Matosinhos quer ser, em 2030, um concelho robusto e sustentável, fruto de planeamento de longo prazo que equilibra ambição e método. Numa entrevista à Revista Business Portugal, a Presidente da Câmara Municipal, Luísa Salgueiro, enumerou as prioridades para lá chegar: economia azul, inovação, mobilidade e uma governação articulada entre empresas, ciência e território.
Que Matosinhos querem entregar aos cidadãos em 2030 e quais são hoje as prioridades para lá chegar?
Para uma pessoa comum, 2030 pode parecer estar a muitos anos de distância. Mas quem governa uma cidade sabe que isso está, na verdade, quase ao virar da esquina. Uma cidade não se gere apenas ao nível das decisões visíveis do dia a dia. Uma parte significativa das decisões que tomamos hoje, na Câmara Municipal, só vai ver a luz do dia em 2056, ou mais tarde ainda.
Uma boa comparação entre o futuro longínquo e o futuro próximo é comparar as duas Leças do concelho: Leça do Balio e Leça da Palmeira. Em Leça do Balio, colhemos hoje os frutos de um planeamento que começou há vários anos. Esta é uma zona consolidada, que cresceu de forma muito significativa com a instalação de um tecido empresarial forte. É o futuro próximo a acontecer, resultado de decisões tomadas há muito tempo. Em Leça da Palmeira, estamos precisamente na outra ponta desse percurso. Estamos a ver o território a crescer – por exemplo, com os terrenos da antiga refinaria da Galp, um projeto que vai atingir a maturidade daqui a várias décadas, mas que estamos a desenhar hoje. Assim, independentemente do ano – seja 2030 ou 2056 –, as prioridades para lá chegar resumem-se, no fundo, a uma ideia central: promover um concelho robusto, mas crescer sempre de forma sustentável, através de planeamento. Não nos interessa um crescimento rápido e desordenado – interessa-nos um crescimento que dure, que seja pensado com rigor, articulado entre todas as áreas do território, e que respeite o tempo próprio de cada transformação. É esse equilíbrio entre ambição e método que queremos entregar aos matosinhenses em 2030.

Matosinhos tem conseguido atrair novas empresas e criar emprego. O que está a tornar o concelho particularmente atrativo para investir e instalar empresas?
Matosinhos é hoje um dos concelhos mais procurados do país para investir e os números confirmam-no. Nos últimos anos, o número de empresas sediadas no concelho cresceu mais de 22%, o que se traduz em cerca de nove mil novos postos de trabalho e a média salarial está acima da média nacional.
Um dos grandes trunfos de Matosinhos é precisamente a rede empresarial que se foi construindo no concelho. A diversidade de setores e entidades aqui instaladas – da tecnologia à economia do mar, dos serviços avançados às indústrias criativas – cria um ecossistema propício a parcerias entre empresas. Esta proximidade entre diferentes áreas de atividade gera sinergias que dificilmente se encontram noutros territórios, algo cada vez mais valorizado pelas empresas.
A esta rede junta-se outro fator decisivo: as infraestruturas de suporte. O Porto de Leixões, a proximidade ao Aeroporto e a rede de autoestradas colocam Matosinhos no centro das cadeias de exportação e de prestação de serviços, facilitando a ligação das empresas aqui instaladas aos mercados nacional e internacional. No mesmo sentido, estamos a promover a expansão da mobilidade. Os investimentos em curso no MetroBus e em novas linhas de metro vão consolidar Matosinhos como um território cada vez mais preparado para acompanhar o crescimento da sua atividade económica.
Fora a cadeia de valor dos serviços e da economia, Matosinhos oferece uma vantagem diferenciadora que poucos territórios conseguem igualar: qualidade de vida. As praias, o comércio local, os espaços verdes e a oferta cultural fazem de Matosinhos um concelho onde se vive bem. Esta combinação entre dinamismo económico e qualidade de vida é, por isso, um dos maiores trunfos de Matosinhos face a outros territórios, pois permite reter talento.
A economia azul é apontada como uma das grandes apostas estratégicas do concelho. Que papel pretende Matosinhos assumir neste setor a nível nacional e internacional?
A economia azul é hoje um dos setores com maior potencial de crescimento em escala global. Neste contexto, Matosinhos está particularmente bem posicionado. O concelho concentra ativos únicos em logística portuária, turismo costeiro, inovação científica, economia do mar e transição energética azul e afirma-se hoje como o principal ecossistema nacional da economia azul.
Matosinhos tem uma das maiores concentrações nacionais de empresas ligadas ao mar, com mais de 70 startups da economia azul identificadas no seu ecossistema, e é um dos maiores polos científicos do país, com uma rede de inovação que reúne entidades como o INESC TEC, o CEiiA, o CoLAB +Atlântico, o Fórum Oceano, o CIIMAR, o UPTEC Mar e o ecossistema científico da Universidade do Porto. É este conjunto – massa empresarial, investigação de topo, infraestrutura portuária e capacidade de transformar ciência em negócio – que dá a Matosinhos a capacidade de se afirmar como como a Capital Atlântica da Indústria Azul, em Portugal e no mundo.

A mobilidade está a atravessar uma fase de forte transformação, com o MetroBus e outros projetos em desenvolvimento. Que impacto espera o Município que estas mudanças tenham na vida quotidiana e na competitividade do concelho?
A mobilidade em Matosinhos está a crescer ao ritmo da própria cidade. Como já referi, o planeamento de uma cidade não se faz a cinco anos, mas a várias décadas. É esse trabalho de casa que Matosinhos tem vindo a fazer. Hoje, estamos a ver a nascer estruturas que levam tempo a construir, mas que serão absolutamente essenciais para o funcionamento da cidade nas próximas décadas – o MetroBus e as novas linhas de metro são exemplos claros desse planeamento de longo prazo, feito hoje para responder às necessidades de amanhã. Claro que há dores de crescimento, nomeadamente o congestionamento de trânsito, mas é um preço a pagar para que, daqui a 1-2 anos, a nossa rede de transportes seja mais sólida e preparada para responder ao crescimento da cidade. Estamos a trabalhar em muitos projetos que ainda estão nos gabinetes técnicos, mas que estão a ser estudados há vários anos. Estamos a planear em função desta visão de futuro, envolvendo vários parceiros porque só com esta articulação é possível garantir que a mobilidade acompanha, e não trava, o crescimento e a competitividade do concelho.
Que papel quer o Município desempenhar na ligação entre empresas, universidades, centros de investigação e talento?
O Município assume-se cada vez mais como o elo articulador entre empresas, universidades, centros de investigação e talento. Não se trata apenas de um papel regulador – a Câmara posiciona-se ativamente como o agente que reúne estes diferentes atores à mesma mesa, criando as condições para que a inovação aconteça de forma estruturada e não dispersa. Ao envolver diretamente empresas, a academia e a comunidade na definição das políticas municipais, Matosinhos garante que as decisões são mais sólidas, mais legítimas e mais alinhadas com as necessidades reais de quem desenvolve conhecimento e de quem o transforma em valor económico no território.
Que projetos ou iniciativas considera mais representativos dessa ambição?
Podemos ter como exemplo, ainda que não seja o único, o Galp Innovation District. Trata-se, na prática de uma verdadeira minicidade dentro da cidade, que começa do zero e permite construir todo um projeto de raiz, pensado desde a primeira pedra para responder às exigências da economia do futuro. Poder desenhar de raiz uma área com estas dimensões é uma oportunidade rara. O Galp Innovation District funciona como prova de que a ambição do concelho não é fazer crescer o que já existe, mas criar, de raiz, o próximo capítulo da economia local.
Que mensagem gostaria de deixar às empresas, investidores e profissionais que estão a olhar para Matosinhos como território para trabalhar, investir ou criar um projeto?
Matosinhos é um território previsível. E a previsibilidade, no mundo de hoje, é um valor raro e precioso. Previsível porque planeia há décadas, e não em função de ciclos eleitorais; porque cumpre o que promete; porque quem investe aqui sabe que encontrará continuidade, sem sobressaltos. Mas esta previsibilidade não significa imobilismo – pelo contrário, é ela que nos dá a agilidade para nos adaptarmos. É o histórico de décadas a trabalhar de perto com a ciência, com a inovação e com o conhecimento que nos permite antecipar mudanças em vez de as sofrer. Um território que já provou saber articular indústria, ciência e território não precisa de reinventar-se a cada nova exigência do mercado. É essa combinação que faz de Matosinhos um território preparado tanto para o presente como para o futuro.







