Fundada em 1956 por um pequeno grupo de viticultores de São Mamede da Ventosa, a adega cooperativa que este ano assinala 70 anos de história é hoje considerada a maior do país. À frente da administração, Paulo Coelho e Nuno Silva defendem um modelo onde tradição, inovação e responsabilidade social caminham lado a lado.
A força de uma cooperativa
“Somos considerados a maior do país, a que mais uva recebe”, explica Paulo Coelho. A dimensão mede-se três fatores: número de sócios, área de vinha e volume recebido.
Cerca de 400 famílias integram atualmente a cooperativa, onde os administradores são também sócios produtores, tal como obrigam os estatutos.
A história começou num antigo edifício do Instituto da Vinha e do Vinho, ainda antes do 25 de Abril. Seis anos depois, arrancaram as obras do atual polo de produção.
Mais recentemente, a aquisição do antigo edifício da Junta Nacional do Vinho, permitiu criar um segundo centro de receção de uvas, onde também podemos encontrar a loja de vinhos e um projeto embrionário de enoturismo. “Temos capacidade de armazenamento para cerca de 35 milhões de litros”, sublinha Nuno Silva. Mas a gestão é feita com prudência: parte do vinho transita sempre de campanha para campanha. “O vinho é um ser vivo, vive dentro de uma garrafa à espera que alguém o liberte”, diz Paulo. E como organismo vivo, exige acompanhamento constante, análises, controlo de acidez e atenção técnica.

Entre o granel e a identidade própria
Durante décadas, a adega trabalhou sobretudo em granel. Hoje em dia, a estratégia é diferente.
“Queremos afirmar as nossas marcas”, explica Nuno. O objetivo tem sido aumentar o volume embalado, com principal destaque para a valorização dos vinhos com certificação “IG Lisboa e DOC Torres Vedras”.
Entre as referências mais consumidas destacam-se: o Alma Vitis, um dos ex-líbris da casa, e os vinhos Reserva, onde a casta CALADOC assume protagonismo. “É uma casta que se adapta muito bem aqui à região”, afirma Paulo.
Castas, clima e estratégia
A região Oeste tem especificidades únicas. “As nossas vinhas não precisam de rega. Vivem da água do inverno”, explica Nuno. A proximidade ao Atlântico traz maresias e neblinas que favorecem uma maturação lenta, preservando frescura e cor. “A maturação aqui não é forçada por desidratação. É tranquila”.
Cerca de 80% das uvas recebidas são tintas e 20% brancas, mas a tendência está a mudar. “Estamos a dar sinal aos associados para plantarem mais branco”, revelam. O mercado pede vinhos mais leves, frescos, menos alcoólicos, o chamado “vinho de piscina”, fácil de beber numa tarde entre amigos.
Entre as castas brancas dominam Fernão Pires e Arinto. Nos tintos, a aposta recai em castas precoces, adaptadas a vindimas que não podem prolongar-se demasiado. “Se a casta for tardia, já não vai. Chega a outubro sem maturação biológica e depois entra numa fase de desidratação que não nos interessa”.
A escolha das castas é feita com base na experiência acumulada na região e naquilo que se adapta melhor às características do território. A prioridade passa por apostar em variedades que garantam qualidade e consistência, respeitando as especificidades do solo e do clima local.

O valor do trabalho
A cooperativa vive entre equilíbrios frágeis. Os custos de produção, como o vidro, as rolhas e a mão de obra sobem, mas o preço do vinho não acompanha automaticamente. “Não podemos chegar a janeiro e aumentar 3% no preço. Isso não é possível”. Grande parte do valor final está na embalagem e na distribuição, onde as margens são elevadas. Ainda assim, o modelo cooperativo mantém uma forte dimensão social. Não há acionistas invisíveis nem offshores. A redução global do consumo de vinho é uma realidade, mas também é a quebra de produção provocada por fenómenos climáticos.
Brindar às raízes
A adega assinala sete décadas de história com a consciência de que o vinho é mais do que um produto comercial. “Faz parte da nossa cultura e da dieta mediterrânea, considerada uma das melhores do mundo”, recordam ambos. Mais do que bebida, é alimento, símbolo e identidade.
“Brindamos às nossas raízes, cultivando o futuro”, o lema resume a visão. Modernização tecnológica, certificações de qualidade e sustentabilidade, aposta em novos mercados, mas sempre com os pés na terra que lhes deu origem.
No final, talvez seja isso que distingue esta cooperativa: a consciência de que cada litro produzido nasce do trabalho paciente de centenas de viticultores. E que, dentro de cada garrafa, há mais do que vinho. Há território, há risco, há memória, e a promessa de que, enquanto houver quem acredite na terra, haverá sempre histórias por contar à mesa.







