Se os dados nos mostram, de forma inequívoca, a importância do diagnóstico precoce no cancro colorretal, o verdadeiro desafio está em transformar essa evidência em ação concreta. Foi precisamente essa vontade que em 2024 fez nascer a MovSaúde. Sabemos que não basta disponibilizar exames ou emitir recomendações. É necessário criar momentos de proximidade. Por isso, ao longo dos últimos dois anos, temos atuado em vários contextos: junto das empresas, com ações corporativas de rastreio e literacia; com ações comunitárias de sensibilização e rastreio, como a que realizámos no último dia 14 de março, no Mercado Municipal de Braga; ou através de campanhas de rastreio locais, como a que decorre em Lisboa, permitindo a qualquer pessoa elegível realizar o teste Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes de forma gratuita em +130 farmácias da cidade.

Em março, mês dedicado à sensibilização para o cancro colorretal, lançámos a nossa 3ª campanha nacional de rastreio, em colaboração com uma rede de laboratórios espalhados pelo país inteiro.
A decorrer até ao dia 31 de maio, a campanha dirige-se a pessoas entre os 45 e os 74 anos. A inscrição é gratuita e pode ser feita em movsaude.pt.
O impacto desta campanha depende, também, do esforço coletivo. Por isso, convido-o, leitor, a juntar-se à nossa missão: fale sobre o rastreio a familiares, amigos, e não adie a prevenção.
Rastreio Colorretal Prevenção e Sustentabilidade do SNS
O cancro colorretal é o tipo de cancro mais frequente em Portugal – cerca de 10.500 novos casos por ano em 2022, das taxas mais elevadas da União Europeia, segundo a Globocan. Os dados são claros: quando detetado cedo (estadio I), 89% dos doentes vivem cinco ou mais anos; quando diagnosticado tarde (estadio IV), esse número desce para apenas 16%.¹

A DGS tem vindo a reforçar o programa de rastreio, recomendando o teste de pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF), com indicação para colonoscopia quando indicado. No entanto, as taxas de adesão são baixas (29% no PSOF e 60% na colonoscopia) – o que limita o seu impacto.² Se 80% da população aderisse, seria possível reduzir novos casos em 22% até 2030.³ Além disso, tratar a doença numa fase inicial custa menos de metade do que em fase avançada – cerca de 13.000 vs 28.000€ por doente.⁴
Para o SNS, investir na prevenção não é apenas uma decisão clínica – é uma opção estratégica de sustentabilidade. Estudos com dados nacionais mostram que fazer o teste de rastreio de dois em dois anos é a opção com melhor custo-benefício.⁵
Assim, é essencial reforçar uma abordagem integrada: campanhas de informação claras, maior envolvimento dos cuidados de saúde primários, uso de meios digitais e proximidade através de farmácias e outras estruturas da comunidade. Ao mesmo tempo, é essencial garantir respostas rápidas após um teste positivo, reduzindo o tempo de espera para colonoscopia. Só assim será possível transformar evidência em resultados reais – salvar vidas, reduzir custos e tornar o SNS mais eficiente e justo.
Referências selecionadas
1 CDC. Health and Economic Benefits of CRC Interventions. 2024 | 2 Monteiro H et al. Acta Med Port. 2022;35(3):164–169 | 3 Pokharel R et al. Appl Health Econ Health Policy. 2023;21:701–717 | 4 PMC12570495. Early vs Late-Stage Cancer Diagnosis Costs. 2025 | 5 PMC8443950. Cost-Utility Analysis CRC Screening Portugal. 2021






