Em pouco mais de uma década, Sandra Soares transformou a Brain Power num caso singular no ecossistema europeu dedicado à proteção e valorização dos profissionais independentes. Nascida de uma urgência social – a falta de direitos, estabilidade e reconhecimento destes trabalhadores –, a empresa tornou-se uma referência graças à visão insistente da sua líder, que enfrentou resistências culturais, desafios legais e estigmas profundamente enraizados no mercado. Hoje, à frente de uma organização em crescimento acelerado, que combina tecnologia, conhecimento jurídico e uma abordagem humanista às carreiras, Sandra conduz um projeto que não ambiciona apenas gerir profissionais: quer redefinir a forma como a Europa entende e integra o trabalho independente. Nesta entrevista, a CEO revela os bastidores desta missão, as decisões que moldaram o percurso da Brain Power, as inovações que sustentam o seu posicionamento internacional e a filosofia de liderança que inspira uma nova geração de mulheres a transformar causas em impacto real.

Desde o primeiro momento, o propósito da Brain Power foi responder à necessidade urgente de mais direitos e estabilidade dos profissionais independentes. Quais foram os maiores obstáculos que teve de superar para transformar esta visão numa verdadeira missão empresarial?
Os maiores obstáculos que tive de superar foram, numa primeira fase, a cultura dos empresários que recorriam aos serviços dos trabalhadores independentes; numa segunda fase conseguir alterar a mentalidade dos consultores comerciais, de forma que estes entendessem que não ficavam privados de qualquer flexibilidade para desempenho das suas funções e numa terceira fase obter a confiança de ambas as partes na gestão eficaz e credível das suas fianças e das suas carreiras profissionais.
A lei laboral e fiscal, as suas atualizações e a ultrapassagem do estigma do outsourcing e sua confusão com trabalho temporário, foram igualmente um dos maiores desafios deste negócio.
De que forma a missão de garantir mais direitos laborais e soluções personalizadas influencia diariamente o funcionamento, a estratégia e o ambiente interno da Brain Power?
A nossa missão e a procura por soluções personalizadas levam a que:
1- Tenhamos de estar sempre atualizados no que concerne à lei labora e à lei fiscal;
2- Que olhemos para os consultores como pessoas individuais e com histórias de vida diferenciadas de forma a podermos arranjar soluções adaptadas as suas necessidades;
3- Para que tudo isto seja possível, temos de conhecer individualmente cada consultor enquanto pessoa e não enquanto um número mecanográfico.
Sendo a construção do grupo impulsionada pela preocupação genuína com os profissionais independentes, como garante que cada membro da equipa compreende e partilha este compromisso?
Eu consigo garantir que cada membro da equipa partilha do compromisso da Brain Power uma vez que desde o início os coloco a todos a saber apresentar o nosso modelo, a interagir e ouvir os nossos consultores e através de esta perceção podemos entender a importância da nossa missão.
Tudo isto se inicia no processo de recrutamento, onde tento encontrar pessoas, também elas, com uma história de vida diferenciadora de forma a que, através de uma liderança exemplificativa, consigam partilhar e efetivar este compromisso da Brain Power.
Quais são as principais inovações e adaptações que a Brain Power introduziu recentemente para concretizar o objetivo de ser referência europeia na gestão de carreiras dos profissionais independentes?
As grandes inovações que Brain Power efetuou de forma a ser uma referência mundial foram, essencialmente, tecnológicas. A este nível, estamos a automatizar processos, garantindo que as pessoas continuam a fazer parte dos mesmos, mas com a possibilidade de um crescimento mais sustentado na tecnologia e não tanto no acumular de funções e tarefas em cada colaborador.
Já no que concerne às adaptações que a Brain Power se encontra a fazer para ser referencia mundial nesta área, encontramo-nos a estudar a legislação de cada país e adaptarmos o modelo Brain Power à mesma. Por último, estamos a estudar culturalmente as sociedades e especificamente os seus trabalhadores independentes, de forma a conseguir arranjar soluções enquadradas na sociedade em questão.

Na sua ótica, que papel desempenham valores como estabilidade, confiança e adaptabilidade na retenção de talento, especialmente num setor marcado pela volatilidade profissional?
Valores como a estabilidade são essenciais no que concerne ao estabelecimento de regras efetivas e não dependentes da volatilidade profissional do mercado, ou seja, independentemente de hoje em dia os empregos já não serem para a vida, isso não inviabiliza que as regras do jogo sejam imutáveis.
A adaptabilidade a realidade social e cultural do mercado de trabalho é essencial para produzirmos soluções a medida das necessidades e objetivos de cada um. Já no que concerne a confiança, esta é um doa maiores motivos de retenção de talentos, pois, sem a confiança nos líderes da Brain Power e na seriedade da empresa, tudo o que foi anteriormente referido deixa de fazer sentido.
Ao longo do seu percurso à frente do grupo, que episódios recorda como decisivos para o crescimento sustentável do projeto e que lições essas experiências lhe trouxeram enquanto líder?
A primeira grande lição que eu tirei enquanto líder da Brain Power é que as crises económicas e sociais trazem-nos oportunidades de crescimento e de obtenção de colaboradores mais resilientes e enquadrados naquilo que é a missão da equipa, sendo que quem nasce em crise conseguirá sempre adaptar-se a qualquer situação futura.
O outro episodio que também nos trouxe momentos decisivos para o crescimento sustentável do negócio, foi exatamente o covid. Nesta altura, tivemos de ser criativos e adaptarmo-nos as novas situações laborais, de forma a garantirmos que não teríamos de efetuar despedimentos e que manteríamos a quebra de faturação em menos de dois dígitos. Efetivamente, nessa época, a Brain Power não despediu ninguém e conseguiu reduzir só em 9% a sua faturação.
Fazendo o balanço de 2025, quais considera terem sido as conquistas mais relevantes para a Brain Power e onde acredita que ainda existem oportunidades de evolução?
As conquistas mais relevantes que efetuamos em 2025, na minha perspetiva, prendem-se com:
1- Termos sido reconhecidos, pelas maiores marcas imobiliárias do mercado, como um parceiro de confiança e as mesmas, terem connosco efetuado protocolos de colaboração.
Face ao exposto no número 1, tivemos o incremento de 50% em número de clientes e de colaboradores, com um crescimento de mais de 34% de faturação relativamente ao ano anterior.
Temos capacidade para, no mínimo, triplicarmos estes valores, caso consigamos continuar a ganhar projeção na área das tecnologias de informação e com a abertura de um novo mercado: saúde.
Em perspetiva para 2026, quais são os grandes objetivos, novas áreas de negócio ou projetos estratégicos que pretendem implementar e como imagina o futuro do trabalho independente na Europa?
Para 2026 queremos incrementar o volume de faturação em 50%, ter como ponto estratégico a automatização de 90% dos processo internos da Brain Power e desbravar os mercados da saúde e das tecnologias da informação. O futuro do trabalho independente na europa terá de passar por empresas de outsourcing que permitam aos colaboradores a colocação recorrente em novos projetos, pois a ambição destes novos colaboradores não é trabalharem para a mesma empresa o resto da sua vida, mas sim, terem flexibilidade horária, no local de trabalho e na tipologia do trabalho que lhes mantenha desperta a criatividade e a vontade de inovarem.
Enquanto empresária e mentora, que ensinamentos gostaria de transmitir às futuras líderes para que possam transformar causas em projetos sustentáveis, inovadores e de impacto social?
É muito importante que nós nos saibamos colocar no lugar do outro e tenhamos uma inteligência emocional bastante desenvolvida, de forma a podermos transmitir aos outros que somos pessoas que nos interessamos e que queremos o melhor para elas, para nós e para todos enquanto sociedade.
Tudo isto, tem por base os ensinamentos e os crescimentos que os desafios da vida nos trazem. É importante transmitir a esta nova geração que precisam de aprender com os erros dos outros e não só com os desafios da sua vida. É importante que esta nova geração, não encare os desafios como algo mau, mas sim como oportunidade de aprendizagem e crescimento.
Que mensagem deixaria às mulheres que observam o seu percurso como uma referência de ousadia, irreverência e determinação, especialmente àquelas que ambicionam pavimentar o seu próprio caminho num contexto profissional desafiante?
Sejam perseverantes, trabalhem em equipa, construam o seu conhecimento de forma constante, sejam líderes e não apenas chefes e tenham a capacidade de adaptação e resiliência necessária para se poderem adaptar e evoluir independentemente de qual seja a situação. É importante que, em primeiro lugar, as novas líderes empresariais se conheçam bem a si próprias pois só assim poderão ultrapassar os desafios da vida e sermos uma referência para as gerações futuras.






