Numa altura em que decorre a 1ª fase de acesso ao Ensino Superior, há que refletir sobre uma realidade recente: a perda de atratividade da Enfermagem enquanto profissão e com isso se poder hipotecar a promessa constitucional de um sistema de saúde de referência.
Durante décadas, a Enfermagem foi vista por muitos como uma «aposta segura», uma profissão bem estruturada, com futuro. Essa perceção assentava em dados reais: o reconhecimento da Enfermagem enquanto ciência autónoma, da profissão enquanto pilar da organização e funcionamento de qualquer unidade de saúde, e a necessidade constante e crescente de cuidados de saúde numa população cada vez mais envelhecida. Mas hoje vivemos uma inversão perigosa dessa tendência. Já não é apenas difícil cativar e reter enfermeiros em Portugal. Começa a ser difícil atrair jovens para os cursos de Enfermagem.

Números oficiais testemunham a nova tendência. Entre 2022 e 2024, o número de candidatos às três principais escolas de Enfermagem (ESE) do País diminuíram em 25,9% – menos 1.340 candidaturas. De igual forma, o número de candidatos em que estes cursos foram a 1ª opção também diminuiu em 32,7% (573).

Fonte: DGES
No que toca aos colocados, os valores têm-se mantido relativamente estáveis, assim como a proporção de alunos em que esta foi a sua 1ª opção (cerca de 66%). Mas se compararmos os três anos, o número de estudantes em que a Enfermagem foi a 1ª escolha desceu em 5,6% – de 663 para 626.
Por outro lado, se tivermos em conta as notas de entrada nestes três cursos, a tendência também foi de descida. Senão vejamos: em 2022 a nota o último aluno colocado na ESE do Porto foi de 16,1, sendo que em 2024 foi de 15,5. Mas a maior descida foi registada em Coimbra: de 15,1 para 13,9.
Estes dados – que assentam nas três ESE que oferecem o maior contingente de vagas e que possuem uma longa tradição nesta área – levam-nos a concluir que nos últimos anos tem havido menos candidatos interessados nos cursos de Enfermagem. Estes números também parecem significar que cada vez mais se candidatam alunos com médias mais baixas e que não colocam a Enfermagem no topo das suas preferências. Mas há outro indicador que corrobora a perda de atratividade da profissão. Se analisarmos o número de diplomados nos mesmos anos e nas mesmas três ESE, concluímos que a tendência de redução também é visível em quem iniciou o curso ainda antes da pandemia.

Fonte: DGEEC
Por último, há um aspeto que não pode ser excluído da equação: a empregabilidade da profissão além-fronteiras. De acordo com a Ordem dos Enfermeiros, 50 a 60% dos recém-licenciados pedem a declaração que lhes permite exercer no estrangeiro – onde as condições de trabalho são melhores e a qualidade dos enfermeiros portugueses é sobejamente reconhecida. Há já vários anos que os fluxos migratórios também incluem enfermeiros especialistas.
Assim, não parece descabido afirmar que se está a formar a “tempestade perfeita”: a procura da profissão pelos jovens é cada vez menor, o número de alunos que conclui a licenciatura anualmente também está a diminuir, mas o expoente máximo está no facto de Portugal perder mais de 50% dos enfermeiros formados em cursos financiados pelos nossos impostos.
Uma resposta lúcida
Não é difícil perceber as razões de tudo isto! E temo que a situação não seja mais grave precisamente porque um elevado número já escolhe a área com intenção de emigrar! Porquê? Porque conhecem demasiado bem o que os espera: salários muito baixos, uma carreira pouco valorizada e morosa em termos de progressão, trabalho por turnos, horários desregulados e pressão constante para manterem os serviços a funcionar. A promessa de um vínculo sólido e duradouro já não cativa a nova geração de estudantes universitários. Até porque sabem que o volume de horas extraordinárias pode aumentar o rendimento, mas sempre à custa de um enorme desgaste físico e emocional.
Este distanciamento dos jovens da Enfermagem não é uma moda ou um desinteresse abstrato: trata-se de uma resposta lúcida às condições de trabalho que lhes são impostas.
É neste contexto que temos um Serviço Nacional de Saúde (SNS) a perder atratividade não apenas para os profissionais que já nele exercem, como também para os que potencialmente o poderiam escolher como empregador.
Há quem argumente que o problema é do SNS, mas não é assim tão simples. As unidades de saúde privadas e sociais também precisam de enfermeiros e enfrentam dificuldades idênticas para recrutar e reter enfermeiros. Sem enfermeiros todos vamos fica a perder, até porque sem eles quase nenhum serviço funciona!

Mudar o paradigma
Sabemos hoje que, para muitos dos recém-licenciados em Enfermagem, a estabilidade do vínculo é menos importante do que a colocação nas áreas de exercício pretendidas ou a integração em equipas de qualidade – onde possam “crescer” como profissionais.
O bom ambiente de trabalho também é um aspeto muito mais valorizado pelas novas gerações. Mas o que temos atualmente é uma carência crónica de profissionais, contextos de trabalho onde o assédio moral é diário, onde os enfermeiros são frequentemente mobilizados de serviço sem períodos de integração, onde nem os horários de descanso são respeitados!
Um SNS com o foco na produtividade e no aumento de atos, sem considerar os resultados em ganhos em saúde, sem carreiras que reconheçam a penosidade da profissão e que apoiem a formação profissional dos enfermeiros, tem promovido também a emigração de muitos enfermeiros experientes, descapitalizando a força de trabalho em Portugal. Se a Enfermagem se afirmou como ciência autónoma e profissão com exercício autorregulado, é preciso assegurar condições remuneratórias que compensem o trabalho diário em contextos de risco e sofrimento, mas principalmente é fundamental garantir condições de trabalho que respeitem e cuidem dos enfermeiros!
É emergente mudar de paradigma. Caso contrário, a desejável renovação geracional dos profissionais não vai acontecer e as consequências serão dramáticas para os cuidados de saúde. Sem enfermeiros em número suficiente e motivados, o sistema de saúde como o conhecemos ruirá a partir de dentro.
A solução é clara: adaptar os ambientes de trabalho aos fatores que podem fazer a diferença entre cativar ou afastar profissionais. Os decisores políticos, legisladores e gestores não podem continuar a “enterrar a cabeça na areia” e esperar que os jovens se adaptem a modus operandi burocráticos e desligados do que os rodeia.
Investir em enfermeiros não é um custo, é uma aposta num futuro melhor, no funcionamento eficiente do sistema de saúde e na coesão social. É preciso garantir que a escolha pela Enfermagem volta a ser aliciante e não um caminho “acidentado”, um risco permanente, mal remunerado e que não permite uma vida digna. Só assim conseguiremos inverter esta tendência. Só assim garantiremos o futuro da profissão e, com ele, o futuro da saúde em Portugal.






