Pioneira na prática de Shinrin-yoku em Portugal, Ana Borges convida-nos a abrandar, a respirar e a reencontrar o essencial através dos “banhos de floresta” — experiências de reconexão, presença e transformação interior.
Como surgiu o seu interesse pelo Shinrin-yoku e de que forma nasceu a iniciativa que fundou?
O meu interesse pelo Shinrin-yoku surgiu de forma muito natural, quase como um reencontro. Sempre senti que a Natureza era o meu lugar de equilibro, mas foi ao conhecer o conceito de banho de floresta, desenvolvido no Japão na década de 80, que compreendi que aquilo que intuitivamente procurava tinha um fundamento científico e uma metodologia estruturada.
A iniciativa que fundei nasceu de uma necessidade muito pessoal, mas também coletiva. Num mundo acelerado, onde as mulheres acumulam múltiplos papéis – profissionais, mães, cuidadoras, líderes – tornou-se urgente criar espaços de pausa, de escuta, de reconexão. O meu projeto surgiu como um convite a abrandar. A respirar. A regressar ao essencial. Hoje, o meu trabalho é mais do que guiar pessoas na floresta, é facilitar experiências transformadoras. É oferecer às mulheres, e a todos os que procura esse espaço, a possibilidade de se reconectarem consigo próprias e a redescobrirem a sua força interior.

Em que consiste o Shinrin-yoku e que benefícios procura proporcionar a quem participa nas suas sessões?
Na prática Shirin-yoku (que significa literalmente “banho de floresta”) é uma experiência de imersão consciente na Natureza. Não se trata de uma caminhada tradicional nem uma atividade física com objetivo desportivo. É um convite a abrandar, a estar presente e a despertar os sentidos. Durante uma sessão, conduzo pequenos grupos numa floresta ou espaço natural, propondo convites simples que estimulam a visão, o olfato, o tato, a audição e até o paladar. Caminhamos devagar, em silêncio, com momentos de partilha opcionais. Não há metas, não há desempenho, não há comparação/competição. Há apenas presença.
Hoje, sabemos através de diversos estudos científicos, que o contacto consciente com a floresta pode reduzir os níveis de cortisol, baixar a tensão arterial, melhorar o humor, fortalecer o sistema imunitário e promover um estado de profundo relaxamento. Mas para além dos benefícios fisiológicos, existe algo mais subtil e igualmente transformador: a reconexão. Reconexão com o corpo, que tantas vezes ignoramos. Reconexão com os ciclos naturais, que nos lembram que também somos Natureza.
Quais os principais desafios na implementação e divulgação do Shinrin-yoku em Portugal?
O primeiro desafio tem sido desmistificar o Shinrin-yoku. Normalmente, as pessoas reconhecem caminhadas ou atividades ao ar livre, mas desconhecem que existe uma prática estruturada, com base cientifica, que se diferencia de simples passeios na Natureza. Explicar que não se trata de “ir à floresta para passar o tempo” ou “abraçar árvores”, mas sim de uma experiência sensorial, intencional e terapêutica é fundamental.
Que objetivos pretende alcançar e que impacto gostaria de continuar a gerar na área da saúde e do bem-estar?
A médio e longo prazo, gostaria de consolidar o projeto como referência na área do bem-estar baseado na Natureza, criando parcerias com profissionais de saúde, empresas e instituições educativas. Acredito profundamente que o contacto consciente com ambientes naturais pode integrar programas de prevenção do burnout, gestão de stress e promoção de saúde mental, tanto em contexto corporativo como comunitário. Em termos de impacto, aquilo que desejo continuar a gerar é transformação real, silenciosa, mas profunda. Impacto na redução do stress crónico, no fortalecimento da saúde emocional, na criação de comunidades mais conscientes e resilientes. Impacto também na forma como olhamos para a Natureza, não apenas como recurso, mas como aliada parte integrante do nosso equilíbrio.
Enquanto mulher empreendedora, o meu propósito é também inspirar outras mulheres a criarem projetos alinhados com os seus valores. Mostrar que é possível construir um negócio sustentável sem abdicar da sensibilidade, da escuta e do cuidado. Que liderar pode ser sinónimo de nutrir, de regenerar e de criar impacto positivo.







