“Diagnóstico precoce exige atenção a sinais subtis”, defende Marisa Marques, Psicóloga Clínica e da Saúde, que aposta em terapias inovadoras como o neurofeedback para intervir nas perturbações do neurodesenvolvimento.
Quais são os principais sinais clínicos, que os profissionais devem saber reconhecer para um diagnóstico precoce e rigoroso das perturbações de neurodesenvolvimento?
As Perturbações de Desenvolvimento e Neurodesenvolvimento referem-se a um grupo de condições que afetam o crescimento e o neurodesenvolvimento do ser humano, desde a infância até à idade adulta. Estas perturbações podem afetar várias áreas, sendo as mais comuns as competências motoras, linguagem e comunicação, aprendizagem, comportamento, atenção e memória. Os sinais clínicos das perturbações de neurodesenvolvimento nem sempre são evidentes e/ou observáveis “a olho nu”. Exigindo assim que todos os profissionais da área da Pediatria e Desenvolvimento tenhamos um conhecimento coeso e avançado permitindo-nos avaliar e interpretar todos os sinais da criança imprescindíveis para o diagnóstico precoce e rigoroso das perturbações de neurodesenvolvimento.
Os sintomas variam amplamente, dependendo do tipo de perturbação e da gravidade. Podem incluir atrasos no desenvolvimento da fala e da linguagem, dificuldades de aprendizagem, problemas de coordenação motora, comportamento desafiador, dificuldades na interação social e na atenção, e, em alguns casos, declínio cognitivo. Pelo que torna-se importante notar que estes sinais podem variar em gravidade e podem ser manifestados de forma diferente em cada pessoa, dependendo da perturbação de neurodesenvolvimento específica. O diagnóstico destas perturbações é complexo e envolve uma avaliação detalhada do desenvolvimento da criança. A avaliação deverá sempre ser ponderada do ponto de vista multidisciplinar e pode incluir avaliações por parte de pediatras, neurologistas, psicólogos/neuropsicólogos e terapeutas. A deteção precoce e o diagnóstico rigoroso são cruciais para o desenvolvimento de estratégias de apoio e intervenção adequadas.

De que forma a prematuridade pode influenciar o risco de desenvolver perturbações de neurodesenvolvimento e que estratégias precoces podem mitigar esse impacto?
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a prematuridade ocorre quando um bebé nasce antes das 37 semanas de gestação, mais especificamente: prematuros tardios (nascidos entre as 34 e 36 semanas e 6 dias); prematuros moderados (nascidos entre as 32 e 33 semanas e 6 dias); grandes prematuros (nascidos entre as 28 e 31 semanas) e os prematuros extremos (nascidos antes das 28 semanas). A prematuridade pode resultar em uma variedade de complicações médicas e atrasos no desenvolvimento, que podem ter impactos duradouros ao longo da vida, podendo ocorrer por uma variedade de razões, desde complicações durante a gravidez até condições médicas subjacentes da mãe, fatores genéticos e ambientais, se tornando uma das principais causas de morbidade e mortalidade neonatais, representando um dos maiores desafios para os sistemas de saúde e para as famílias afetadas.
A prematuridade aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de perturbações de neurodesenvolvimento. Crianças nascidas prematuramente têm maior probabilidade de sofrer atrasos cognitivos e motores, défices de atenção, hiperatividade e dificuldades de aprendizagem, e podem ter um maior risco de paralisia cerebral e outras condições. Os prematuros enfrentam uma série de desafios desde o momento do nascimento, onde muitas vezes necessitam de cuidados intensivos para garantir a sua sobrevivência e promover um crescimento e desenvolvimento adequado. Além disso, ao longo do desenvolvimento, a prematuridade releva um grande impacto, desde atrasos na evolução neurológica, no crescimento físico até a saúde respiratória, imunológica e nutricional. Apesar da escassez de estudos publicados portugueses sobre o efeito da prematuridade no neurodesenvolvimento, os dados analisados mostram conformidade com os dados internacionais mais recentes. Desta forma, reconhecer as implicações significativas que a prematuridade causa na saúde e no desenvolvimento destes bebés que enfrentam um risco aumentado de complicações de saúde que impactam seu desenvolvimento a longo prazo, é fundamental. Sendo imperativo a implementação de medidas preventivas e intervenções eficazes, como programas de educação em saúde, garantia de acesso equitativo a cuidados pré-natais e provisão de apoio emocional às gestantes. Assegura o acesso a serviços de saúde de qualidade ao longo do período gestacional, é imprescindível, bem como ao longo do desenvolvimento do bebé de forma a acompanhar todas as etapas do neurodesenvolvimento.
A avaliação sistemática do neurodesenvolvimento no âmbito da consulta de vigilância de saúde infantil é fundamental. As dúvidas e preocupações dos pais e educadores devem ser sempre ouvidas e valorizadas. Bem como temos de ter em consideração a existência de diferentes fatores de risco, biológicos e ambientais, que podem interferir negativamente com o normal desenvolvimento infantil. Adotando uma abordagem integrada e colaborativa para enfrentar o desafio da prematuridade, envolvendo profissionais de saúde, famílias e comunidades, promovendo uma abordagem abrangente e colaborativa para enfrentar os possíveis desafios e para um diagnóstico atempado e a uma intervenção precoce adequada maximizando o potencial de desenvolvimento do prematuro, garantindo um futuro saudável e próspero para essas crianças.
Qual o potencial do neurofeedback e da neuromodulação como ferramentas terapêuticas nas perturbações de neurodesenvolvimento, e em que contextos a sua aplicação é mais indicada?
A neuroplasticidade, também chamada de plasticidade cerebral ou neuronal, refere-se à capacidade do cérebro se adaptar e modificar conforme necessário. Estas modificações ocorrem durante neurogénese (formação de um neurónio funcional). Esta plasticidade está presente na nossa vida desde a fase embrionária até ao nosso último dia de vida. Permitindo que todos nós tenhamos a capacidade de criar, desfazer e reorganizar as nossas redes neurais e as nossas ligações neuronais, desde o nosso nascimento até à nossa morte. Com base nos processos que estão na base da neuroplasticidade e na neurogénese os investigadores têm-se debruçado bastante a encontrar novas respostas nas células-tronco, novos agentes farmacológicos e na neuromodulação na tentativa de encontrar tratamentos e intervenções com maior efeito e mais eficácia. A neuromodulação representa uma fronteira terapêutica em expansão, nomeadamente para as perturbações de neurodesenvolvimento, quer através das Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (TDCS), como do Neurofeedback, que através da regulação funcional cerebral demonstra uma minimização e menor impacto dos sintomas comportamentais e cognitivos. Apesar da necessidade de estudos longitudinais e mais protocolos padronizados, os resultados atuais sustentam a sua eficácia como uma ferramenta complementar, segura e comprovada cientificamente. O Neurofeedback proporciona um treino autorregulatório das atividades elétricas cerebrais, onde existe a monitorização da atividade cerebral em tempo real e fornecendo feedback ao paciente, que consequentemente irá ajudar a regular padrões de ondas cerebrais e melhorar a função cognitiva e a capacidade de autoregulação. Estudos científicos onde utilizam intervenções com Neurofeedback revelaram resultados com melhorias na atenção, redução de comportamentos repetitivos (no caso do autismo) e aumento da autorregulação emocional.
Por outro lado, a Neuromodulação com a TDCS utiliza uma corrente elétrica de baixa intensidade para modular a excitabilidade cortical, sem efeitos adversos e é difusa, permitindo que uma área maior seja estimulada e/ou inibida. É uma corrente contínua de baixa intensidade, até 2 mA (bem abaixo do nível de uma bateria de 9V), cedida através de elétrodos colocados no córtex cerebral. Produzindo assim mudanças imediatas e duradouras na função cerebral que está na base da área cerebral a modular. Ensaios clínicos apontam benefícios no funcionamento executivo, comportamento social e aprendizagem. A integração dessas técnicas no contexto terapêutico tem mostrado resultados promissores na prática clínica como: o aumento do foco atencional, concentração, memória e a função executiva; diminuição de crises de autorregulação, dos sintomas de ansiedade, irritabilidade, impulsividade e rigidez cognitiva; melhoria no desenvolvimento da linguagem funcional e no comportamento adaptativo. A resposta tende a ser mais expressiva quando associada a outras abordagens neuropsicológicas e terapias personalizadas. Por exemplo:
- Intervenções com recurso a Neurofeedback:
- No Autismo: Estudos indicam que o neurofeedback potencia em melhorias significativas na comunicação, no desenvolvimento social e na redução da ansiedade.
- Na Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção: a investigação demonstrou melhorarias clinicamente significativas a atenção, o foco e a capacidade de controlo de impulsos e agressividade em crianças e jovens.
- Na Epilepsia: revelou cientificamente que pode ser benéfica na redução da frequência e da intensidade das crises epilépticas, através da modulação da atividade cerebral.
- Intervenções com recurso à Neuromodulação:
- Autismo: A TDCS tem demonstrado efeitos positivos na melhora da função executiva e na redução da rigidez cognitiva.
- Na Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção: A estimulação transcraniana magnética (TMS) e a tDCS são investigadas como ferramentas terapêuticas para melhorar o controlo dos impulsos e a função executiva.
- Na Epilepsia: de acordo com estudos científicos pode ser utilizada para modular áreas cerebrais envolvidas nas crises epilépticas, com o objetivo de reduzir a frequência e a intensidade das crises.
É importante ressaltar que, apesar do potencial terapêutico, a aplicação destas técnicas deve ser sempre conduzida por profissionais qualificados e sob supervisão médica.





