Numa entrevista exclusiva, José dos Santos Costa – Presidente do IPV – assumiu o objetivo de transformar o Instituto Politécnico de Viseu em Universidade de Viseu. Esta meta ambiciosa é fundamentada pela afirmação madura que a instituição assume no panorama nacional e internacional do ensino superior, bem como pelo seu impacto científico, económico e social – não só na região centro, mas em todo o país.
O IPV tem sido descrito como um motor de transformação regional e um exemplo de ensino superior de proximidade. Como é que o IPV equilibra essa vocação territorial com a ambição de se afirmar num contexto nacional e internacional cada vez mais competitivo?
O Instituto Politécnico de Viseu (IPV), fundado há 46 anos, consolidou-se como uma instituição de referência no ensino superior público português, profundamente enraizada na região e, simultaneamente, aberta ao mundo. Evoluímos de uma instituição vocacionada para a formação técnica especializada para um ecossistema de conhecimento global, que integra ensino, investigação, inovação, criação artística, cultura e transferência de conhecimento. Hoje, o IPV atua de forma estratégica e global, mantendo a sua identidade territorial, mas com uma robustez institucional que lhe permite responder aos desafios societais e contribuir para o aumento das qualificações avançadas da população ativa.

A inovação não se faz apenas nos laboratórios, mas também nas salas de aula. Que transformações pedagógicas e tecnológicas o IPV está a introduzir para preparar os estudantes para profissões que ainda estão a emergir?
A participação do IPV na Universidade Europeia EUNICE tem sido um catalisador de mudança pedagógica e tecnológica profunda. Estamos a implementar modelos de aprendizagem personalizados, centrados no estudante, que lhe permite construir percursos formativos flexíveis e adaptados aos seus interesses e às exigências do mercado global. Através do Catálogo de Cursos Online EUNICE, os estudantes acedem a unidades curriculares e microcredenciais partilhadas por dez instituições europeias, em áreas emergentes como Tecnologias da Informação, Cidades Inteligentes ou Sustentabilidade. Mais do que transmitir conhecimento, queremos formar cidadãos capazes de resolver problemas, comunicar eficazmente, trabalhar em equipa, adaptar-se à mudança e agir com competência digital e intercultural. As nossas salas de aula tornaram-se espaços de cocriação europeia, onde o estudante é protagonista da sua aprendizagem e se prepara para profissões que ainda estão a nascer, num contexto democrático, intercultural e justo.
A sustentabilidade é hoje um eixo estratégico transversal. De que forma o IPV integra a dimensão ambiental e social na sua missão educativa e nos seus projetos de investigação e inovação?
A sustentabilidade é, hoje, uma dimensão estruturante da missão do IPV. Somos membros da Rede Campus Sustentável – Portugal, signatários do Pacto Institucional para a Valorização da Economia Circular na Região Centro e fomos distinguidos como “EcoCampus” pela ABAAE. Todas as nossas unidades orgânicas integram o programa Eco-Escolas e são certificadas pela “Biosphere Sustainable Lifestyle”, o que garante a incorporação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em toda a nossa atividade. Criámos uma Pró-Presidência dedicada à Saúde, Bem-Estar, Desporto e Sustentabilidade, e lançámos o doutoramento em “Sustentabilidade Agroalimentar e Ambiental”, que traduz a articulação entre educação e investigação aplicada ao desenvolvimento sustentável.
A investigação aplicada e a transferência de conhecimento são marcas distintivas do ensino politécnico. Pode partilhar exemplos de projetos com impacto real?
Os nossos projetos de investigação têm um impacto direto nas empresas e na economia regional. Exemplos disso são o Biovalor (valorização da biomassa e digitalização da sua gestão), o INOVFARMER (modelos de negócio agroalimentares inovadores), o FeedValue (valorização de subprodutos), o VolWood (uso sustentável de excedentes florestais e agrícolas), o Adaptive (isolamentos ecológicos com base no cardo) e o ReWinePack (compósitos produzidos com subprodutos da vinha). Todos estes projetos demonstram a nossa capacidade de transferir conhecimento e inovação para o tecido económico, reforçando o papel do IPV como agente de desenvolvimento.

Num contexto global, a internacionalização tornou-se um vetor essencial do ensino superior. Como é que o IPV tem reforçado a sua presença internacional?
A internacionalização é uma prioridade estratégica. Temos vindo a ampliar significativamente a mobilidade de estudantes, docentes e colaboradores através dos programas Erasmus+ e de parcerias com instituições fora da Europa.
Contamos com mais de 240 acordos de cooperação com instituições na Europa, Ásia, África e América do Sul. Recentemente, celebrámos protocolos com universidades do México e do Peru e assinámos um memorando de entendimento com o COMUNG, no Brasil, no âmbito do Consórcio ErasmusCentro. Participamos ativamente em feiras internacionais e em redes como a AULP, CRUSOE e EUNICE, onde lideramos um Work Package dedicado às aprendizagens não formais. Esta participação gera oportunidades de aprendizagem experiencial e intercultural, como os Clubes Pan-EUNICE, os campos de voluntariado e os Alliance Games, que em novembro trarão ao IPV cerca de cem participantes de dez países. Tudo isto reforça a nossa visibilidade global e o nosso papel como instituição aberta e conectada ao mundo.
Olhando para os próximos anos, como imagina o IPV no mapa do ensino superior português?
Vejo o IPV a afirmar-se como uma instituição de ensino superior plenamente madura, com um percurso que naturalmente queremos transformar em Universidade de Viseu, criando novas áreas científicas, atualmente “proibidas” ao ensino politécnico. Este passo é uma consequência lógica do nosso desenvolvimento institucional e um imperativo estratégico para a valorização de Viseu e da região no contexto nacional e europeu. Continuaremos a apostar no ensino de qualidade, na investigação e inovação, na internacionalização e na transferência de conhecimento, pilares que sustentam a competitividade e o desenvolvimento do país.

Finalmente, que contributo ambiciona deixar para o futuro económico, científico e social do país?
Desejo que o IPV continue a ser uma instituição que gera impacto real – científico, económico e social. Cientificamente, queremos reforçar a maturidade académica e a universalidade da nossa ação, cobrindo todos os níveis de formação (desde CTeSP ao doutoramento), promovendo a produção científica e a criação artística, e ampliando a inovação e a interação com a sociedade. No plano económico, ambicionamos contribuir para a competitividade regional e nacional, atraindo e retendo talento, estimulando a inovação social e empresarial e melhorando a qualidade de vida das populações. Socialmente, queremos ser um exemplo na promoção dos valores europeus, na inclusão e sustentabilidade, e na preparação de estudantes capazes de prosperar em profissões globais, contribuindo para um mundo mais justo, sustentável e humano.







