Em Tavira, no antigo edifício de um hospital abandonado, ergue-se hoje um colégio internacional que acolhe alunos de todo o mundo. Numa conversa com Ana Alves, Fundadora e Diretora do Colégio Santiago Internacional, ficamos a conhecer a história improvável de um sonho antigo que venceu burocracias, batalhas legais, crises financeiras e até tragédias pessoais — tudo em nome de uma educação mais humana, empática e diferenciada.
Desde pequena que Ana Alves dizia que queria abrir uma escola. A ideia acompanhou-a para Londres, onde viveu durante 10 anos, estudou Matemática e Liderança Educacional, e ganhou experiência em ensino. Quando regressou a Portugal com os filhos, encontrou o impulso final para tornar esse sonho realidade. “Tavira surgiu como oportunidade porque, entre Vilamoura e Espanha, não havia nenhuma escola internacional, mas existia procura”, diz Ana. O edifício do antigo hospital da Santa Casa da Misericórdia, degradado e abandonado há duas décadas, foi o ponto de partida. “Quando o vi, senti logo: esta é a minha escola. Fizemos um contrato de arrendamento de 30 anos e começámos a remodelar. Ainda hoje estamos a concluir obras”, refere. Com o apoio de amigos britânicos e financiamento próprio e complementar, nascia o Colégio Santiago Internacional.
Contra tudo e contra todos
O caminho, no entanto, esteve longe de ser linear. A escola abriu portas em 2012, mas a licença do Ministério da Educação só chegou em outubro. Perderam 70 alunos que já estavam inscritos. “Começámos com 12 crianças. Professores a recibos verdes, eu sem ordenado e com contas para pagar. Ainda hoje não sei como conseguimos”, recorda Ana Alves. Nos anos seguintes, a escola cresceu, acompanhada por diversos desafios. Ana enfrentou momentos difíceis na gestão e na manutenção do projeto, incluindo situações complexas com antigos parceiros. “Foi um período exigente, pessoal e profissionalmente, mas mantive o foco naquilo que acreditava desde o início”, relembra. Mesmo assim, nunca desistiu. “Chegámos a acordos, paguei indemnizações, mas não parei. Isto tinha de acontecer. Passei noites sem dormir, mas fui até ao fim. E consegui”, declara a diretora.

Educação moldada a cada criança
Hoje, o colégio tem cerca de 150 alunos de 27 nacionalidades, a caminho de 200. “Cada criança aqui é acompanhada individualmente. Adaptamos o ensino a cada aluno, não o contrário”, afirma Ana. A escola não adota retenções e organiza aulas com vários níveis simultâneos. A língua principal é o inglês, com valorização do português, especialmente para alunos nacionais.
A pedagogia é flexível e personalizada. Turmas pequenas, com no máximo 18 alunos, garantem atenção próxima, evitando desmotivação ou atrasos. A partir do 10.º ano, há disciplinas opcionais, como música e drama, numa rotina estruturada, sem períodos livres. “Aqui há compromisso real, não há greves nem ociosidade”, sublinha.

Currículo internacional com espírito crítico
O colégio é bilíngue e segue o currículo britânico, com exames internacionais (GCSE e A-Levels), reconhecidos pelo Ministério da Educação português. Ao concluir o 13.º ano, os alunos obtêm equivalência ao 12.º ano nacional e podem ingressar no ensino superior em Portugal ou no estrangeiro. Além dos exames, o colégio investe em avaliação contínua e formação cívica, promovendo projetos de solidariedade e atividades culturais.
Ana critica a obrigatoriedade do exame de Português para acesso às universidades portuguesas, considerada inadequada no contexto internacional, pois não faz diferenciação para os alunos do mesmo. Também denuncia a falta de reconhecimento da experiência docente em escolas internacionais: “Tenho 25 anos de ensino, mas não reconhecem os anos de serviço, porque não há paralelismo pedagógico explica uma lei antiga do Ministério da Educação, como exemplo dá a disciplina que leciona, Matemática, tenho 25 anos de ensino com diversas práticas pedagógicas e, se hoje quiser concorrer a uma escola pública, o ministério não reconhece os meus anos de serviço, penso que Matemática será igual em qualquer lugar, e da mesma maneira que teria a aprender com colegas do ensino público, também eu poderia ensinar novas estratégias”, destaca a entrevistada. Ainda assim, o ambiente interno é colaborativo e equilibrado: “Os professores apoiam-se muito e existe uma energia muito positiva em tudo o que fazemos’’, referencia.
Diversidade, regras e empatia
A diversidade cultural é uma das grandes riquezas do colégio, mas também um desafio. “Temos zero tolerância ao bullying. Mas lidar com diferentes valores e mentalidades exige um trabalho contínuo”, explica a Diretora. Regras simples garantem um ambiente saudável. “Se um telefone é visto ou toca em qualquer local dentro do colégio, vai direto para o cofre até ao final do ano letivo. Aqui, preferimos que os alunos estejam presentes, a viver o momento”, reforça Ana. Esta medida, inicialmente resistente para alguns, já é aceite e valorizada por alunos e famílias, que percebem o impacto positivo na socialização e no respeito. A escola promove uma cultura de igualdade: “Aqui todos se tratam por igual, do diretor à equipa de limpeza”, menciona. A ligação à comunidade também é forte. “Fazemos festas, peças de teatro, churrascos – momentos de partilha que aproximam todos. E quando passámos por uma fase difícil, senti-me verdadeiramente apoiada. Os pais apareceram, ajudaram, estiveram lá. Foi profundamente comovente”, descreve Ana.
Crescimento sustentado com base sólida
A entrada e saída constante de alunos, típica de contextos internacionais, é um traço distintivo. “Os pais mudam de país, e os filhos voltam para o colégio quando precisam de se adaptar”, refere.
Apesar dessa rotatividade, a escola cresceu de forma sustentada ao longo de 12 anos. Com cerca de 21% de alunos portugueses, o nome “Santiago” não é por acaso: “Quisemos um nome português para mostrar que esta escola também é para os portugueses, que beneficiam de uma educação internacional de qualidade”, afirma Ana.

Equilíbrio entre trabalho e vida pessoal
O colégio incentiva uma rotina equilibrada para alunos e professores. Com turmas pequenas e trabalhos de casa limitados a 20 minutos diários, o objetivo é garantir tempo livre e qualidade de vida para os estudantes. A preocupação com o bem-estar estende-se também à equipa docente. “Oferecemos o ginásio aos professores e incentivamos o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. O ensino é exigente, mas não pode ser opressor”, destaca. Ana faz questão de estimular hábitos saudáveis entre os colaboradores e defende que todos devem desligar ao fim do dia. “É importante que tenham tempo para o desporto, lazer ou simplesmente para descansar”, esclarece.
Futuro com raízes e asas
Para Ana Alves, o sonho realizado não é ponto de chegada. A diretora já pensa numa possível expansão para Espanha. “De Tavira a Sevilha não há nenhuma escola internacional. O projeto está desenhado, falta o investimento”, salienta.
Mesmo assim, mantém os pés na terra. “O meu sonho de há 30 anos está realizado. Agora quero continuar a construir com verdade e humanidade”, refere a diretora.
E, para quem sonha com um projeto próprio, deixa um conselho simples: “Se têm um sonho, sigam-no. Tudo é possível”. O Colégio Santiago Internacional prova que, com coragem e dedicação, até os sonhos mais improváveis podem ganhar vida.





