Lígia Tavares, Decoradora de Interiores, aposta no neurodesign para transformar espaços em experiências sensoriais. Através de cores, luz e disposição dos elementos, a designer procura influenciar emoções e comportamentos, aproximando ciência e decoração numa área ainda recente em Portugal.
A ciência por detrás da decoração
A forma como um espaço é organizado pode alterar o modo como as pessoas se sentem dentro dele. É a partir desta ideia que surge o neurodesign, uma área que cruza design de interiores com ciência.
“O neurodesign é uma área relativamente recente da decoração de interiores e que também existe na arquitetura, mas aqui o meu foco é na decoração de interiores”, explica Lígia Tavares. Segundo a especialista, a base deste conceito passa por compreender a forma como o cérebro interpreta um ambiente. “Basicamente é olhar para a decoração com base naquilo que queremos transmitir ao ser humano, as emoções que o espaço vai provocar, as cores, a iluminação e a própria disposição dos objetos”, acrescenta. Para a designer, cada detalhe tem impacto na experiência do utilizador.

Cores, luz e emoções
Apesar de ser uma área ainda em desenvolvimento, já existem estudos que apontam para a influência das cores e da iluminação no comportamento humano, nomeadamente a cognição e as emoções.
“O azul, principalmente o escuro, consegue acalmar-nos. Já o amarelo traz-nos alegria, o vermelho é vibrante e coloca-nos num estado mais alerta”, explica. A iluminação também desempenha um papel importante. “A luz branca é associada aos hospitais, porque os médicos têm de estar alertas, enquanto a luz mais amarela cria um ambiente mais confortável e relaxado”. Estas escolhas não são apenas estéticas. Para Lígia, fazem parte de uma estratégia consciente que procura provocar determinadas sensações nos utilizadores de um espaço.
Quando o ambiente influencia o cérebro
A explicação para estas reações encontra fundamento na ciência.
A designer refere que estudos de epigenética ajudaram a compreender de que forma o ambiente pode influenciar o organismo humano.
“Hoje sabemos que, ao entrarmos num espaço com determinadas cores, os neurónios reagem e desencadeiam respostas fisiológicas. Ou seja, há alterações no nosso corpo provocadas pelo ambiente exterior”, afirma. Esta relação entre espaço e bem-estar está cada vez mais presente em diferentes áreas, desde o design de interiores até ao marketing e à arquitetura.
Espaços pensados para provocar reações
O principal objetivo do neurodesign não é apenas criar espaços agradáveis, mas também orientar comportamentos. Em restaurantes, por exemplo, o ambiente pode incentivar a socialização e o consumo. “Queremos que as pessoas estejam confortáveis, mas não queremos que adormeçam. Queremos que estejam ativas, com vontade de comer, conversar e socializar”, explica. Apesar da prática ainda ser pouco aprofundada em muitos cursos de arquitetura e design, Lígia Tavares acredita que este conhecimento representa uma vantagem competitiva.

Um olhar para o futuro
O neurodesign já é utilizado por grandes empresas internacionais, sobretudo na criação de ambientes de trabalho mais produtivos. Em Portugal, a área começa agora a ganhar visibilidade. Para Lígia Tavares, o futuro passa por integrar cada vez mais ciência na conceção dos espaços. “É uma área que quero aprofundar e continuar a estudar. Intuitivamente, todos os projetos que faço acabam por ter essa componente, porque faz parte da minha forma de olhar para o design”, conclui. Entre estética e ciência, o neurodesign revela que a decoração pode ir muito além do visual, pode, afinal, falar diretamente ao cérebro.






