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A importância do cérebro na saúde e na doença mental

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Prof. Albino J. Oliveira Maia Fundação Champalimaud e Universidade NOVA de Lisboa Vice-Presidente do Conselho Português do Cérebro Presidente Eleito da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental

 

Por ocasião do Dia Mundial do Cérebro, é com muito prazer que escrevo em nome da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental sobre a importância do cérebro na saúde e na doença mental. O dia foi instituído pela Federação Mundial de Neurologia, e é celebrado em vários países a 22 de julho, para nos lembrarmos da importância do cérebro. Porquê então chamar também psiquiatras para falar sobre a mente? O facto de que as doenças mentais são também doenças do cérebro é hoje algo relativamente inequívoco. Mas mesmo as coisas inequívocas não deixam de ser causa de ambivalências e dúvidas, e no âmbito da saúde mental elas são abundantes.

Não será causa de estranheza que o conhecimento sobre o cérebro esteja bem estabelecido como uma parte fundamental da formação, treino e atualização científica que se exige a quem cuida das doenças da mente. Aos médicos psiquiatras e psicólogos clínicos, não chega saber sobre emoções, cognição e comportamento, é preciso conhecer também como funcionam os neurónios, o que são redes cerebrais, e as formas como podem adoecer. O que é surpreendente é como, apesar disso, é tão fácil criar contrastes artificiais entre estratégias mais biomédicas de tratamento, como a medicação e a estimulação cerebral, e estratégias mais psicossociais e comportamentais, como a psicoterapia. Não é seguramente a pessoas que estão doentes que esta divisão serve.

Mas a divisão é clara, e segue linhas disciplinares. Numa doença neurodegenerativa como a doença de Alzheimer, tipicamente entregue à disciplina da Neurologia, apesar de sabermos que intervenções ao nível da alimentação, exercício físico e estimulação social são das mais eficazes, temos um investimento melhor sustentado e mais significativo no desenvolvimento e implementação de novos fármacos. Já em doenças mentais comuns como a depressão e a ansiedade, vistas como da responsabilidade da Psiquiatria, números que podem refletir melhor acesso a tratamentos com medicamentos são tratados, mesmo por alguns médicos e académicos, como demonstração de falhanço na abordagem destas condições. No melhor interesse dos doentes, há no entanto que assegurar que os tratamentos, sejam eles quais forem, estejam disponíveis para quem deles tenha necessidade, desde que adequadamente estudados e validados.

Nos casos dos tratamentos mais biomédicos para as doenças de natureza mais mental, importa pensar nos motivos pelos quais o pensamento oscila tão facilmente entre ser óbvio que estas são doenças predominantemente do cérebro, e ser tão desafiante abraçar que os tratamentos possam passar por substâncias químicas ou ondas eletromagnéticas. Tumores, infeções e fraturas são visíveis, seja a olho nú, seja debaixo de um microscópio, e é fácil aceitar que se utilizem medicamentos e cirúrgias para os eliminar ou ultrapassar as suas consequências. Já em doenças que não se conseguem ver, sustentadas em alterações do funcionamento de circuitos cerebrais e da sua relação com o corpo e com o ambiente, e que afetam principalmente o pensamento, as emoções e o comportamento, a doença confunde-se com a pessoa e a sua identidade. Por esse motivo, e não apesar dele, é fundamental que, também aqui, nos mantenhamos fiéis aos princípios básicos do direito à saúde – permitir o melhor acesso aos melhores meios de tratamento, para que as pessoas possam viver livres de sofrimento, e a usufruir o mais possível daquilo que a vida tenha para lhes oferecer.

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