O Dia Mundial da Homeopatia celebra-se a 10 de abril, marcando o nascimento de Samuel Hahnemann, o fundador desta prática médica. A data visa consciencializar sobre este método terapêutico baseado na “lei dos semelhantes” (curar com doses mínimas de substâncias que causam os sintomas) e na ultra diluição. Este dia tem ainda como objetivo promover o conhecimento sobre a Homeopatia como uma forma de medicina integrativa e personalizada.
Quando surgiu o seu interesse pela homeopatia e quais fatores de saúde que influenciaram essa decisão?
Tomei contacto com a homeopatia num dos momentos mais vulneráveis da minha vida emocional. Procurava respostas – ou, pelo menos, esperança – para o autismo do meu sobrinho. Na altura, ele realizava tratamento biomédico em Espanha, com resultados moderados. Havia progressos, é certo, mas eram lentos, incertos e sempre acompanhados daquela inquietação persistente que tantas famílias conhecem bem: estaremos a fazer tudo o que está ao nosso alcance? Foi nesse contexto que ouvi falar de um médico homeopata na Holanda que afirmava alcançar resultados surpreendentes em crianças com autismo.
Segundo o seu trabalho clínico, verificara que algumas crianças evoluíam até determinado ponto e, depois, pareciam estagnar ou até regredir – como se existisse um bloqueio a impedir novos avanços. Na abordagem homeopática, esses bloqueios são frequentemente associados a fatores ocorridos ao longo da vida: efeitos de doenças, medicação habitual, exposição a toxinas ambientais, traumas, entre outros. Uma das estratégias utilizadas nestes casos é a chamada isoterapia, método que recorre à substância considerada desencadeadora de determinado sintoma, diluída centenas ou milhares de vezes, com o objetivo de estimular a resolução do próprio sintoma.
O médico em questão observou que, ao administrar preparações diluídas de substâncias com as quais as crianças tinham tido contacto durante a gravidez ou nos primeiros anos de vida, surgiam reações específicas seguidas de melhorias progressivas. A partir dessas observações clínicas, concluiu que o autismo resultaria da combinação entre a suscetibilidade genética individual e a acumulação de fatores ambientais ao longo do desenvolvimento.
Confesso que mantive o ceticismo. A prudência impunha-se. Ainda assim, movidos pela esperança de ajudar, decidimos avançar. Após a primeira toma de um preparado homeopático – elaborado a partir de um medicamento que a mãe tinha utilizado durante a gravidez – assistimos a algo que, naquele momento, nos pareceu extraordinário: no espaço de uma semana, uma criança não verbal começou a articular frases de três palavras. Ao longo dos meses seguintes, observámos progressos consistentes em várias áreas do desenvolvimento, até atingirmos aquilo que, para nós, representou uma recuperação plena.
Foi a força dessa experiência que me levou a aprofundar o estudo nesta área. Desde então, tenho explorado abordagens complementares no acompanhamento de casos de autismo, TDAH e outras questões do neurodesenvolvimento, integrando homeopatia, estratégias alimentares e suplementação nutricional.
As famílias que convivem com estes diagnósticos enfrentam desafios diários que raramente são compreendidos na sua totalidade. Entre terapias, expectativas e incertezas, vivem numa permanente procura de equilíbrio. E quando surgem relatos de melhoria – por mais controversos que sejam – não podemos responder com silêncio ou preconceito. Precisamos de investigação rigorosa, de diálogo informado e de uma abertura responsável ao debate. Só assim poderemos servir melhor quem mais precisa.
Quais os sinais que indicam que uma criança pode beneficiar deste acompanhamento e como é garantida a segurança das prescrições infantis?
Alguns pais relatam que a homeopatia pode contribuir para melhorias precisamente nas áreas onde cada criança apresenta maiores desafios, normalmente a seletividade alimentar, desenvolvimento da linguagem, aumento do tempo de atenção, regulação da agressividade e qualidade do sono.
Uma das vantagens é a facilidade de administração uma vez que medicamentos homeopáticos, geralmente apresentados em pequenos glóbulos de sabor adocicado que podem ser diluídos em água, tendem a ser melhor aceites por crianças que demonstram resistência a medicação convencional.
Para muitas famílias, a perceção de segurança associada à homeopatia e o desejo de evitar, sempre que possível, medicação psiquiátrica na gestão de sintomas comportamentais leva-as a procurar abordagens complementares. Essa escolha nem sempre nasce de rejeição da medicina convencional, mas de uma tentativa de encontrar soluções mais favoráveis à sensibilidade das crianças.
Mas quando defende a combinação entre homeopatia e alopatia (medicina convencional), quais considera serem os princípios fundamentais para garantir que essa integração resulte num tratamento verdadeiramente complementar e seguro para o paciente?
Quando integrada com a medicina convencional, pode ser encarada como complementar, e não concorrente. Cada uma destas abordagens tem o seu espaço próprio. A medicina convencional demonstra eficácia clara em situações agudas, infeções graves, contextos cirúrgicos e cenários de urgência. Já a homeopatia poderá responder em quadros crónicos, onde o objetivo passa por uma abordagem mais individualizada e prolongada no tempo.
Mais do que uma substituição de modelos, talvez o caminho esteja na complementaridade responsável, no acompanhamento informado e centrado no paciente. Um sistema de saúde verdadeiramente moderno não precisa de escolher entre perspetivas – precisa de avaliar, estudar e integrar aquilo que demonstra benefício real.
O Dia Mundial da Homeopatia convida à reflexão sobre o papel desta prática na saúde contemporânea. Que mensagem gostaria de transmitir alusiva a esse dia, especialmente à luz dos desafios ambientais e das mudanças nas perceções sobre bem-estar?
Ao longo dos seus mais de 200 anos de existência, a homeopatia tem acompanhado transformações profundas nas sociedades modernas. Vivemos num contexto marcado por alterações nos padrões alimentares, exposição a poluentes ambientais, utilização frequente de fármacos ao longo da vida e níveis elevados de stress. Todos esses fatores contribuem para desequilíbrios funcionais e aumento de doenças crónicas e é neste cenário que a homeopatia é cada vez mais procurada.
No centro desta reflexão não está uma técnica – está o bem-estar humano. É essa humanidade que merece abertura de espírito, rigor atento e um diálogo contínuo e cuidadoso.






