Numa altura em que a Europa enfrenta desafios globais que vão da segurança energética à transição climática, a Embaixadora da Alemanha em Portugal, Daniela Schlegel, reafirma a solidez da parceria luso-alemã e destaca o potencial de cooperação em áreas como as energias renováveis, a defesa europeia e o intercâmbio cultural. Com uma visão marcada pela confiança mútua e pela valorização do diálogo, sublinha o papel estratégico de Portugal como ponte com os países lusófonos e defende uma Europa unida, resiliente e ancorada nos valores democráticos que ambos os países partilham.
Como avalia o atual estado das relações bilaterais entre Portugal e Alemanha e quais áreas considera mais promissoras para intensificação da cooperação?
As relações bilaterais entre os nossos países são muito estreitas, marcadas por uma parceria sólida e um profundo espírito de confiança. Partilhamos os mesmos valores, defendemos o multilateralismo, o Estado de Direito e uma ordem internacional baseada em regras. Ambos atribuímos especial importância às relações transatlânticas e ao chamado Sul Global, com particular destaque para África. A Alemanha e Portugal estão firmemente ancorados na União Europeia e na NATO, partilhando as mesmas posições em questões fundamentais da política europeia.
As nossas relações económicas são fortes – e continuam a reforçar-se. Cerca de 720 empresas alemãs operam em Portugal, criando aproximadamente 85.000 empregos diretos e representando cerca de 12% do PIB nacional. As empresas alemãs estão presentes em setores muito diversos, incluindo – mas não apenas – o setor automóvel.
Para além das tradicionais atividades industriais e de engenharia, as empresas alemãs em Portugal apostam cada vez mais em centros de desenvolvimento digital e de serviços com responsabilidade global. Também existe grande potencial nos domínios das energias renováveis, eficiência energética e tecnologias ambientais. A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã é, para nós e para todos os intervenientes económicos, um parceiro central neste contexto.

Que medidas pretende implementar para potenciar não só o intercâmbio económico, mas também as dimensões cultural, social e turística entre os dois países?
Para além das excelentes relações económicas e da estreita cooperação na área da segurança e defesa europeias, as nossas relações bilaterais nos domínios social e cultural têm uma longa tradição.
A Escola Alemã de Lisboa, com mais de 175 anos, é uma das mais antigas escolas alemãs no estrangeiro. No Porto, a Escola Alemã ensina há 124 anos não apenas a língua alemã, mas também promove a compreensão da cultura alemã. Isto cria laços que duram uma vida inteira.
O Goethe-Institut, presente há mais de 60 anos, tem sido um pilar essencial na promoção de um intercâmbio linguístico e cultural intenso. A isto soma-se uma ampla rede de parcerias universitárias, que aproxima muitos jovens estudantes e investigadores dos dois países.
Qual é a visão da Alemanha sobre o papel de Portugal como parceiro estratégico junto dos PALOP, e de que forma a Embaixada pode apoiar projetos de cooperação regional? Nesse contexto, como avalia o impacto do fundo da Embaixada alemã em Cabo Verde, destinado a apoiar organizações não-governamentais que promovem a melhoria das condições de vida das pessoas mais desfavorecidas?
As ligações históricas e culturais de Portugal aos países lusófonos de África são estreitas e têm uma importância estratégica para ambas as partes. Portugal pode, neste contexto, desempenhar para a Alemanha uma função de ponte. Aqui em Lisboa, damos particular atenção a Cabo Verde, uma vez que, desde 2020, os embaixadores alemães em Lisboa têm também acreditação para esse país. Cabo Verde é para nós um parceiro importante, uma jovem democracia que, tal como a Alemanha, defende uma ordem mundial mais justa e baseada em princípios. Em conjunto com a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã, promovemos a cooperação económica. Ao mesmo tempo, queremos manter um contato próximo com a população cabo-verdiana e com a sua vibrante sociedade civil, colaborando com ONGs locais em pequenos projetos de desenvolvimento. Após as inundações em São Vicente e Santo Antão no mês de agosto conseguimos apoiar diretamente a Cruz Vermelha de Cabo Verde, fornecendo ajuda a 5.000 famílias. Através do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, disponibilizámos ao Governo de Cabo Verde ajuda humanitária no valor de 250.000 euros.
De que forma a Alemanha pretende colaborar com Portugal no contexto da crise na Ucrânia, seja na resposta humanitária, económica ou em segurança energética?
Desde o início, a Alemanha tem estado entre os principais apoiantes da Ucrânia, tanto politicamente, como financeira e militarmente, além de ter acolhido refugiados ucranianos.
A Alemanha e Portugal colaboram estreita e intensamente no âmbito da União Europeia e da NATO, conscientes de que a guerra de agressão russa ameaça toda a Europa. A Ucrânia, ao defender-se, está também a defender as nossas democracias e a nossa segurança. Devemos e iremos apoiar a Ucrânia pelo tempo que for necessário.
Ao mesmo tempo tivemos de reagir: reduzimos drasticamente o comércio com a Rússia, suspendemos por completo as importações diretas de petróleo e gás russo e reforçámos substancialmente as nossas forças armadas, cumprindo a meta de 2% do PIB em defesa estabelecida pela NATO, e comprometendo-nos a atingir 5% até 2035.
A Europa deve reforçar a sua capacidade de defesa e, simultaneamente, preservar a parceria transatlântica. Em conjunto com Portugal, queremos fortalecer o pilar europeu da NATO. Este esforço exige um grande empenho coletivo, mas oferece também oportunidades, nomeadamente para o desenvolvimento conjunto de uma indústria de defesa europeia robusta – um domínio onde vejo grande potencial de cooperação luso-alemã.
Como nova Embaixadora da Alemanha em Lisboa, quais são as prioridades estratégicas para aprofundar as relações bilaterais com Portugal, e de que forma pretende equilibrar objetivos diplomáticos, económicos, culturais e sociais durante o seu mandato?
Talvez ainda se lembrem, entre 2018 e 2022, tive já a oportunidade, então como Chefe de Missão Adjunta, de contribuir para a promoção e o reforço das relações políticas e económicas entre os nossos países.
Na minha nova função de Embaixadora da Alemanha em Portugal, pretendo cultivar e expandir a nossa rede de contactos na política, na economia e na sociedade. Hoje, mais do que nunca, é essencial explicar a nossa política, valorizar os benefícios das relações bilaterais. Queremos estar presentes e trabalhar lado a lado com os parceiros portugueses na procura de soluções.
Desejo também contribuir para o reforço da capacidade de defesa europeia, pelo que nas minhas primeiras semanas em Portugal tive várias reuniões com a liderança militar portuguesa.
Mas o foco não se limita à defesa: trata-se também de fortalecer a resiliência social, a proteção das nossas democracias e a coesão dentro da União Europeia. Não podemos, contudo, esquecer os grandes desafios globais da nossa geração: o combate ao aquecimento global e às alterações climáticas, o envelhecimento demográfico, a atração de profissionais qualificados do estrangeiro, a soberania digital, a proteção contra ciberataques e a desinformação. Mas trata-se também de solidariedade, entendimento mútuo dos contextos históricos, interesse pela cultura do outro país e intercâmbio científico – todos estes são temas que nos ocupam, tanto na Alemanha como em Portugal.
Que legado gostaria de deixar no reforço das relações bilaterais Portugal-Alemanha, e de que forma pretende avaliar o impacto e o sucesso do seu mandato em Lisboa?
No plano político espero que consigamos preservar e revitalizar a unidade europeia, assente nos valores que partilhamos.
Espero que se intensifiquem as visitas e os intercâmbios em todos os domínios, bem como um crescimento sustentável das empresas alemãs em Portugal que seja vantajoso para ambas as partes.
Vejo o meu papel sobretudo em fortalecer a confiança mútua, fomentar o diálogo e a compreensão recíproca, e criar espaço para uma convivência e cooperação, assente na confiança e na boa colaboração.
Estou convencida de que Portugal e Alemanha são parceiros ideais e que temos muito a oferecer e a aprender mutuamente.






