PUB

O papel da canábis medicinal no tratamento da dor

Data:

Partilhar

A canábis medicinal não é uma panaceia, não é superior à restante farmacologia da dor, e deve ser pensada sempre em associação, não devendo impedir ou limitar a utilização de outros importantes contributos analgésicos, sob pena de não actuarmos de forma eficiente no circuito e protelarmos o melhor tratamento para os nossos doentes.

 

Prof. Hugo Ribeiro Médico da Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos Gaia – ULS Gaia e Espinho Professor Auxiliar convidado da FMUC e da FMUP

 

A abordagem terapêutica da dor está dependente de múltiplos fatores individuais (como por exemplo a idade, a composição corporal, a funcionalidade global e a genética) para que possamos oferecer a melhor estratégia individualizada e personalizada, optimizando resultados e reduzindo o potencial dano que podemos provocar nos doentes.

A dor é um output e não um input. Ou seja, ao conjunto de sinais elétricos que são transmitidos ao nosso sistema nervoso central corresponde uma interpretação individual e momentânea. Desta forma, conseguimos entender que um mesmo estímulo possa provocar, na mesma pessoa, um prejuízo global e intensidades diferentes, dependendo do momento da vida em que se encontra esta pessoa. Ou que, em pessoas diferentes, um estímulo mais ligeiro possa provocar uma sensação dolorosa mais intensa do que um estímulo mais grave. O circuito da dor (Figura 1) engloba a transdução de sinal (passagem de um estímulo mecânico, térmico, químico ou outro, para um sinal elétrico), a condução (uma “passagem de testemunho” que ocorre entre o 1º e o 2º neurónio, ao nível do corno postero-lateral da medula espinhal), a transmissão (onde ocorre a modulação da dor, através de feixes nervosos ascendentes da medula até ao tálamo) e a percepção (com as projeções para o sistema límbico, relacionado com as nossas emoções, e para o córtex, relacionado com várias funções cerebrais mais complexas), havendo uma individualização do estímulo. Por outro lado, temos vários mecanismos periféricos e, sobretudo, centrais, de controlo e contenção da dor, dos quais gostaria de destacar o papel das vias inibitórias descendentes dependentes de serotonina, de noradrenalina e de endorfinas/encefalinas.

 

Figura 1 – Circuito da Dor: vias ascendentes (transdução, condução, modulação e percepção), vias descendentes inibitórias e principais mediadores envolvidos.

 

Porque é que é tão importante reconhecer a fisiopatologia da dor, a sua duração, intensidade, sintomas associados, impacto, entre outras características? É que só assim é que conseguimos entender a necessidade de adoptar uma estratégia terapêutica multimodal, com a intervenção de vários neuromoduladores, farmacológicos e não farmacológicos, que condicionem ou atenuem os neuroestímulos desagradáveis.

Para sermos eficientes a controlar a dor, a utilização de medicação que iniba esta neuroexcitação em vários passos do circuito revela-se indispensável. Nesse contexto, é natural que tenhamos que utilizar 3 ou 4 fármacos (por vezes mais, dependendo da complexidade da situação clínica e da duração da dor).

Sabemos que a utilização em simultâneo de opióides, anti-inflamatórios, antidepressivos, anticonvulsivantes, entre outros, dependendo da situação clínica, oferece a possibilidade de controlo da dor, com menos efeitos secundários associados.

Nos últimos anos, depois da aprovação pelo INFARMED, temos tido a possibilidade de utilizar também a canábis medicinal. No nosso país, temos hoje acesso a formulações com tetrahidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), sozinhas ou em associação, moléculas com mecanismos de ação bem distintos, que podem até ser sinérgicas, sendo que o CBD pode limitar o aparecimento de potenciais efeitos secundários associados ao THC (relacionados com a sua psicoactividade).

Enquanto que o CBD tem uma maior importância relacionada com o controlo da dor nociceptiva (inflamatória, relacionada com lesão de tecidos, operando sobretudo na transdusão de sinal), o THC apresenta um benefício consistente na analgesia em dor oncológica e dor neuropática (relacionada com lesão ou disfunção do sistema nervoso), devido ao seu potencial neuromodulador na transmissão e percepção. O CBD pode ainda oferecer benefícios adicionais, pelos seus efeitos anticonvulsivante e ansiolítico, enquanto que o THC pode promover o aumento do apetite e o controlo de náuseas e vómitos.

Para além de uma boa caracterização da dor, o manuseamento destes psicofármacos deve ter em linha de conta a composição corporal dos doentes e a funcionalidade hepática e renal, de forma a ajustar a dose, a posologia e a titulação, evitando efeitos adversos e adquirindo todo o potencial benefício. Como, de resto, temos que fazer com as outras terapêuticas farmacológicas!

A canábis medicinal não é uma panaceia, não é superior à restante farmacologia da dor, e deve ser pensada sempre em associação, não devendo impedir ou limitar a utilização de outros importantes contributos analgésicos, sob pena de não actuarmos de forma eficiente no circuito e protelarmos o melhor tratamento para os nossos doentes.

Newsletter

Últimas Edições

Artigos Relacionados