Domingas Tavares Francisco, Fundadora e Diretora-Geral do Colégio Luar do Saber, partilha uma visão inovadora para a educação em Angola, fundada no amor, empatia e autoconhecimento. O seu projeto alia excelência académica a um compromisso profundo com a saúde mental e o impacto social, moldando um futuro onde a escola é um espaço de transformação e alma.
A sua trajetória mostra uma inquietação constante. De que forma a necessidade de “desfazer a caixa para reconstruí-la” se materializa no modo como pensa a educação em Angola?
Faço parte daquela geração que foi obrigada a estudar sem cessar, sem direito a notas negativas ou ao fracasso. O objetivo, como dizia a minha mãe e os adultos lá de casa era “ser alguém”, para trabalhar para alguém, preferencialmente, nos melhores sítios, a tempo inteiro, sem tempo para mim, para o prazer, para sonhar, para me divertir. Ou seja, eu tinha de me tornar na adulta que os adultos lá de casa um dia sonharam e não podia agir fora daquela caixa. Alimentei essa visão até conhecer o burn out, as enxaquecas recorrentes e a depressão profunda.
A partir daí, vi-me obrigada a mudar as regras do jogo, questionando absolutamente tudo à minha volta, particularmente o papel da escola e da família. A vida adulta exige de qualquer adulto a capacidade de gerar dinheiro para se sustentar, assim como a capacidade de gerir as suas emoções enquanto ganha o tal dinheiro: nem a família, nem a escola nos preparam para essa realidade. Todas as vezes que penso na marca Luar do Saber, penso na criança que queria ter sido: ouvida, abraçada, a aprender a brincar, a experimentar, a errar, a sujar, mas, acima de tudo, a ter tempo de ser criança.
A escola de hoje continua a ser trabalhada à luz do passado duro que tivemos, tanto na vertente do perfil do aluno, quanto no retrato do professor: continua a ser um depositário de regras inquebráveis, com adultos que foram perdendo o amor e a paciência para ensinar a brincar. As famílias, por sua vez, pela falta de tempo, pelo conformismo, pela incerteza, pelo caos, pela sobrecarga delegou a responsabilidade da educação dos seus filhos a estranhos e cansou-se de questionar o tipo de escola que está a formá-los. E isso não tem haver somente com Angola, é uma questão global, que está a afetar a humanidade em grande parte das geografias, Portugal incluído.
Cresci com a certeza de que bastava ter um curso superior que teria a vida resolvida para sempre. Evidentemente, isso não aconteceu e é essa ideia que quero desconstruir junto dos mais pequeninos. E o slogan do Colégio Luar do Saber (Conhecer para melhor Crescer) é o reflexo desse propósito: antes de nos preocuparmos em ter o que quer que seja, que sejamos capazes de saber quem somos, para que na vida adulta, sejamos leveza e amor na nossa vida e nos nossos relacionamentos interpessoais.

O Colégio Luar do Saber nasceu de um sonho e transformou-se num projeto com impacto social concreto. Que princípios orientam o equilíbrio entre a sustentabilidade financeira e a fidelidade ao propósito humano da instituição?
A sustentabilidade financeira nasce de um princípio que eu e o meu esposo partilhamos desde que nos conhecemos (e já lá vão muitos anos), tanto na esfera pessoal como profissional: podemos todos sair a ganhar! Quando se constrói um projeto de raíz, com propósito comunitário e sem qualquer pressa em pertencer a estatísticas imediatas torna-se possível implementar uma cultura de trabalho onde a missão, a visão e os valores estejam verdadeiramente ao serviço da comunidade. E, não se trata de uma visão idealizada ou romântica, até porque no final do mês existem contas reais a pagar. Trata-se, tão somente, de um entendimento de que todos temos de fazer a nossa parte. Os Estado-Nação, como tal, não têm conseguido fazer face à complexidade dos fenómenos sociais da atualidade e o setor da Educação, assim como outros igualmente importantes, têm sentido essa ausência de investimento assertivo e, de alguma forma, coerente. Por essa razão, enquanto mãe quero garantir que entrego a mesma qualidade de ensino que daria aos meus filhos, praticando uma tabela de preços, que enquanto mãe, novamente, fosse comportável para mim ao final do mês. Se agisse de forma contrária, estaria a atropelar fortemente, tanto a Sociologia que carrego no peito desde muito cedo, quanto a Pedagogia que o meu esposo tanto ama e que o carateriza como profissional! Somos verdadeiramente apaixonados por crianças, pela infância, pois é lá onde a vida adulta começa.
No seu discurso, a liderança surge como um ato de amor, empatia e autoconhecimento. Que conselhos deixaria a quem procura liderar com autenticidade?
A verdadeira liderança vem de dentro, vem de um ato de amor próprio profundo e insubstituível. Vem de uma noção de que é inteiramente inexequível a separação entre as esferas pessoais e profissionais, não existem duas pessoas inteiras e verdadeiras no mesmo corpo e mente. O que existe são personagens que vamos criando para cada contexto e, é desse modo, que temos visto chefes a apresentarem-se como líderes, com discursos vazios e sem qualquer propósito para com as suas próprias vidas. O(A) líder não cuida de resultados, ele(a) cuida de quem cuida dos resultados, mas para isso acontecer de forma saudável e sem esforço, este(a) tem de estar confortavelmente feliz na sua vida.
O trabalho excecional, os resultados imediatos, o crescimento acelerado, o cumprimento escrupuloso de regras, entre outras dimensões são metas de “líderes” que ainda não são líderes das suas próprias vidas, ainda precisam impressionar para pertencer, alimentam-se da comparação e da concorrência. A liderança é uma missão e os resultados positivos levam tempo a ser construídos. A liderança é sobre pessoas humanas e não sobre expectativas externas idealizadas.
Acredita que a educação pode ser o ponto de partida para uma verdadeira transformação social em Angola. Que mudanças estruturais considera prioritárias para aproximar o sistema educativo do ideal de uma escola “com alma”?
A Educação, em qualquer geografia é, sem qualquer sombra de dúvidas, um ponto de partida obrigatório para a mudança, seja ela em que sentido for. Claro que existem outros igualmente importantes, mas, para mim, o velho ditado ainda tem muito sentido: é de pequenino que se torce o pepino. A escola com alma precisa de pessoas com alma, de pessoas certas, aquelas que querem ter trabalho com o ser humano, mas que têm paciência suficiente para esperar que os frutos floresçam e nasçam sem pressa; aquelas pessoas que, mesmo tendo passado pela escola tradicional, não perderam a capacidade de inovar, de criar, de amar o próximo.
A escola com alma precisa de criatividade, de tempo, de recursos, de uma dialética permanente entre adultos e crianças. Precisamos de seres humanos capazes de sentir com empatia, com o coração e com os olhos. A ideia de que temos de preparar as crianças para o futuro está-lhes a roubar a infância e acho que a minha geração já deu provas que não está preparada para o tal futuro (que nunca chega). Os nossos tesouros estão a viver uma sobrecarga incomportável, rodeados de expectativas elevadíssimas para que se tornem naquilo que os seus educadores e progenitores não conseguiram alcançar. A escola com alma tem de ser capaz de compreender a profundidade dessa problemática e apresentar propostas alternativas ou quem sabe complementares.
Ser mulher, empreendedora e gestora num contexto africano coloca-a perante desafios multifacetados. Que estratégias têm sido essenciais para transformar a vulnerabilidade em força e a adversidade em propósito?
A espiritualidade, o equilíbrio entre corpo, mente e espírito, a meditação, o yoga, o reiki, a terapia, a alimentação equilibrada, as horas de sono com qualidade têm sido as minhas principais âncoras para essa missão que é empreender; tenho me permitido descansar a mente para que possa tomar decisões com mais clareza e discernimento; tenho praticado as recomendações que integram o meu trabalho na área da saúde mental. Quero com isto dizer que, desde muito cedo que percebi que existem situações que não dependem de mim e sobre as quais não tenho qualquer controlo e, por esse motivo, de forma muito clara e objetiva, deixei de me preocupar com elas. Já em relação àquelas que dependem exclusivamente do meu parecer, faço sempre questão de me sentar com a equipa para tomarmos as decisões em conjunto: para mim, é urgente e deveras importante compatibilizar os pontos de vista do gestor com os de quem executa o trabalho, porque existem aquelas lacunas que só temos noção quando estamos no terreno. Tenho me permitido aprender com a minha equipa e, isso, tem me retirado horas de exaustão a pensar em soluções megalómanas.
Sou eu quem dirige o navio, mas tenho uma equipa que vai me guiando e mostrando a melhor direção para o navegar mais tranquilamente e sem grandes perturbações para todos os envolvidos no processo educativo e de gestão. Temos de garantir que o rigor e a qualidade de ensino que, diariamente, buscamos para os nossos estudantes, pais, professores e comunidade educativa não nos tiram o sorriso genuíno, o amor, a empatia e a vontade de pertencer ao projeto Luar do Saber.
A minha terceira principal âncora, claro, é o meu esposo. A sua formação de base é a pedagogia, foi professor universitário por muitos anos, é gestor financeiro, portanto, tem o domínio dos números e, desse modo, vai me guiando na condução desse grande navio que é o Luar do Saber. Além de um gestor marcadamente humano, é extremamente criativo e está sempre a dar-me ideias de projetos compatíveis com o nosso propósito: por exemplo, o projeto de alfabetização de adultos completamente gratuito, o de corte e costura, o judo e o futebol comunitário infantil, do qual somos patrocinadores oficiais. Portanto, costumo dizer que estou rodeada das pessoas certas.





