Num setor historicamente fragmentado e pressionado por custos, prazos e escassez de mão de obra, a industrialização surge como um ponto de viragem para a construção em Portugal. António Moreira, CEO da APEXHAUSS, defende um novo paradigma onde projeto, engenharia e produção operam de forma integrada, trazendo previsibilidade, eficiência e maior controlo técnico ao ciclo de desenvolvimento imobiliário. Nesta entrevista, explica como este modelo está a redefinir a cadeia de valor, a relação com investidores e o próprio conceito de habitação.
A industrialização da construção implica uma mudança profunda na cadeia de valor do setor. Como é que a APEXHAUSS se posiciona face aos restantes intervenientes – arquitetos, promotores e construtores tradicionais – neste novo ecossistema?
A industrialização não elimina os intervenientes tradicionais; redefine o seu papel. O setor transita de um conjunto fragmentado de especialidades para um processo integrado e industrial.
A APEXHAUSS posiciona-se como integrador de sistemas, assegurando a coordenação entre arquitetura, engenharia e produção desde a fase conceptual. Este modelo garante que o projeto nasce alinhado com a execução, reduzindo ineficiências como incompatibilidades e desvios de custo. Mais do que intervir numa fase, estruturamos um fluxo contínuo onde a decisão de projeto e a capacidade produtiva estão em total sintonia. Diferenciamo-nos da “construção modular” genérica pelo foco na construção industrializada, onde a previsibilidade e o controlo técnico são pilares estruturais da cadeia de valor.

Num contexto de crescente pressão sobre custos e prazos, até que ponto a construção modular pode contribuir para democratizar o acesso à habitação em Portugal, sem comprometer qualidade e design?
A democratização da habitação exige eficiência, escala e a superação da escassez de mão deobra qualificada. Na APEXHAUSS, respondemos com um modelo flexível que adapta projetos externos ou utiliza sistemas standard otimizados ao perfil de cada investimento. Ao transferirmos a produção para um ambiente industrial controlado, reduzimos a variabilidade e introduzimos previsibilidade económica, impactando diretamente o custo final sem comprometer a identidade arquitetónica.
A arquitetura continua determinante, mas opera sobre uma base tecnicamente controlada. Este aumento de produtividade, assistido por tecnologia, permite manter ritmos de entrega impossíveis no modelo artesanal, tornando a escala necessária para resolver a crise habitacional tecnicamente viável.
A certificação Passivhaus exige um elevado rigor técnico desde a fase de projeto. Que desafios têm encontrado na sua implementação em Portugal e como os têm superado?
A certificação Passivhaus exige um rigor que começa na conceção e perdura até à execução. Em Portugal, o desafio reside na maturidade do ecossistema técnico e na adaptação de uma cultura historicamente menos orientada para altos padrões de desempenho. Os pontos críticos – estanquidade, pontes térmicas e compatibilização de sistemas – exigem coordenação estreita. A nossa abordagem industrializada mitiga estes riscos ao antecipar decisões e transferir o controlo para um ambiente de maior precisão. Não eliminamos o rigor; aumentamos a disciplina de projeto para garantir consistência no resultado final e eliminar os desvios de desempenho comuns em obra.

A previsibilidade é uma das grandes vantagens da construção modular. Como é que isso impacta a relação com investidores e instituições financeiras, ainda muito habituados ao modelo tradicional?
A previsibilidade industrial reduz drasticamente a exposição a riscos típicos do modelo tradicional, como derrapagens de prazo e alterações em obra. Para investidores e bancos, isto significa reduzir a incerteza no ciclo de desenvolvimento do ativo.
Ao utilizarmos uma estrutura parametrizada, o custo e o prazo tornam-se antecipáveis, permitindo uma leitura objetiva do risco e maior confiança na execução do plano financeiro. O ativo imobiliário passa a ser avaliado não apenas pela sua localização, mas pela fiabilidade do processo produtivo que lhe deu origem.

De que forma a digitalização (BIM, automação, prefabricação avançada) está integrada nos vossos processos e que ganhos concretos tem trazido em termos de eficiência e controlo?
O BIM é a nossa base estrutural de coordenação, funcionando como um sistema de antecipação que valida o projeto antes da produção. Esta continuidade entre o modelo virtual e a execução física garante precisão dimensional e qualidade constante. Mais do que eficiência operacional, a digitalização permite uma construção circular e sustentável: através do gémeo digital, realizamos análises rigorosas do ciclo de vida e minimizamos o desperdício de matéria-prima.
A rastreabilidade facilita a manutenção preditiva e a futura reutilização de elementos, transformando o edifício num banco de materiais que responde à urgência climática de forma auditável.
Num mercado onde o fator localização continua a ser determinante, acreditam que a qualidade construtiva e eficiência energética poderão, no futuro, ter um peso equivalente na valorização dos ativos?
A localização permanece estrutural, mas o mercado valoriza cada vez mais a performance global do edifício. Fatores como eficiência energética, durabilidade e custos de exploração assumem importância crescente, sobretudo em segmentos institucionais. Dois imóveis na mesma zona terão valorizações distintas com base na sua capacidade de manter valor ao longo do tempo.
Num contexto de pressão regulatória e exigência dos utilizadores, a construção deixa de ser um mero suporte para se tornar um elemento ativo na criação de valor e na resiliência financeira do ativo.

A construção modular ainda é vista por alguns como uma solução “pré-fabricada” de menor qualidade. Como tem evoluído a perceção do consumidor português e o que falta para quebrar este estigma?
A perceção tem evoluído da ideia de soluções temporárias para o reconhecimento da engenharia de precisão. O consumidor atual está mais informado e valoriza a transparência e o desempenho final. O desafio reside em clarificar a diferença entre “modular” e “industrializado”: enquanto o primeiro é muitas vezes associado à estandardização rígida, a construção industrializada foca-se na qualidade e controlo rigoroso em ambiente de fábrica.
À medida que surgem projetos de referência, a decisão foca-se menos no método e mais no conforto e na garantia de um padrão superior de habitação.

Olhando para a próxima década, qual é a visão da APEXHAUSS para o futuro da construção em Portugal?
Acreditamos numa convergência entre projeto e produção, onde a construção deixa de ser reativa em obra para ser definida no planeamento industrial. O grande obstáculo permanece a morosidade dos licenciamentos, que deve acompanhar o ritmo da inovação produtiva. Projetamos o edifício como um produto tecnológico de alto desempenho, onde domótica e sistemas energéticos nascem embebidos na estrutura.
A APEXHAUSS ambiciona liderar esta transição para um modelo de melhoria contínua, similar às indústrias automóvel ou aeroespacial, onde a qualidade é um padrão garantido pela engenharia e não pelo acaso da execução manual.






