A hospitalização domiciliária tem vindo a transformar a prestação de cuidados de saúde em Portugal, promovendo um modelo mais humanizado, eficiente e sustentável. Na Unidade Local de Saúde Entre Douro e Vouga (ULSEDV), esta abordagem tem registado um crescimento notável. Para compreender melhor a evolução deste modelo, os desafios enfrentados e os benefícios concretos para doentes e profissionais de saúde, conversamos com três especialistas que desempenham um papel fundamental na Hospitalização Domiciliária da ULSEDV: Luís Andrade, Diretor do Serviço de Medicina Interna, Joana Rodrigues, responsável pela Unidade de Hospitalização Domiciliária, e João Duarte, Enfermeiro responsável da unidade.

Como avalia a evolução da hospitalização domiciliária nos últimos 10 anos em Portugal e, especificamente, na ULS Entre Douro e Vouga?
Luís Andrade (LA) – O aparecimento das Unidades de Hospitalização Domiciliárias (UHD) permitiu cuidados diferenciados e humanizados para doentes agudos no seu domicílio.
A Unidade de Hospitalização Domiciliária da ULS Entre o Douro e Vouga tem vindo a apresentar um aumento progressivo e sustentado da sua atividade, o que permitiu aumentar o número de vagas disponíveis, ao longo dos últimos quatro anos. Esta modificação permitiu triplicar o nº de doentes seguidos por esta unidade, de modo que em 2024 tenham sido orientados 447 doentes, com previsão para que no ano de 2025 ascenda aos 550 doentes.
Quais foram os principais desafios enfrentados na implementação e expansão deste modelo de cuidados?
LA – Com o aumento progressivo da lotação das UHD urge a necessidade de reforçar os recursos humanos, a nível médico e de enfermagem, e os recursos materiais e técnicos para o tratamento e vigilância dos doentes no domicílio. É premente o incremento do nº de viaturas para a deslocação dos profissionais de saúde entre o hospital e a habitação de utentes, a existência de equipas (médico e enfermeiro) para a admissão e programação de altas, e a necessidade de uma visão holística, global e descentralizada dos serviços para que os doentes dos diferentes serviços médicos e cirúrgicos possam ter acesso a esta modalidade e assim manter as taxas de ocupação acima dos 90%.
De que forma este modelo contribui para a eficiência do SNS e para a otimização dos recursos hospitalares?
LA – A UHD é, sem dúvida, uma unidade de elevado valor que proporciona o aumento da eficiência e a redução dos gastos em saúde. Ao conceder um aumento da qualidade de vida do doente e da sua família, intensifica a humanização em saúde. Melhora a formação e a literacia em saúde através da formação veiculada no domicílio, no que concerne a aspetos essencias para o tratamento do paciente. Aperfeiçoa-se a reconciliação terapêutica com consequente diminuição do nº de fármacos crónicos utilizados pelos doentes, com concomitante redução dos custos e dos possíveis efeitos laterais destes. Por último, permite um maior acesso dos doentes e da família aos cuidados de saúde hospitalar.
Que benefícios concretos foram observados nos utentes que foram tratados via hospitalização domiciliária em comparação com a hospitalização convencional?
Joana Rodrigues (JR) – A Hospitalização Domiciliária tem benefícios concretos e comprovados de ganhos em saúde e eficiência económica. Entre eles salientam-se:
- redução de complicações hospitalares (menor risco de infeções associadas aos cuidados hospitalares, úlceras de pressão ou síndromes confusionais);
- recuperação mais rápida (o ambiente domiciliário fomenta um maior conforto psicológico e promove uma maior autonomia dos doentes);
- maior satisfação do doente e família/cuidadores;
- maior adesão a cuidados de saúde e tratamentos;
- menor taxa de reinternamento;
- melhor gestão de recursos hospitalares (permite libertar camas em ambiente hospitalar para doente com índices de gravidade superiores);
- redução de custos económicos (em Portugal estima-se que o custo de tratamento de doentes em hospitalização domiciliária seja em média metade do valor de tratamento em meio hospitalar convencional).
Como tem sido abordada a formação contínua das equipas envolvidas na hospitalização domiciliária? Existem programas específicos para garantir a atualização constante dos profissionais?
JR – Existe, hoje em dia, uma vasta oferta de formação contínua em Hospitalização Domiciliária, tanto nacional como internacionalmente. Em Portugal, existem cursos e pós-graduação dedicadas à área de Hospitalização Domiciliária, disponível a qualquer profissional de saúde que se pretenda dedicar a esta área.
Além disso, existem anualmente eventos científicos, como Encontros, Reuniões Clínicas e Congresso Nacional de Hospitalização Domiciliária, locais de partilha de conhecimento e experiências.
Ainda em Portugal, assume de grande importância a existência do Núcleo de Estudos de Hospitalização Domiciliária da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, fomentadora da formação contínua nesta área.
Acresce a isto, a organização interna de cada unidade, com regulamento e protocolos próprios, que permitem uma maior consolidação de cuidados, associado a formações internas, que permitem a atualização constante dos profissionais que integram estes cuidados.

De que forma a hospitalização domiciliária transformou o papel tradicional da enfermagem hospitalar?
João Duarte – A enfermagem desde sempre prestou cuidados de proximidade, muitas vezes em contexto domiciliário. Porém, esta é uma nova realidade uma vez que estamos a levar cuidados de saúde diferenciados, de complexidade hospitalar, para o domicílio do doente. Neste contexto, fatores como as condições habitacionais e as relações/dinâmicas familiares passam a ser parte integrante do processo de tratamento. A tecnologia também se tornou essencial, com a telemonitorização, que permite um acompanhamento mais seguro do doente.
Quais são os desafios enfrentados pelos enfermeiros na prestação de cuidados ao domicílio? Qual o impacto da relação enfermeiro-doente no sucesso da hospitalização domiciliária?
JD – O internamento em regime de hospitalização domiciliária, para o doente, tem um caráter voluntário. O desafio passa por garantirmos uma prestação de cuidados com elevado grau de confiança e satisfação do doente. Os nossos doentes estão distribuídos por uma área geográfica de aproximadamente 530 km2. Esta distância é colmatada por uma, cada vez maior, capacidade de antecipar e prevenir complicações e assim assegurarmos a segurança do doente.
A relação enfermeiro-doente tem um impacto crucial no sucesso da hospitalização domiciliária. Uma comunicação eficaz e empática promove confiança e adesão ao tratamento. Há uma grande proximidade entre os profissionais de saúde, doentes e familiares. Sentem-se parte integrante do processo de tratamento, o esclarecimento de dúvidas é facilitado pelo ambiente domiciliário e verifica-se uma preparação para a “alta” mais personalizada.




