Situada na pequena localidade da Fonte Boa dos Nabos, na Zona da Ericeira, a tasca que hoje dá vida à aldeia é muito mais do que um simples restaurante, é o reflexo de uma ligação emocional profunda ao lugar, de uma vontade de recomeçar de uma paixão genuína pela cozinha e pelas pessoas. Carlos e Rose Teles são o casal por trás deste espaço que, desde 2018, tem vindo a conquistar tanto locais como visitantes.
A opção pela aldeia foi, acima de tudo, um gesto de gratidão. Com alguma experiência na restauração e laços antigos com a região, onde já tinham vivido há mais de 15 anos, surgiu a oportunidade de reabrir um espaço que estava fechado há muito. A decisão, conta Rose, foi tomada com o coração: “O nosso objetivo sempre foi fazer uma homenagem à aldeia. Eu adoro Portugal, mas adoro mesmo esta aldeia”. Carlos assumiu o papel de pilar e equilíbrio da dupla: “Vim para a reforma, e a Rose assumiu o restaurante”, recorda.
Portugalidade no prato e no nome
O nome da casa, Tasca da Fonte Boa dos Nabos, é uma afirmação clara de identidade. “É o nome da aldeia. Decidimos manter isso. Queríamos que fosse o restaurante da aldeia, com muita portugalidade”, explicam. A ementa reflete esta intenção desde o primeiro prato até à sobremesa. Os sabores são tradicionais, mas com um toque de personalidade. “Os pratos que mais recomendamos são o bacalhau à Fonte, o choquinho frito, o polvo na frigideira e o risoto de cogumelos com lobinho de robalinho”, nas sobremesas temos a merengada de limão, a tarte de maçã com bola de gelado, a torta de laranja com amêndoa, e a tarte de coco com nabo”, diz Rose. Para ela, cozinhar é um ato de paixão e responsabilidade: “Quando há dúvida sobre um produto, não o servimos. A saúde das pessoas está primeiro. É isso que faz um verdadeiro chef, não é só cozinhar, é acima de tudo pensar no outro”.

Ingredientes locais e autenticidade
A tradição estende-se aos ingredientes, grande parte deles oriundos da própria região. “Os legumes são de um senhor aqui da zona. Ele cultiva alface, tomate, batatas… às vezes até traz fruta da própria quinta”, refere Rose. “A carne vem de um talho na Achada, que tem criação própria. E, como é perto, se for preciso, ele entrega na Tasca, com os cortes como eu gosto”, destaca a entrevistada.
As compras são feitas em pequenas quantidades, o que garante frescura e evita desperdício. “Compramos para dois ou três dias. Se houver alguma urgência, os fornecedores vêm logo cá. Isso dá-nos total tranquilidade”, acrescenta Carlos.
Qualidade no prato e no copo
A preocupação com a qualidade estende-se também ao vinho. “Gosto muito de vinho, mas não sou enólogo. Cheiro, provo, e escolho vinhos bons”, diz Carlos, que montou uma garrafeira com referências do Douro, Alentejo, Lisboa, Trás-os-Montes, Beiras e até da Península de Setúbal. “Não vendo vinho para enriquecer. Vendo para que os clientes bebam bom vinho, sem margens absurdas.
É isso que me interessa”, sublinha. Começaram por servir vinho a copo, em box, mas Carlos nunca desistiu das garrafas: “Tinha muitas. Vendia uma de vez em quando. Agora já procuram mais. Mas o importante é que seja bom”.
Uma equipa pequena, mas de confiança
A Tasca funciona com uma equipa de cinco funcionários, duas na cozinha, a Rose e uma ajudante. “Temos dois rapazes nas salas que são o nosso espelho e eu próprio. Se for preciso vir mais cedo ou ficar mais tarde, eles estão sempre disponíveis. Vestem a camisola. Temos uma equipa que sustenta o nosso serviço”, salienta Carlos.
Ao fim de semana, chegam a servir entre 80 a 120 refeições por dia, incluindo muitos pedidos para fora. “Temos clientes fiéis, de todos os estratos sociais, alguns deles desde o início, muitas pessoas da zona, e bastantes pessoas de outras zonas do país. Isso significa muito”, evidencia Rose.
No início, rejeitaram o modelo dos menus diários, preferindo pratos à carta. “Mas durante a crise pós-pandemia tivemos que nos adaptar. Criámos pratos a 10 euros, como filetes de sardinha com arroz de tomate. Foi nessa altura que a comunicação social nos descobriu e começou a divulgar o nosso trabalho. Isso trouxe muita gente”, comenta Carlos.
Do vazio à casa cheia
Abrir a Tasca da Fonte Boa dos Nabos foi, nos primeiros tempos, um verdadeiro salto de fé. “O maior desafio? Fazer os clientes. Nós não tínhamos nada. Isto era um deserto”, lembra Rose. Sem qualquer publicidade, era Carlos quem ficava à porta a convidar os trabalhadores da zona a entrarem. “Estava desesperado, a pedir aos trabalhadores da zona para virem comer aqui”. A aldeia era praticamente desconhecida, até que começaram a surgir elogios inesperados: “Um senhor do Magoito disse-nos: ‘Vocês conseguiram fazer existir esta aldeia. Colocaram a Fonte Boa no mapa’”, destaca Rose.
A força da comunidade e o poder da palavra
Inicialmente, a ideia era criar um tasquinho para a aldeia, “um cantinho para os nossos vizinhos”. Mas depressa perceberam que isso não bastava: “Se fosse só com o pessoal da aldeia, não sobrevivíamos. Mas foram eles que nos aguentaram no princípio”, enfatiza Carlos.
A viragem aconteceu com a ajuda inesperada de uma amiga, que começou a publicar fotos da comida nas redes sociais. “A partir dali, começou a vir gente. Mas o que mais trouxe clientes foi a palavra. O passa-a-palavra é que fez a diferença”, comentam. Nem tudo foram elogios no início. Rose recorda um momento difícil: “Uma senhora veio ter comigo e disse: ‘O teu cozido é horrível. Fecha isso, dá um tempo’. Quase chorei”.
Longe de desistir, encarou a crítica como uma oportunidade.
“Ia à mercearia, pedia opiniões, perguntava como se fazia. Ouvia e aplicava”. Foi assim, com humildade e vontade de aprender, que foi afinando receitas e conquistando paladares.
Um toque único no sabor
A comida da Tasca é Portuguesa, mas com um toque especial. “Sou brasileira, não consigo fazer a comida 100% igual. A maneira de cortar, de manusear, muda tudo. Mas há sabor. Há alma. E isso sente-se”, diz Rose. Esse toque criou uma ponte com a comunidade brasileira, que encontra ali conforto e familiaridade. “Temos muitos clientes brasileiros. Mas o sabor continua a ser português, apenas com o meu cunho”, destaca a entrevistada. Carlos não tem dúvidas: “O sucesso da tasquinha deve-se muito ao sabor que a Rose dá. As pessoas dizem que lhes faz lembrar a comida da avó. E ela cozinha com esse carinho: quer mesmo que as pessoas gostem”.
Tradição com abertura à inovação
Apesar do foco na tradição, a curiosidade e a vontade de inovar estão sempre presentes. “Nos nossos dias de folga, vamos comer a outros sítios. Para aprender, experimentar, inspirar-nos”, refere Rose.
Foi assim que nasceram novas ideias, como a tarte de nabo com coco, batizada de “Naboco”. “Queria criar algo com significado. Depois de vários testes, cheguei a essa versão. E as pessoas adoram”, salienta com orgulho. Esse equilíbrio entre o clássico e o criativo tem sido a chave para manter a oferta relevante e cativante.
Crescimento com os pés na terra
A própria natureza do espaço ajudou a manter as expectativas realistas desde o início. “Abrimos com um patamar muito baixo. O nome ‘tasca’ diz tudo. E isso ajudou. Fomos crescendo devagar, com os pés no chão”, recorda Rose. A aposta na autenticidade e na simplicidade permitiu construir uma base sólida, sem pressas nem pretensões. Apesar disso, não deixaram de arriscar. “Jogámos nos dois campos. Se desse certo, era moderno. Se não, era um tasquinho, e continuava bem”, diz Carlos.

Da aldeia para o mundo
Embora esteja fora dos grandes centros, a Tasca beneficia de um perfil turístico muito próprio: o dos residentes estrangeiros. “Temos franceses, americanos, espanhóis, italianos, brasileiros, ingleses, muitos já vivem aqui na zona e gostam de frequentar a Tasca”, conta Carlos.
A isso junta-se um novo público em crescimento: nómadas digitais e surfistas que vão descobrindo o espaço. O resultado? Um negócio estável ao longo de todo o ano. “Não temos quebras financeiras. Não há picos enormes, mas também não há meses fracos. Trabalhamos com uma cadência constante”, salientam. Mas mais do que consumidores, quem visita a Tasca torna-se parte da casa. A relação é próxima, feita de respeito, amizade e hospitalidade. “Isto não é só o nosso trabalho. É a nossa vida”, diz Rose. Um espírito que vem de trás. “Antes, aos fins de semana, tínhamos sempre gente em casa.
O Carlos sempre gostou de receber, e eu de cozinhar. Trouxemos isso para aqui. A Tasca é uma extensão da nossa casa”, declara.
Planos para o futuro
A expansão, para já, não está nos planos, e há várias razões para isso. “Tentámos ver se conseguíamos crescer para o lado do café e da mercearia, mas isso não se tornou possível. A ideia era unir tudo e fazer uma remodelação”, explica Rose.
Além disso, o tempo também dita o ritmo. “O Carlos já está reformado, e eu para lá caminho. Estamos bem assim, já não temos idade para andar em grandes aventuras, mas, como é óbvio, continuamos atentos ao que se passa à nossa volta”. O que começou como uma homenagem à aldeia transformou-se numa referência da região, sem nunca perder a alma com que nasceu. E mesmo que um dia fiquem por conta própria, a Rose garante: “A Tasca só fecha se eu não puder mais. Por falta de vontade, não será”. Enquanto houver paixão, e um tacho ao lume, a Tasca continuará a dar sabor e vida à aldeia.







