Acelerar a recuperação

António Saraiva, Presidente da CIP

 

Em 2020, as nossas atenções estiveram focadas no curto prazo: na urgência da salvaguarda da saúde pública e na urgência em preservar a sobrevivência do maior número possível de empresas. Este sentimento de urgência mantém-se, numa altura em que as recentes medidas de combate à segunda vaga da pandemia estão a travar, novamente, a atividade produtiva, por um período que ainda não é possível determinar.

Nesta dupla exigência, é necessário que as medidas tomadas para combater a pandemia sejam consistentes, ponderadas e devidamente fundamentadas, sob pena de provocarem danos profundos na economia e na sociedade.

É, também necessário reforçar e reorientar as medidas temporárias com o objetivo de sustentar a tesouraria das empresas, de modo a evitar um colapso da oferta, face ao qual não haverá estímulos à procura que evitem o aumento do desemprego e o consequente agravamento da crise social.

O Governo parece já ter tomado consciência da necessidade de ser mais ambicioso nos apoios às empresas, depois de ter apresentado um Orçamento particularmente dececionante neste domínio. O conjunto de medidas já anunciado vem, embora tardiamente, no bom sentido, nomeadamente pela sua componente a fundo perdido, há muito reclamada, mas revelam-se ainda insuficientes. É preciso torná-las mais robustas, eficazes e abrangentes. É preciso operacionalizá-las com urgência.

Este foco no imediato não nos dispensa de delinear estratégias de médio e longo prazo para reforçar e acelerar a recuperação. Mas, se descurarmos estas medidas de emergência, não é apenas o curto prazo que está em jogo. Quando finalmente vencermos a pandemia, temos de ter empresas capazes de cumprir o papel fundamental a que são chamadas para a recuperação. Se, entretanto, as empresas forem esquecidas, é própria recuperação que estará em causa.

Simultaneamente, é necessário desenvolver e aprofundar não apenas o Plano de Recuperação e Resiliência, mas toda uma estratégia económica que tenha em conta duas grandes preocupações distintas mas compatíveis: por um lado a preservação do tecido produtivo existente; por outro, a reorientação do nosso modelo de crescimento e de desenvolvimento económico e social, em coerência com as opções estratégicas europeias, mas enfrentando os problemas que travam, e nalguns casos bloqueiam, a produtividade e o crescimento da nossa economia.

Para tal, os recursos de que vamos dispor a partir do próximo ano – mais abundantes, mas sempre escassos – deverão ser alocados para robustecer as empresas, através de instrumentos dirigidos à sua capitalização, do estímulo a fusões e concentrações, de uma forte aposta na formação para qualificar e requalificar os nossos recursos humanos e da sua capacitação para responder às prioridades definidas ao nível europeu em termos de transição climática e transição digital. Apesar das perspetivas sombrias para os próximos meses, mais de metade das respostas do último inquérito às empresas levado a cabo pela CIP em parceria com o ISCTE, através da sua rede associativa, indicaram a intenção de manter (ou mesmo aumentar) o investimento, em 2021, face a 2019.

Esta postura das empresas contrasta com o argumento de alguns, de que o foco deverá estar no investimento público em detrimento do estímulo ao investimento privado por, supostamente, não se poder pedir ao setor privado que invista mais, numa conjuntura negativa.

A este argumento, é preciso responder que qualquer estratégia de recuperação económica só terá sucesso com base no investimento empresarial, devendo, por isso, acionar os instrumentos que criem condições propícias a esse investimento.

Mais do que uma vez, as empresas deram provas da sua resiliência em situações adversas. A recuperação da economia, já em 2021, será tanto mais rápida e mais forte quanto a política económica for capaz de potenciar essa resiliência.

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