Marina Fernie, General Manager da Danone em Portugal, partilha numa entrevista exclusiva a sua inspiradora trajetória internacional no setor dos bens de consumo, os desafios da liderança feminina na indústria agroalimentar e as estratégias da Danone para promover equidade, sustentabilidade e inovação em saúde alimentar.
Iniciamos esta entrevista por lhe perguntar como foi a sua trajetória profissional até assumir o cargo de General Manager numa empresa internacional como a Danone, e que momentos ou decisões considera que foram determinantes para consolidar a sua credibilidade como líder?
A minha carreira nasceu da vontade de aprender e de me desafiar, mas sobretudo das pessoas com quem tive a sorte de crescer. Sempre me interessou compreender as pessoas e o comportamento humano e a gestão, por isso comecei na área de marketing, onde pude juntar a paixão pelo consumidor à entrega de resultados. Trabalhei sempre em FMCG, na Argentina, Brasil, Inglaterra e agora em Portugal. Esta experiência internacional ensinou-me a adaptar-me, a ouvir e a valorizar perspetivas diversas que me transformaram pessoal e profissionalmente.
Comecei no terreno, perto das operações, e isso marcou a líder que sou hoje: deu-me respeito por quem faz acontecer todos os dias e mostrou-me que as grandes decisões começam pelas pequenas realidades. Mais tarde, assumir funções estratégicas ajudou-me a ganhar visão, sem perder a conexão com o essencial, as pessoas.
Houve três momentos que marcaram o meu percurso: o primeiro foi mudar de país, um salto de fé que me abriu o mundo e me ensinou que a coragem nasce quando avançamos mesmo sem garantias.
O segundo foi liderar transformações difíceis, onde percebi que, quando tudo parece incerto, são o propósito e a transparência que nos mantêm firmes.
E o terceiro foi descobrir que a verdadeira credibilidade nasce da coerência, de honrar a palavra, de escutar antes de decidir e de colocar as pessoas no centro.
Hoje, enquanto General Manager, o que mais me orgulha é criar um ambiente onde cada pessoa se sinta livre para ser quem é, crescer com confiança e sentir que faz parte de algo maior.

Que obstáculos específicos identifica para a liderança feminina no setor dos bens de consumo e na indústria agroalimentar, e que estratégias procura implementar para combater estereótipos e promover a equidade de oportunidades dentro da sua equipa?
Apesar dos avanços no setor, ainda existem barreiras reais para a liderança feminina, sobretudo na indústria agroalimentar, onde persistem estruturas tradicionais e estereótipos sobre “como deve liderar” uma mulher. Muitas sentem que precisam de provar continuamente o seu valor, e a falta de modelos femininos limita a inspiração para quem está a começar. A conciliação entre vida pessoal e profissional continua a ser um desafio estrutural, que afeta de forma desproporcional as mulheres e influencia decisões de carreira. Na Danone, trabalhamos de forma intencional para dar visibilidade e oportunidades reais ao talento feminino, criando espaço para liderarem projetos e ganharem exposição. Reforçamos processos de recrutamento e progressão mais equitativos, reduzindo vieses e garantindo decisões baseadas em mérito e potencial. E acreditamos profundamente no poder da cultura: um ambiente onde a autenticidade é valorizada e onde cada pessoa pode contribuir sem medo. Ao abrir caminho para mais mulheres na liderança, fortalecemos a Danone e influenciamos positivamente todo o setor.
Como descreveria o seu estilo de liderança e de que forma procura inspirar e motivar equipas transversais, em especial mulheres em início de carreira, para que se sintam confiantes em assumir posições de responsabilidade e tomada de decisão?
Descrevo o meu estilo de liderança como autêntico, próximo, transparente e muito orientado para o desenvolvimento das pessoas. Acredito que liderar é, acima de tudo, criar as condições certas para que cada pessoa possa dar o seu melhor, com autonomia, confiança e clareza de propósito. Gosto de estar presente, de ouvir e de envolver as equipas nas decisões, porque é dessa colaboração que surgem as melhores soluções e, consequentemente, os melhores resultados. Quando penso em mulheres em início de carreira, o meu foco é ajudá-las a reconhecer o seu próprio potencial. Muitas vezes, o talento está lá, falta apenas alguém que diga “vai, tens tudo para conseguir”.
Que iniciativas a Danone tem implementado para apoiar a progressão de mulheres na carreira, em áreas técnicas ou de gestão de mercado, e como mede o sucesso dessas iniciativas?
Na Danone, trabalhamos de forma intencional para criar condições reais de progressão para as mulheres, tanto em áreas técnicas como em funções de liderança. Acreditamos que o desenvolvimento tem de ser contínuo, estruturado e acompanhado. A diversidade começa no primeiro contacto com a empresa, todos os dias garantimos processos de recrutamento que acolhem perfis diversos e promovem a paridade nas nossas equipas. Em paralelo, reforçámos os programas de desenvolvimento, como mentoring, coaching e percursos personalizados de aprendizagem, para que cada pessoa tenha espaço para evoluir ao seu ritmo e ambição. Medimos o sucesso de forma muito objetiva: acompanhamos a evolução da representatividade feminina em cargos de liderança, a taxa de promoções internas, a participação em programas de desenvolvimento e, claro, a nossa capacidade de reter talento. Mas há um indicador que valorizo ainda mais: ver mulheres a sentirem-se confiantes, visíveis e apoiadas para assumir riscos e liderar. E os resultados estão à vista, 50% dos cargos de manager e diretores (nível 7) já são ocupados por mulheres. Ao mesmo tempo, criamos condições de bem-estar para as mulheres em todas as etapas da sua vida. Porque acreditar no talento das mulheres também significa garantir que têm o espaço, o tempo e as condições para prosperar pessoal e profissionalmente.
Como é que a Danone tem adaptado a sua estratégia em Portugal às tendências atuais de alimentação consciente, sustentabilidade ambiental e bem‑estar das comunidades, e que papel a liderança local tem na concretização desse propósito?
Em Portugal, temos vindo a adaptar a nossa estratégia de forma consistente com as tendências de consumo e com o que acreditamos ser o futuro da alimentação: mais saúde, mais sustentabilidade e maior impacto positivo nas comunidades. Para nós, isto é parte do propósito da Danone e influencia cada decisão que tomamos. Continuamos a reforçar um portefólio verdadeiramente saudável e acessível, com reformulações nutricionais e inovação que respondem às necessidades reais das famílias. A saúde está no centro de tudo o que fazemos, é a base das nossas decisões e da forma como queremos impactar o consumidor. A sustentabilidade entra como extensão natural deste compromisso com a saúde, garantindo que aquilo que colocamos no mercado nasce de práticas responsáveis e de um ecossistema protegido. Liderar este caminho significa manter o foco no essencial: produtos que melhoram a saúde das pessoas e escolhas que constroem um futuro melhor para todos.
Num mercado competitivo como o português, que fatores considera decisivos para diferenciar as marcas da Danone e conquistar consumidores cada vez mais exigentes em termos de saúde, qualidade e origem dos produtos?
O consumidor português está cada vez mais atento ao que consome, procura produtos saudáveis, de qualidade e impacto positivo. Para nós, isso não é uma tendência recente: é precisamente o território onde a Danone sempre atuou. E é essa coerência entre propósito e missão que nos diferencia. A nutrição continua a ser o nosso maior diferencial. Melhoramos continuamente o portefólio, reduzindo açúcares, simplificando ingredientes e garantindo benefícios reais. A confiança começa dentro da embalagem. A sustentabilidade é parte integral do produto. Desde embalagens mais circulares até energia renovável e parcerias agrícolas responsáveis, é um compromisso diário.
E aquilo que realmente nos distingue é a capacidade de aliar propósito a inovação, antecipando hábitos, ouvindo o consumidor e trazendo soluções relevantes. Num mercado tão competitivo, ganhar a confiança do consumidor é uma responsabilidade diária e a nossa ambição é continuar a merecê-la com marcas que entregam saúde, qualidade e impacto positivo, sempre.

Como descreveria a cultura interna da Danone em Portugal e de que forma o compromisso com a saúde das pessoas e do planeta se traduz no dia a dia da equipa, nas decisões de produto e na relação com parceiros e distribuidores?
A cultura interna da Danone em Portugal é, acima de tudo, profundamente humana. Somos uma equipa que acredita genuinamente que o impacto que geramos começa dentro de casa, na forma como colaboramos, tomamos decisões e nos cuidamos uns aos outros. Trabalhamos com responsabilidade, proximidade, abertura e espírito de co-criação, uma forma de estar que reflete os nossos valores HOPE (Humanism, Openness, Proximity e Empowerment).
Este compromisso com as pessoas e com o planeta não é apenas um princípio institucional – é algo que todos nós vivemos no dia-a-dia. Está presente na forma como desenvolvemos produtos orientados pela ciência e pela nutrição responsável, e nas conversas diárias sobre impacto ambiental, desde os ingredientes ao packaging. A cultura Danone nasce desta combinação de propósito e exigência, sempre com a consciência de que transformar positivamente o mercado só é possível cuidando das nossas pessoas, dos nossos consumidores e do planeta que partilhamos.
Que mensagem dirigiria a mulheres jovens que almejam carreiras internacionais em empresas de grande dimensão, e que conselho de liderança gostaria de deixar a uma próxima geração de executivas que se inspire em histórias como a sua na Danone?
Às mulheres jovens que ambicionam uma carreira internacional, diria antes de tudo que não há percursos “perfeitos”, há percursos possíveis, construídos com coragem, curiosidade e uma enorme capacidade de aprendizagem contínua. Trabalharmos em empresas globais dá-nos uma janela para o mundo, mas também nos desafia a sermos flexíveis, resilientes e confiantes naquilo que trazemos para a mesa.
O mais importante é acreditarem. Muitas vezes, o maior obstáculo para o crescimento é interno: a dúvida, o receio e medo de arriscar. A meu ver, crescimento internacional nasce precisamente do contrário, de dizer “sim” antes de se sentir 100% preparada, de procurar experiências que desconfortam, de pedir ajuda quando necessário e de construir redes de apoio fortes, dentro e fora da organização.
O meu conselho de liderança é simples: liderem com propósito e com autenticidade. O mundo corporativo precisa de diversidade. Não tentem encaixar-se em modelos rígidos, criem o vosso. Valorizem a escuta ativa, cultivem a empatia, tenham coragem para tomar decisões difíceis e humildade para aprender com os erros.






