À frente do ISEP, Maria João Viamonte destaca-se pela dedicação ao ensino, investigação e inovação em engenharia. Em entrevista exclusiva à Revista Business Portugal, reforça a importância da equidade de género e da criação de oportunidades para mulheres, preparando profissionais capazes de transformar o futuro da engenharia.
A sua carreira é marcada por uma forte ligação ao ensino superior e à engenharia. O que a motivou a abraçar este percurso académico e quais foram os momentos mais significativos que a conduziram até à liderança do ISEP?
Iniciei a minha atividade no ISEP como docente em 1997, depois de sete anos a trabalhar no departamento de informática de uma empresa da indústria química. Sempre gostei de desafios e, desde cedo, senti uma forte vocação para o ensino e para a investigação. Por isso, a transição para o ensino superior como docente e investigadora foi um passo natural no meu percurso profissional. Em 2009 fui nomeada vice-presidente do Conselho Técnico-Científico (CTC), cargo que exerci durante 8 anos. O CTC é um dos órgãos que mais intervém no dia a dia da Escola, na vida das pessoas que a constituem e tem uma grande interação com entidades externas. Esse cargo deu-me muita satisfação pessoal e profissional, além de experiência e de um conhecimento profundo sobre a realidade do ISEP. Quando chegou o momento de refletir sobre o que queria e poderia fazer a seguir, a candidatura à Presidência do ISEP tornou-se o passo óbvio, porque me sentia preparada e muito motivada para a exercer, mas acima de tudo porque achava que podia retribuir, com valor, todo o investimento que o ISEP tinha feito em mim ao longo dos mais de 20 anos, em que fui docente, investigadora e exerci funções de gestão.

A Engenharia continua a ser um setor onde a presença feminina está em crescimento, mas ainda enfrenta barreiras. Que desafios sentiu ao longo do seu percurso e de que forma acredita que o ISEP contribui para uma maior equidade de género na formação de engenheiros?
Fui a primeira mulher eleita presidente de uma escola de engenharia – um marco simbólico e significativo. Apesar desta conquista, é inegável que a engenharia continua a ser um domínio maioritariamente masculino. Nunca senti que o facto de ser mulher me limitasse diretamente no meu percurso, mas reconheço que persistem desigualdades estruturais. A presença feminina nos cursos de engenharia no ensino superior varia consoante as áreas específicas e as instituições, mas continua, em geral, a ser inferior à de outras áreas do conhecimento. Ainda assim, verifica-se uma tendência positiva de crescimento, fruto de esforços contínuos para promover a igualdade de género e a diversidade no setor.
A influência cultural continua a ter um peso determinante. Em muitas famílias, ainda persiste a ideia de que a engenharia “não é para raparigas”, o que limita escolhas e expectativas desde cedo. É por isso que iniciativas como o projeto “Engenheiras Por Um Dia”, do qual o ISEP é parceiro ativo, são fundamentais. Estas ações contribuem para desconstruir estereótipos e mostrar, de forma concreta, que a engenharia é uma área onde as mulheres têm lugar, valor e impacto. Promover o contacto com diferentes percursos, exemplos e oportunidades é essencial para ampliar horizontes e criar confiança nas decisões académicas e profissionais das jovens. O ISEP tem um compromisso claro com a igualdade de género, promovendo uma representação equilibrada nos seus órgãos de gestão – algo ainda raro neste tipo de instituições – e dinamizando campanhas de sensibilização e semanas temáticas dedicadas à valorização da mulher na engenharia. Acredito profundamente que a mudança começa na educação e na visibilidade. É por isso que faço questão de participar em todas as iniciativas que contribuam para eliminar barreiras e construir uma engenharia mais inclusiva, justa e representativa.
A inovação e a ligação ao tecido empresarial têm sido pilares estratégicos do ISEP. Que projetos ou iniciativas destacaria como exemplos do impacto positivo que a instituição tem gerado a nível nacional e internacional?
A inovação está no centro da missão do ISEP, concretizando-se através de uma forte ligação ao tecido empresarial e ao mundo real. Procuramos ser um agente de transformação, promovendo a transferência de conhecimento, o empreendedorismo e a valorização da investigação aplicada. Destacamos o nosso envolvimento em projetos de grande escala, de âmbito nacional e internacional, bem como a investigação de excelência desenvolvida nas nossas unidades de I&D, que tem gerado soluções avançadas em áreas estratégicas como a inteligência artificial, a energia, a cibersegurança e a sustentabilidade.
Iniciativas como o P.PORTO Innovation Hub, com forte participação do ISEP, exemplificam a nossa aposta na cocriação com empresas e startups, contribuindo para a construção de um ecossistema de inovação aberta e promovendo o desenvolvimento de novos produtos e serviços com impacto direto na economia.
No domínio da formação avançada, o ISEP oferece atualmente quatro programas doutorais: Engenharia Eletrotécnica e Sistemas Computacionais; Engenharia Mecânica e Produção Sustentável; Inteligência Artificial e Engenharia de Sistemas Inteligentes e Química Analítica e Engenharia para a Sustentabilidade Ambiental.
Adicionalmente, submetemos recentemente para aprovação um novo programa doutoral na área da Cibersegurança e Privacidade.
Estes programas são particularmente relevantes para o tecido empresarial e industrial nacional, pois abordam áreas-chave da transição digital, inteligência artificial, produção sustentável e sustentabilidade ambiental. O seu impacto vai muito além da qualificação avançada de recursos humanos altamente especializados – contribuem diretamente para a inovação tecnológica, para o aumento da competitividade das empresas e para a resposta a desafios societais emergentes.
É neste contexto que o ISEP se afirma como um parceiro de excelência no panorama da engenharia nacional e internacional.
Que metas gostaria de alcançar nos próximos anos, enquanto líder de uma das mais prestigiadas escolas de engenharia do país? E que mensagem deixaria às jovens que hoje ponderam seguir uma carreira neste setor?
Nos próximos anos, queremos reforçar a nossa atuação internacional, através da criação de programas conjuntos e duplos graus, e alargar o nosso portefólio de doutoramentos em áreas emergentes e nas quais o ISEP já desenvolve investigação de excelência – com destaque para a área dos sistemas autónomos. Paralelamente, o ISEP reúne atualmente todas as condições para transitar para o subsistema universitário. Trata-se de uma mudança estruturante, profundamente alinhada com a nossa missão e com a maturidade institucional que alcançámos. Acredito convictamente que esta transição acontecerá num futuro muito próximo. Por fim, gostaria de sublinhar que as mulheres têm um papel essencial no desenvolvimento tecnológico e social. No ISEP, uma instituição de referência no ensino da engenharia em Portugal, promovemos uma cultura de excelência onde o mérito, a preparação e a ambição de cada pessoa são reconhecidos e valorizados. Acreditamos que a verdadeira igualdade se constrói com oportunidades concretas, compromisso institucional e liderança com visão. E é nesse sentido que o ISEP tem vindo a afirmar-se como um espaço de formação de excelência, aberto, inclusivo e empenhado em preparar engenheiras e engenheiros capazes de transformar o mundo. A Engenharia é – e deve continuar a ser – uma profissão onde cada mulher pode, com orgulho e impacto, fazer a diferença.







