Numa conversa franca com Bruno Boto da Cruz, Diretor Criativo da BOTODACRUZ, ficamos a conhecer a alma de um estúdio que nasceu em Faro, no Algarve, como espaço criativo dedicado ao design ético e transformador.
Como nasceu a BOTODACRUZ e qual o seu percurso?
A BOTODACRUZ nasceu como um estúdio criativo para se tornar, ao longo dos anos, numa agência focada no desenvolvimento de projetos de design e comunicação estratégicos, de impacto e significado. Desde o início que estabeleci uma missão clara para a empresa, que deriva de uma inquietação profunda relativamente à forma como habitamos este planeta. Muitas vezes, a nossa disciplina é reduzida à cosmética, ao “fazer bonito”, até àquilo que nem sempre o é, e isso não só é lamentável como pouco ético. Para mim, o design, como ferramenta poderosa de construção e mediação, deve ser usado de forma consciente e positiva, sempre que possível em projetos que façam a diferença e ambicionam tornar este mundo um sítio melhor. O nosso percurso tem sido uma evolução da forma para a intenção. Ao longo dos últimos anos, deixámos de ser um estúdio focado apenas na execução para nos tornarmos numa estrutura estratégica de design e comunicação. Hoje, cada projeto que entra no estúdio é pensado e desenhado tendo em consideração o problema real que estamos a tentar resolver. Quando, por exemplo, trabalhamos com o iMM (Instituto de Medicina Molecular) ou com a Universidade NOVA, não estamos apenas a desenhar brochuras; estamos a ajudar a sociedade a compreender a ciência. Se trabalhamos com a Associação Almargem ou a Agência Portuguesa do Ambiente, num projeto de preservação das Alagoas Brancas ou numa iniciativa de educação e voluntariado ambiental, estamos a usar o design como uma voz cívica e até ambientalista. O nosso percurso é o reflexo dessa procura por comunicação com significado, coerência e, acima de tudo, impacto social, cultural e ambiental.

O que distingue a BOTODACRUZ de outras agências de comunicação?
Diria que a principal distinção reside na nossa curadoria ética e técnica. Tenho procurado alinhar os nossos projetos e clientes com a nossa missão e, ao fazê-lo, acabamos por nos tornar especialistas em temas por vezes complexos, diferentes ou com necessidades muito específicas. Cada projeto obriga-nos a mergulhar em universos densos como, por exemplo, a investigação polar ou a biologia molecular e a traduzir dados ou resultados científicos em narrativas visuais claras. Começamos tantas vezes como fornecedores externos e rapidamente passamos a parceiros de decisão. Sentamo-nos à mesa com cientistas, educadores e autarcas para estruturar ideias, definir estratégias e materiais de comunicação a desenvolver antes de abrir qualquer software de design. Projetos como os Farrobinhas ou o Walk & Art Fest, mostram como transformamos o que poderiam ser meras campanhas em produtos e, por vezes, sistemas de comunicação com real impacto, que podem educar gerações.
Qual a importância do branding para empresas e instituições que trabalham na área da ciência, cultura e educação?
Considero que o branding, e mesmo o próprio design de comunicação, são hoje compreendidos de forma diferente por parte dessas organizações, tanto empresas como instituições públicas ou associações. Noto que houve uma grande evolução, e que a marca é algo considerado como um ativo da organização, a sua identidade. Nesse sentido, o cuidado e interesse em criar clareza e coerência visual, alinhados com a marca, é cada vez maior e mesmo uma prioridade. Um bom branding pode contribuir para uma melhor perceção e até empatia com o público.
Quando criamos a identidade gráfica para projetos como a AccelBio ou a Incorp, estamos a dar forma física aos valores e aspectos individuais de cada organização. O branding bem executado permite que estas organizações se destaquem da sua concorrência e mostrem a sua cultura e identidade de forma clara.

Podem destacar projetos que reflitam esta vossa abordagem integrada?
O nosso portefólio é o nosso manifesto. Na área da ciência e saúde, o nosso trabalho com a AccelBio, a Universidade NOVA ou o CCMar, desde os highlights anuais, vídeos promocionais ou exposições temáticas, reflete a nossa capacidade de diversificação de projetos e de dar escala humana ao rigor científico. Na educação, o projeto Farrobinhas ou o livro infantil da Dieta Mediterrânica em Tavira são bons exemplos que mostram como uma publicação contribui para a criação de identidade de um local ou território nas crianças, ao mesmo tempo que as educa sobre ambiente, cultura, dieta, história ou solidariedade. Iniciativas que provam que o design editorial e a ilustração podem ser veículos de literacia poderosíssimos para os mais novos.
Na natureza e ambiente, projetos como o Festival de Observação de Aves de Sagres, a SEIVA e o Walk & Art Fest permitem-nos usar o design para promover um estilo de vida sustentável e uma ligação emocional com o património natural e cultural do Algarve.
Trabalhando a partir do Algarve, sentem limitações ou oportunidades?
O Algarve é o nosso espaço, o nosso ecossistema. Viver em Faro dá-nos uma perspetiva privilegiada, estamos entre a natureza e a urbe, o que alimenta diretamente a nossa criatividade para os temas ambientais, sociais e culturais. Estamos numa cidade tranquila, bastante acessível, com ligação a várias capitais europeias devido ao aeroporto, comboio ou mesmo vias rápidas, o que nos permite um maior alcance geográfico. Isso, aliado aos canais tecnológicos, permite-nos colaborar com diversas instituições em Lisboa ou mesmo no estrangeiro com a mesma fluidez. A oportunidade reside em ser um núcleo de pensamento estratégico fora dos grandes eixos urbanos saturados. O Algarve está a afirmar-se como um território de ciência e criatividade, do qual fazemos parte.
Projetos como a defesa das Alagoas Brancas sugerem que a BOTODACRUZ não tem medo de se posicionar. O design pode ser uma forma de ativismo?
Sim, o design é projeto, é transformativo e tem o poder de intervir na sociedade, ser político, no sentido em que fazemos escolhas sobre o que pode ser visto e compreendido. Trabalhamos com diversas organizações que têm esse fim, o que nos permite ser também agentes nesse enquadramento. Quando decidimos apoiar causas ligadas à ecologia, à educação ou à cultura, estamos a exercer a nossa responsabilidade como profissionais e como cidadãos. Se temos as ferramentas para tornar uma causa clara, visível e, muitas vezes, urgente, é quase um imperativo ético usá-las. O design ativista não é sobre ser agressivo, é sobre ser irrefutável. É usar a infografia, o vídeo e a identidade para que a verdade de um ecossistema frágil ou de uma descoberta científica possa sobressair do ruído.
Como vê a evolução da comunicação nos próximos anos e que tipo de projetos a BOTODACRUZ procura desenvolver?
A tendência atual é a produção em massa gerada por dígitos e algoritmos artificiais, e contra isso, a BOTODACRUZ continua a propor o valor da curadoria e empatia humana. O futuro pode passar por produzir mais conteúdo, mas “mais” nem sempre significa “melhor”. Prefiro produzir com sentido, num ritmo mais adequado à escala humana e de forma consciente. Atualmente, estamos focados em desenvolver melhores sistemas internos que possibilitem continuar a corresponder com a qualidade e intenção que nos caracteriza. Nesse mundo cada vez mais rápido e impaciente, é fácil querer ceder à velocidade, e isso por vezes limita a capacidade de produção e até a liberdade criativa, e é algo a que precisamos de ter atenção. Queremos continuar a ser o parceiro de eleição para instituições que têm algo complexo para dizer e que precisam que a sociedade as escute com clareza e humanidade.
Que conselho daria a organizações que querem melhorar a sua comunicação?
O meu conselho é que simplifiquem o processo de comunicação. Ser simples é o resultado de um processo complexo de destilação, de reduzir o desnecessário e focar no importante. Antes de investirem em ferramentas ou redes sociais, invistam em saber quem são e que impacto pretendem causar, e para quem. Se a vossa estratégia for sólida, o design será o vosso maior multiplicador de força. A comunicação deve ser, em si, um processo de gestão que exige compreensão dos públicos, simplicidade e coerência na mensagem, bem como uma definição clara de propósito.
Quais são os próximos objetivos da BOTODACRUZ?
O objetivo é consolidar a BOTODACRUZ como uma agência de excelência em comunicação visual, focada na ciência, cultura e ambiente, a nível nacional. Queremos equilibrar a nossa prestação de serviços com o desenvolvimento de projetos de autor que desafiem a forma como aprendemos e como nos relacionamos com os outros e o planeta. Acreditamos que o futuro tenderá a valorizar cada vez mais o aspecto humano, os ritmos naturais e a imperfeição, de quem consegue traduzir o conhecimento em emoção, em contraste com o excesso de velocidade e exatidão tecnológica. É nesse espaço que queremos continuar a operar.






