Na Ilha da Culatra, a energia deixou de ser apenas um bem essencial para se tornar o motor de uma revolução silenciosa. Guiada pela ciência e pela força da comunidade, esta pequena povoação da Ria Formosa ergueu-se como modelo europeu de sustentabilidade. André Pacheco, Coordenador da iniciativa, e Jânio Monteiro, Responsável Técnico, contam como o Culatra 2030 transforma vulnerabilidade em vanguarda e dá à ilha o poder de produzir o seu próprio futuro.
Da precariedade à vanguarda
No coração da Ria Formosa, onde a areia se mistura com as marés e o tempo parece mover-se ao ritmo do vento, a Ilha da Culatra tornou-se um símbolo inesperado da transição energética europeia. Da precariedade à vanguarda, de comunidade esquecida a laboratório vivo de sustentabilidade, a Culatra é hoje um caso exemplar de como a ciência, a vontade coletiva e a energia do sol podem redesenhar o destino de um território.
A iniciativa Culatra 2030 – Comunidade Energética Sustentável nasceu em 2018, quando a Comissão Europeia lançou o programa Clean Energy for All European Islands. Entre centenas de candidaturas, apenas seis ilhas foram escolhidas para se tornarem laboratórios da transição energética. Uma delas foi portuguesa. “Era uma comunidade insular com pobreza energética real, onde as casas são simples, muitas sem isolamento, e a eletricidade só chegou em 1992. Era o sítio ideal para mostrar que a sustentabilidade pode nascer da vulnerabilidade”, recorda André Pacheco, Oceanógrafo e Investigador do Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Algarve.

A força de uma comunidade
O desafio era imenso: transformar uma aldeia de pescadores, com história de resistência e exclusão, num modelo de energia limpa e participativa. A proposta da Universidade do Algarve, em parceria com a Associação de Moradores da Ilha da Culatra, foi a criação de uma Comunidade de Energia Renovável (CER) – uma cooperativa local, formada exclusivamente por habitantes, responsável por produzir e gerir a sua própria energia.
A visão técnica foi acompanhada de um princípio humano. “Desde o início, tudo foi feito de baixo para cima”, explica Jânio Monteiro, Engenheiro Eletrotécnico e Docente da Universidade do Algarve. “Nada foi decidido sem ouvir a população. A comunidade dizia o que queria, o que aceitava e o que rejeitava. O processo participativo foi a pedra angular do projeto”.
Essa metodologia, pouco comum em Portugal, revelou-se decisiva. A desconfiança inicial – fruto de décadas de abandono e de uma relação difícil com a administração pública – deu lugar a um diálogo construtivo entre pescadores, investigadores, empresas e autoridades. A academia tornou-se mediadora, traduzindo a linguagem técnica da energia para a realidade quotidiana da ilha.
Sustentabilidade: o ponto de partida
Em conversa com o professor Jânio Monteiro, um dos responsáveis pela iniciativa, ficou claro que a sustentabilidade, particularmente na componente energética, é o motor da transformação. “Tudo começa na sustentabilidade”, sublinha.
A aposta é clara na geração de energia renovável – sobretudo solar – para aumentar a capacidade autónoma da ilha.
“A produção tem que igualar o consumo em termos instantâneos”, explica. Diferente do sistema nacional, em que grandes centrais asseguram o equilíbrio, na ilha a gestão é local, complexa e dinâmica. “Temos que monitorizar os consumos em tempo real, minuto a minuto, e ajustar o consumo à geração que varia ao longo do dia”. Um dos principais desafios encontra-se na intermitência das fontes renováveis. “Estas fontes são intermitentes e, por isso, a energia tem de ser usada no momento em que é gerada”, refere. A gestão passa assim a controlar também o consumo: “Ligamos e desligamos equipamentos, acumulamos energia, tudo para otimizar a utilização daquela energia disponível”.
O projeto de comunidade de energia renovável integra 25 consumidores – entre residentes e pequenas empresas – com sistemas tecnológicos instalados para monitorização e controlo inteligente. “O ideal é que cada pessoa utilize a energia que lhe cabe no momento certo, porque a energia se não for consumida no momento em que é gerada perde o valor”.
Este esforço local e tecnológico valeu à Culatra o reconhecimento como projeto-piloto da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos – ERSE. “Somos a universidade que lidera este desenvolvimento tecnológico e de investigação que transforma a ilha numa comunidade energeticamente sustentável”, sublinha.
De território ameaçado a exemplo de futuro
Durante anos, a Culatra lutou pelo direito de existir. Inserida no Parque Natural da Ria Formosa desde 1987, viu as suas casas declaradas ilegais e os seus habitantes privados de apoios. Só em 2018, após anos de reivindicações, o Parlamento reconheceu o núcleo piscatório como comunidade consolidada. Esse reconhecimento coincidiu com o nascimento do Culatra 2030 – e a coincidência tornou-se destino.
A cooperativa que faz mover a ilha
Hoje, a C-COOP – Cooperativa para a Sustentabilidade da Ilha da Culatra é o motor do projeto. Criada por jovens culatrenses, gere a energia, mas também a economia do mar e as iniciativas sociais. Painéis fotovoltaicos instalados em edifícios comunitários abastecem casas, pequenas empresas e infraestruturas locais.
A energia é monitorizada em tempo real e distribuída de forma inteligente através de algoritmos que ajustam o consumo à produção. O objetivo é alcançar 100% de autonomia energética diurna até 2030, meta já apoiada pelo programa MAR 2030.
Tecnologia, circularidade e impacto social
O modelo assenta na circularidade económica: o lucro gerado pela venda da energia é reinvestido na melhoria das habitações, na eletrificação da frota pesqueira e na educação ambiental. “A maior conquista foi a criação de uma massa crítica”, sublinha André Pacheco. “Hoje há cerca de 20 pessoas na Culatra que pensam o futuro coletivo, que participam, que lideram. Isso é transformador”.
A sustentabilidade energética consolidou também uma nova economia local, assente no mar, no sol e na cooperação. A ostreicultura, por exemplo, tornou-se um setor florescente e exportador.
Um modelo replicável
A experiência da Culatra encontra hoje eco em outros territórios. Projetos semelhantes estão em marcha em Vila Verde e em várias localidades de Espanha, apoiados por programas INTERREG coordenados por Jânio Monteiro. “Cada território adapta as soluções ao seu contexto, mas a essência é a mesma: energia limpa, participação cidadã e retorno local”.
Um farol português na transição energética
Distinguida com o Prémio Visão de Energias Verdes e no Portugal Smart Cities Summit, a Culatra é hoje visita obrigatória para quem quer compreender uma transição energética que é tecnológica e social. Até 2030, a estratégia inclui expandir a produção fotovoltaica, integrar baterias com recurso a outras fontes renováveis e assegurar a resiliência da rede elétrica. Mais do que um objetivo técnico, trata-se de uma mudança cultural. “As pessoas estão a aprender a ler o consumo em tempo real, a ajustar hábitos, a sentir-se parte de um sistema coletivo”, nota Jânio Monteiro. A ilha que um dia foi símbolo de carência é hoje um farol. Um farol que ilumina não só a Ria Formosa, mas o futuro possível de Portugal. Porque, como lembra André Pacheco, “a energia – tal como a dignidade – só tem valor quando é partilhada”.

C‑Coop: Energia da Comunidade
Jóni Santos cresceu na Culatra com a liberdade de quem habita uma ilha onde todos se conhecem. Aos 33 anos, regressa à terra natal como doutorando em Engenharia Eletrotécnica, investigador da iniciativa Culatra 2030 e Presidente-Fundador da C-Coop – Cooperativa para o Desenvolvimento Sustentável da Ilha da Culatra. A missão é ambiciosa: transformar a comunidade de cerca de 800 habitantes num exemplo de autossuficiência energética e desenvolvimento coletivo.
A motivação nasceu da experiência pessoal. “Cresci habituado a falhas de energia. No inverno o cabo submarino partia e chegavamos a ficar dias sem eletricidade”, recorda. Foi esse problema que inspirou a criação de uma comunidade de energia renovável assente no enorme potencial solar do Algarve.
A C-Coop surgiu em 2022, no âmbito do Culatra 2030, com 15 membros fundadores representativos das diversas atividades da ilha e das três associações locais. “Queremos uma cooperativa sem interesses individuais: todos têm o mesmo voto, independentemente do capital investido”, afirma. O projeto-piloto de energia renovável foi aprovado em 2023, colocando a C-Coop entre as sete iniciativas nacionais selecionadas, ao lado de empresas como Galp e EDP. Das 70 habitações inscritas, 25 foram escolhidas – todas de residentes permanentes. “Abrimos as inscrições a todos, exceto a nós que gerimos”, sublinha Jóni.
Mas a burocracia veio travar o avanço. “Temos o projeto aprovado desde o início de 2023, estamos no fim de 2025 e seguimos à espera de um papel para poder operar”, lamenta. Ainda assim, o engenheiro mantém-se otimista: “A Culatra vai tornar-se mais resiliente. O Culatra 2030 não é só energia, é muito mais: trabalhamos noutros ramos e as pessoas já veem resultados”.

Recentemente, a cooperativa garantiu financiamento do programa MAR 2030 para requalificar a zona de trabalho dos pescadores, hoje degradada. “Vamos criar sombreamentos seguindo a arquitetura paisagística da ilha e reabilitar o antigo telheiro coletivo destruído por uma tempestade”, adianta. Será neste espaço que surgirá uma nova central fotovoltaica capaz de elevar a autossuficiência energética da Culatra dos atuais 25% para cerca de 100% até 2027.
Para Jóni, “o mais difícil é o arranque”. Confia que, uma vez em funcionamento, “a máquina não vai parar”. O modelo mantém-se simples: os cooperadores pagam a energia à própria cooperativa, a um preço fixo e acessível. “A cooperativa é deles. No final do ano, decidem se reinvestem em novos painéis, na requalificação de espaços ou noutras necessidades da ilha”.
Entre as dificuldades, destaca-se a pressão turística. “Antes vivíamos de porta aberta; agora é impossível. As pessoas entram nas casas e fotografam sem pedir autorização”. Neste âmbito, foi desenvolvido o manifesto do turista responsável – um pequeno guia para que todos os visitantes possam disfrutar da Culatra de forma mais equilibrada – presente em várias línguas no cais de embarque. Também os barcos que fazem a travessia para Olhão enchem-se no verão, não havendo qualquer distinção entre moradores e turistas. Não existe um passe social.
Apesar de tudo, Jóni Santos projeta um futuro em que a cooperativa cria emprego, autonomia e orgulho comunitário. “Quero ver o reflexo desse sucesso nas pessoas. Estamos a criar uma economia circular: financiamos-nos a nós próprios, somos donos do nosso futuro. Este sentimento de impotência vai mudar. Hoje temos a cooperativa – pagamos a nós próprios e podemos investir para melhorar as nossas condições de vida”.
* O projeto (0081_CEL_RURAL_6_E_V3) Desarrollo de actuaciones piloto para el fomento de comunidades energéticas locales en entornos rurales del espacio POCTEP é financiado pela União Europeia, no âmbito dos programas FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional) e INTERREG.





