No passado dia 6 de junho, o International Club of Portugal (ICPT) recebeu Mário Centeno, Governador do Banco de Portugal, como orador convidado no almoço-debate, que teve lugar no Sheraton Lisboa Hotel & Spa. Sob o tema “As perspetivas para a economia portuguesa”, o encontro promoveu uma análise crítica e atual sobre os desafios económicos nacionais e europeus, perante uma audiência de líderes, empresários e especialistas.
Mário Centeno começou por destacar que a economia portuguesa se encontra hoje mais robusta do que há uma década, graças ao esforço de consolidação orçamental, à capitalização do sistema bancário e à redução sustentada da dívida pública. Ainda assim, o Governador alertou: “Portugal não pode regressar às más práticas do passado”, referindo-se ao incumprimento sistemático das regras orçamentais da União Europeia, que durante anos afetou a credibilidade do país.

Cumprimento das Regras Orçamentais e Progressos Recentes
Segundo Centeno, Portugal esteve fora de conformidade com as regras da UE — que impõem um défice inferior a 3% do PIB e uma dívida abaixo dos 60% — em cerca de 80% dos dias entre 2007 e 2015. Este historial negativo contrasta com os progressos recentes: o défice foi convertido em excedente (0,7% do PIB em 2024), e a dívida pública desceu para 95,3%, o valor mais baixo em 14 anos. Para Centeno, esta trajetória deve continuar.
Desafios e Resiliência no Crescimento Económico
As projeções do Banco de Portugal para 2025 apontam para um crescimento económico de 1,6%, abaixo dos 2,3% estimados em março. Centeno alertou que esta meta, já revista em baixa, poderá ser difícil de alcançar face às incertezas externas, como as tensões comerciais e as oscilações cambiais. “Portugal é particularmente exposto a fatores externos, mas tem demonstrado resiliência”, sublinhou.
O Governador frisou ainda o impacto positivo da criação de emprego: “Nos últimos anos, criámos um milhão de postos de trabalho. A população ativa aumentou de 4 para 5 milhões, e os salários subiram. Esse dinamismo tem permitido um desempenho económico acima da média europeia”.

Europa, Investimento e Segurança Social
Ainda assim, Centeno admitiu que a Europa enfrenta um problema estrutural de falta de investimento, agravado pelas taxas de juro elevadas e pela incerteza. Destacou, no entanto, que a recente estabilização das taxas — com a taxa diretora do BCE a recuar para 2% — poderá trazer previsibilidade e fomentar novos investimentos.
No debate, Centeno respondeu a questões sobre o papel da União Europeia nos mercados internacionais. Apontou a valorização do euro face ao dólar como uma oportunidade para a Europa reforçar a sua posição no sistema financeiro global. Defendeu, contudo, que para isso seria necessário emitir obrigações soberanas europeias — como ocorreu em 2020 com o Plano de Recuperação —, um caminho que, embora difícil, poderia atrair mais capital para o continente.
Sobre o papel da segurança social no investimento, Centeno reconheceu a complexidade do tema. “Temos excedentes significativos na segurança social. A questão é como investir esses fundos de forma segura e produtiva, sem comprometer o equilíbrio financeiro futuro”. Destacou ainda a importância de canalizar mais poupança europeia para investimentos na própria Europa, em vez de continuar a alimentar mercados externos.

Planeamento e Responsabilidade para o Futuro
Na conclusão da sua intervenção, Centeno sublinhou o papel crucial da qualificação e da estabilidade financeira para o futuro económico do país. “Portugal tem hoje uma base mais sólida, mas não podemos dar nada por garantido. O cumprimento das regras orçamentais é essencial, não apenas por obrigação europeia, mas porque é a única forma de garantir prosperidade sustentada”.
Com a sua habitual clareza e pragmatismo, Mário Centeno deixou um apelo: “Planeamento, disciplina e responsabilidade continuam a ser as melhores políticas económicas”.






