Num ecossistema criativo em mutação, a D’FRONT reafirma-se como um estúdio onde direção e propósito prevalecem sobre a velocidade. Sob o olhar de Sebastião Seguro, Managing Partner e Art Director, a agência conjuga estratégia, estética e tecnologia para construir marcas com sentido, coerência e longevidade, num mercado cada vez mais dominado pela instantaneidade.
Como Managing Partner e Art Director da D’FRONT, como concilia a supervisão criativa diária com a gestão estratégica do estúdio num ecossistema criativo cada vez mais fragmentado por freelancers e criadores independentes?
Hoje há mais talento disponível do que nunca. Isso trouxe velocidade e volume, mas também trouxe muito trabalho feito sem direção, de forma esporádica e focado mais em quantidade do que qualidade. O resultado é trabalho sem sumo e sem continuidade.
Na D’FRONT, procuramos exatamente o contrário. Criamos soluções integradas, com direção clara desde o início, sustentadas no know-how que fomos construindo ao longo do tempo. Tudo começa na estratégia macro e no legado da marca. Só depois se traduz em execução. Isso permite-nos desenvolver projetos que perduram no tempo, geram impacto real e que realmente fazem sentido para o público a que se destinam.

A D’FRONT foi eleita Agency of the Year em 2022. Que lições dessa conquista moldaram a vossa abordagem à economia dos criadores, onde colaborações informais e microestúdios ganham terreno?
Essa distinção foi importante, mas mais do que validar o passado, ajudou-nos a clarificar o futuro. O mercado está claramente a mover-se para estruturas mais leves e colaborativas. Nós próprios trabalhamos com talento externo quando faz sentido, mas a diferença fundamental é que a direção estratégica continua centralizada. A economia dos criadores trouxe agilidade, mas também trouxe fragmentação. O nosso papel enquanto agência é exatamente criar coerência, visão e continuidade.
No vosso processo de branding, como integra a direção artística com narrativas conceptuais que vão além do visual, transformando marcas em ecossistemas vivos?
Para nós, branding é trabalhar a perceção. Uma marca vive em múltiplos pontos de contacto e se não houver coerência, a perceção dissipa-se ou é mal interpretada. O nosso processo passa por definir primeiro o posicionamento e a narrativa estratégica, e só depois traduzir isso em linguagem visual. É aí que muitas empresas falham, investindo primeiro no “look” sem resolver o “porquê”.
O que procuramos construir são sistemas com identidades que perduram no tempo, que escalam e que suportam esse crescimento. O design é apenas a materialização visível dessa estrutura.
Tendo em conta o portefólio impressionante da D’FRONT, pode partilhar um caso de sucesso que ilustre como o vosso trabalho transformou não só a identidade visual de uma marca, mas também o seu posicionamento e resultados comerciais?
O nosso caso mais completo é a Fruut, que esteve connosco num processo evolutivo de 10 anos onde acompanhámos a evolução de uma marca de nicho até produto de massas, hoje distribuído em todo o mundo. O nosso trabalho foi reposicionar a perceção ao longo do tempo, de “snack saudável” para “snack irresistível”, e mudar o campo de batalha, do corredor da fruta para o corredor dos snacks de impulso. Isso implicou repensar a identidade, packaging e comunicação. Quando a perceção muda, a forma como o produto compete também muda. É aí que o branding deixa de ser só cosmético e passa a ser crescimento.
De que forma a D’Front está a adaptar a sua estratégia competitiva face a empresas que utilizam IA para acelerar processos de inovação, personalização e tomada de decisão em tempo real?
A Inteligência Artificial está a transformar profundamente a forma como o trabalho é executado. Por isso incorporámos a tecnologia de forma estrutural no nosso processo. Ao aplicar AI conseguimos potenciar e elevar o nível de execução. No projeto para a Volkswagen Group Digital Solutions, a IA permitiu elevar o nível de ambição criativa, resolver desafios técnicos complexos sem sacrificar a visão. O resultado, para além do reconhecimento com prémio de criatividade, foi pedido para ser replicado para as operações da Volkswagen noutros mercados.
Como é que a empresa equilibra o uso de IA para ganhar eficiência e vantagem competitiva com a necessidade de manter a autenticidade, a ética e a confiança dos clientes?
Além de capacitar os nossos projetos, aplicámos automação em processos repetitivos, e IA agêntica em trabalho administrativo, calendarização, análise e pesquisa. Na produção, usamos a IA para testar mais rápido, explorar mais opções e apoio técnico, mas a decisão e execução continua a ser humana. Temos consciência de que a eficiência não pode comprometer a qualidade. A IA acelera e potencia os projetos, mas não substitui a narrativa nem a intenção. O risco não está na tecnologia, mas na forma como é utilizada. Quando tudo é mais rápido e mais acessível, torna-se ainda mais importante garantir coerência e consistência.

Que cenários a D’Front antevê para o mercado com automação e a IA generativa e como planeia diferenciar-se num cenário onde todos têm acesso a ferramentas avançadas?
À medida que a AI evolui, o nível médio do mercado vai subir. Mas isso já aconteceu com cada grande transformação tecnológica anterior. O padrão é o mesmo: quem dominar melhor as novas ferramentas consegue criar projetos mais ambiciosos. Por outro lado, fazer mais com menos, ou seja projetos que antes exigiam equipas grandes e orçamentos elevados tornam-se mais acessíveis. Isso está a desbloquear oportunidades e muitas ideias que antes não avançavam por limitações de budget passam agora a ser viáveis. No entanto, cabe também às marcas continuarem a saber que precisam de se diferenciar e resistir à troca de qualidade por quantidade.
Olhando para o futuro, que novas fronteiras estratégicas ou criativas pretende a D’FRONT explorar para se posicionar como referência global no branding português?
Estou curioso para descobrir os limites aplicáveis da IA no setor e até onde ela nos pode levar. Em particular a exploração de identidades generativas e sistemas de design vivos que se adaptem instantaneamente ao consumidor com pequenas nuances, de forma a manter a consistência de marca, mas correspondendo à necessidade momentânea de cada um.






