Depois de quase 25 anos na indústria agroalimentar, Marta Casimiro lidera agora a Meat Heritage, a marca que ambiciona romper os preconceitos dos portugueses sobre carne ultracongelada. Entre a técnica, a audácia e uma estratégia assente na sustentabilidade, tornou-se o rosto de uma mudança que acredita ser apenas o começo.
A trajetória que abriu caminho à inovação no ultracongelado
Marta Casimiro começou cedo e de forma inesperada. Acabada de concluir o curso de Engenharia Agroalimentar, foi “empurrada” para o mercado de trabalho: “Quando terminei o curso, acabei por entrar quase de imediato na empresa que o meu marido tinha acabado de fundar. Ele dominava a parte técnica, mas precisava de alguém para a área da qualidade”.
Sem referências, mentores ou departamentos estruturados, criou do zero uma área que viria a sustentar o crescimento de um dos maiores grupos de massas congeladas do país. A juventude e a ligação familiar foram obstáculos reais numa fase inicial.
“Para muitos, eu era só a namorada do fundador. Depois passei a ser a esposa. Isso não ajuda quando se quer ser vista como profissional competente”. Foi na necessidade de se impor pela competência, e não pelo cargo que desenvolveu a liderança de proximidade que ainda hoje define o seu estilo. “Aprendi que liderar é estar perto. As pessoas respeitam quando vêem o exemplo”.
Depois de 20 anos na Panidor e de uma operação que chegou a incluir várias empresas, Marta e o marido venderam o grupo em 2022. A partir daí, nasceu a missão seguinte.

A oportunidade na carne ultracongelada
A Meat Heritage surge da análise crítica de um mercado onde a inovação ainda encontra resistência. Foi através da experiência acumulada e de estudos de mercado que identificou um padrão claro: Portugal consome apenas 4% de carne congelada, muito abaixo da média europeia. E a razão não é técnica é cultural.
“O português aceita legumes, peixe, pão congelado, mas tem preconceito com a carne. Considerada que tem menos qualidade. Eu quero provar exatamente o contrário”.
A tecnologia de ultracongelação, explica, preserva a carne no seu melhor estado de frescura, sem aditivos ou perdas nutricionais. O objetivo é reposicionar o produto num mercado que valoriza qualidade, conveniência e segurança alimentar.
Liderar a transformação
Quando a marca lançou a campanha que dá destaque à carne ultracongelada, Marta assumiu a frente da comunicação.
“Ser o rosto desta mudança é assumir responsabilidade total. Acredito profundamente no produto e na tecnologia. Tenho 25 anos de experiência, sei o que funciona”.
Para a gestora, esta campanha não é apenas marketing: é um compromisso público com a credibilidade técnica que construiu ao longo de décadas.
As mensagens que Marta Casimiro quer transmitir são claras: a carne ultracongelada é tão boa ou até melhor do que a carne fresca, garante um consumo mais seguro e sustentável, e a Meat Heritage pretende liderar uma nova forma de pensar a carne em Portugal.

Sustentabilidade: mais do que um slogan
O discurso de Marta volta recorrentemente ao impacto ambiental do setor. A aposta no ultracongelado é, acima de tudo, estratégica. “A carne ultracongelada reduz drasticamente o desperdício, aumenta a vida útil sem conservantes e torna a logística muito mais eficiente”.
A tecnologia permite planear melhor a produção, evitar excedentes e garantir que o consumidor utiliza 100% do produto. Para Marta, sustentabilidade não é tendência, é ferramenta de gestão e de futuro.
Liderança feminina num setor tradicionalmente masculino
Apesar de ter começado num ambiente em que a maioria das chefias eram homens, Marta não centra a narrativa na desigualdade; centra-a na competência. “Nunca me queixei de ser tratada de forma diferente. Fui respeitada. Mas, claro, tive de provar mais: era mulher, era jovem e tinha ligação familiar ao fundador”.
Hoje integra a rede mulher líder e vê cada vez mais profissionais femininas a assumir cargos em setores onde antes não se imaginava. “A liderança mostra-se nos atos e na proximidade. Não é preciso ser exuberante para inspirar. Basta ser consistente”.
Próximos passos na liderança do setor alimentar
Os próximos passos estão definidos: intensificar a comunicação, produzir conteúdos educativos, reforçar demonstrações e continuar a construir confiança no mercado. “Já criei um e-book totalmente dedicado ao tema. Comunicar será a grande arma para romper preconceitos”.
Marta faz questão de sublinhar que não conduz esta transformação sozinha: “Somos uma equipa. Tudo o que fazemos, fazemos juntos”. Com a ambição de tornar a carne ultracongelada uma referência na alimentação portuguesa, Marta Casimiro acredita que a experiência acumulada é o motor que lhe permite continuar a inovar. E, tal como há 30 anos o país aprendeu a confiar no pão congelado, está pronta para liderar a próxima grande mudança do setor alimentar.





