis para promover a igualdade de oportunidades e o reconhecimento profissional?
Falando de forma mais pessoal, acredito que os desafios que as mulheres enfrentam na liderança da arqueologia e da salvaguarda do património não são apenas estruturais – são também silenciosos e subtis. Muitas vezes, não se traduzem em barreiras explícitas, mas numa expectativa implícita de prova constante. Ao longo do meu percurso, senti que precisava de estar sempre particularmente bem preparada, particularmente segura, particularmente fundamentada. Não porque duvidasse das minhas competências, mas porque sabia que a margem de erro atribuída a uma mulher em posição de decisão tende a ser menor.
Recordo-me de contextos em que era a única mulher em reuniões técnicas ou negociações de obra. A autoridade, nesses momentos, não se impunha; construía-se com serenidade, domínio técnico e consistência. Aprendi cedo que a firmeza não precisava de ser ruidosa, mas tinha de ser clara. Essa experiência marcou profundamente a forma como lidero hoje.
Outro desafio que reconheço é o equilíbrio entre responsabilidade profissional e vida pessoal. A liderança exige disponibilidade emocional e intelectual constante. Muitas mulheres, sobretudo em fases específicas da vida, enfrentam escolhas difíceis ou sentem que precisam de provar que a maternidade, por exemplo, não compromete a sua dedicação profissional. A igualdade formal existe, mas as exigências práticas continuam, muitas vezes, a pesar de forma diferente.
Na Archeocélis, procurei transformar essas vivências em aprendizagem institucional. Sempre tive consciência de que, tendo aberto caminho num determinado momento, tinha também a responsabilidade de não reproduzir obstáculos. Por isso, fiz questão de criar uma cultura onde a competência fala mais alto do que qualquer outro critério. A progressão baseia-se no mérito real, na qualidade do trabalho, na capacidade de assumir responsabilidade.
Valorizo profundamente o crescimento das pessoas que trabalham comigo. Há algo de particularmente gratificante em ver jovens profissionais – muitas delas mulheres – evoluírem, coordenarem equipas, apresentarem comunicações científicas, afirmarem-se com segurança. Quando observo essa evolução com naturalidade, percebo que algo mudou. E essa mudança é talvez uma das conquistas mais significativas.
Também aprendi que a liderança feminina não precisa de se definir por oposição a modelos anteriores. Pode simplesmente afirmar-se como uma forma de liderar que integra exigência e empatia, decisão e escuta. Sempre procurei exercer uma autoridade serena, sustentada em conhecimento e coerência. Não abdico da exigência – pelo contrário – mas procuro que ela seja acompanhada de respeito e reconhecimento.
Se me perguntam quais são os desafios, diria que ainda existem preconceitos discretos, resistências culturais e desigualdades na visibilidade pública. Mas também diria que existe uma geração de mulheres altamente qualificadas, preparadas e confiantes, que já não pedem autorização para liderar.
O que desejo é que, no futuro, a presença feminina em cargos de direção na arqueologia deixe de ser tema.
Que seja simplesmente natural. Se o meu percurso contribuiu, ainda que de forma modesta, para essa normalização, então sinto que o esforço valeu a pena. Porque, no fundo, nunca procurei ser exceção – procurei ser competente, íntegra e fiel à missão de preservar o património com rigor e dignidade.

Numa edição em que falamos do lado feminino e a comemorar o Dia Internacional da Mulher – que mensagem nos quer deixar?
Neste dia que comemora a Mulher, a minha mensagem é, acima de tudo, de reconhecimento e de consciência.
Reconhecimento pela competência, pela resiliência e pela capacidade de transformação que tantas mulheres demonstram diariamente – muitas vezes em silêncio, muitas vezes sem visibilidade proporcional ao seu mérito. Em todos os setores, e particularmente em áreas exigentes como a arqueologia, a ciência ou a gestão, há mulheres altamente preparadas que conciliam responsabilidade, rigor e compromisso com uma dignidade admirável.
Mas esta data é também um momento de consciência. Consciência de que os avanços alcançados não surgiram por acaso; resultaram de coragem, persistência e da recusa em aceitar limites impostos. E consciência de que ainda existem desigualdades subtis, desafios estruturais e caminhos por consolidar.
Diria às mulheres que não diminuam a sua ambição, que não silenciem a sua voz e que não aceitem a dúvida como destino. A competência não tem género. A liderança não tem género. O mérito não tem género. O que verdadeiramente diferencia um percurso é a preparação, a ética e a coerência.
Diria também que é possível liderar sem abdicar da humanidade, que a firmeza pode coexistir com empatia, que a autoridade pode ser exercida com serenidade. Não é necessário replicar modelos que não refletem quem somos; é possível construir novos referenciais baseados em integridade, conhecimento e responsabilidade.
Às mulheres mais jovens, deixo uma palavra de confiança: o vosso lugar não é concedido – é conquistado pela vossa preparação e pelo vosso trabalho. E às mulheres que já trilharam um longo caminho, deixo uma palavra de gratidão. Cada obstáculo superado abriu espaço para outras avançarem com maior naturalidade.
Que o Dia Internacional da Mulher não seja apenas simbólico, mas inspirador. Que seja um momento para reafirmar o compromisso com a igualdade real, com o reconhecimento do mérito e com a construção de ambientes profissionais onde o talento seja o único critério.
E, sobretudo, que cada mulher se permita reconhecer o seu próprio valor. Porque a transformação começa, muitas vezes, na consciência da própria força.







