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Porque está a sustentabilidade a tornar-se senso comum na tecnologia?

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Durante anos, a sustentabilidade foi tratada como um elemento secundário nas empresas e, infelizmente, continua a sê-lo. Muitas vezes surge apenas nos relatórios de conformidade e no desenvolvimento de produtos, por estar numa fase demasiado atrasada quanto aos seus processos ou mesmo limitada a produtos explicitamente rotulados como «ecológicos» e lançados como uma linha à parte.

Há também a questão recorrente sobre o que é, afinal, tecnologia verde? Pessoalmente, considero essa abordagem pouco útil porque isola a sustentabilidade numa caixa própria, como se fosse uma disciplina de nicho em vez de algo que deveria moldar tudo o que construímos.

Se queremos realmente compreender a «tecnologia verde», devemos começar pelo mundo em que vivemos. A tecnologia é apenas uma ferramenta que nos ajuda a resolver problemas, tal como uma pedra o fazia na Idade da Pedra. Portanto, a verdadeira questão é “quais são os problemas que estamos, hoje, a resolver?”.

 

Elena Monastyrnaya, Head of Sustainability Transformation na Zühlke

 

Estamos a assistir agora a uma mudança mais profunda, não apenas na tecnologia, mas em todo o contexto que a rodeia. É importante relembrarmo-nos que a sustentabilidade não começou como um requisito de reporte, mas sim como uma resposta a desafios reais, e que atualmente evidencia a fragilidade com a forma como as nossas economias estão concebidas.

Hoje, temos essa confirmação, uma vez que vivemos num mundo moldado pela instabilidade, incerteza energética, tensões geopolíticas, conflitos comerciais e condições meteorológicas extremas. Neste contexto, opta-se por dizer “temos problemas mais urgentes: a sustentabilidade pode esperar”.

Mas esta instabilidade é exatamente o que a sustentabilidade estava a colocar como uma questão urgente a ser abordada, uma vez que expõe as fraquezas dos sistemas em que confiamos – tanto físicos como digitais.

Portanto, em vez de perguntarmos “que tecnologia é sustentável?”, devemos perguntar “que tecnologia nos ajuda a viver com mais segurança hoje e a construir um futuro mais estável?”.

É por isso que, mesmo que o discurso e as regulamentações sobre sustentabilidade parecem estar a perder destaque, estamos a ver o oposto a ocorrer nas tecnologias: o surgimento de tecnologias que abordam diretamente as limitações do mundo real, como a escassez de recursos, a eficiência energética e a resiliência. Não porque sigam um quadro de sustentabilidade ou um manual, mas porque respondem à realidade.

Os projetos tecnológicos continuam a ser orientados pelo retorno financeiro, mas, atualmente, este depende de fatores como a eficiência na utilização dos recursos, a resiliência e a transparência. Sem eles, o valor a longo prazo fica comprometido.

Ao que antes se chamava de “critérios de sustentabilidade»” está a tornar-se senso comum. Tomemos como exemplo a avaliação do ciclo de vida: este ajuda a compreender quantos recursos um produto utiliza, de onde vêm e onde ocorrem os resíduos. Quando utilizada corretamente, quebra silos e oferece uma visão clara e abrangente das ineficiências e dos riscos. O mesmo se aplica à arquitetura de software ou às práticas de FinOps, abordagens que reduzem custos e aumentam a clareza. Não pertencem apenas à sustentabilidade: também fortalecem o negócio em geral e deixam claro que a sustentabilidade não é uma capacidade separada. É uma forma melhor de gerir um negócio, mais eficiente e mais transparente.

Se falamos de transformação em sustentabilidade, precisamos de nos afastar da ideia de que se trata principalmente de relatórios ou de fazer o “bem”. Em vez disso, deve ser sobre o desempenho empresarial a longo prazo.

Isso significa integrá-la nos fluxos de trabalho diários ao invés de a isolar numa equipa separada cujo valor não é claro. Deixar que as equipas de sustentabilidade façam as medições e análises, mas utilizar esses insights de forma abrangente. Identificar onde faltam dados e o que isso revela sobre o seu negócio. Relacionar os objetivos de sustentabilidade com os principais indicadores-chave de desempenho (KPI), e não os acrescentar “por cima”, pois acabarão por perder prioridade e não trarão qualquer valor comercial.

No meu próprio trabalho, vi como isto pode ser prático. Num projeto recente, analisámos o ciclo de vida de um produto e descobrimos um desperdício significativo de energia e recursos – juntamente com custos desnecessários -, o que se revelou uma informação relevante para os empresários e não apenas para o relatório de sustentabilidade. Esta ineficiência existia apesar de haver equipas focadas na eficiência.

A solução não exigiu uma nova tecnologia, mas sim uma perspetiva diferente:  repensar funcionalidades, simplificar processos e reduzir o desperdício. O resultado foi tanto um menor impacto ambiental como custos mais baixos.

Ao mesmo tempo, é importante olhar para o futuro. A tecnologia já oferece formas de preparar as empresas para o que aí vem. A visão computacional e a aprendizagem automática melhoram a reciclagem e a reutilização de materiais; as energias renováveis apoiam a independência energética e a estabilidade dos custos; a IA ajuda a redesenhar processos físicos ineficientes.

Isto leva-nos a uma questão mais ampla: estão as empresas preparadas para utilizar a sustentabilidade para gerir melhor os seus negócios, e não apenas para apresentar relatórios sobre os mesmos?

Em breve, este será o verdadeiro fator diferenciador. As organizações que terão sucesso serão aquelas que combinarem a inovação com uma abordagem prática ao impacto.

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