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Correr com identidade: Azores Trail Run projeta os Açores no mundo

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Dos trilhos ancestrais da ilha do Pico para o calendário mundial do trail running, o Azores Trail Run® nasceu de uma memória pessoal e transformou-se numa das mais relevantes plataformas de promoção internacional dos Açores. Mário Leal, Fundador e Diretor do Azores Trail Run®, explica como uma visão enraizada no território deu origem a um evento que cruza natureza, cultura e sustentabilidade, afirmando o arquipélago como destino de excelência no turismo ativo.

O Azores Trail Run® nasce de uma história pessoal. O que leva um geógrafo açoriano a transformar os trilhos da sua infância num evento de dimensão mundial?

Os meus primeiros trilhos foram os caminhos antigos da Prainha, no Pico, com o meu avô e o meu pai. No tempo dos nossos antepassados, e ainda em alguns locais das nossas ilhas, o trail chamava-se necessidade: estes caminhos eram as vias de comunicação antes do automóvel.

Nos anos 90, na universidade, fiz um trabalho académico sobre os trilhos pedestres enquanto recurso económico, décadas antes de o turismo de natureza estar na moda. O Azores Trail Run® nasceu dessa visão e de uma inquietação.

 

Mário Leal, Fundador e Diretor do Azores Trail Run®

 

O Azores Trail Run® tem vindo a afirmar-se como uma referência no trail running em Portugal. Que momentos-chave marcaram a sua evolução e que eventos compõem hoje a marca?

A génese foi em 2014, por iniciativa do CIAIA e do Parque Natural do Faial. Já organizámos eventos em oito das nove ilhas e temos hoje dois eventos âncora: o Ultra Blue Island, no Faial, em maio, com cinco corridas, da Whalers’ Great Route 100K à Family Race 10K, mais a Kids Trail gratuita, com 526 crianças de todas as escolas do Faial; e o Triangle Adventure, desde 2015, em outubro: três ilhas, três dias, no mínimo quatro noites nos Açores. Em 2019, a Whalers’ Great Route entrou no calendário da Ultra-Trail World Tour. Em 2020, o salto de escala: o Golden Trail Championship, o mundial da elite, quando o mundo estava parado; em 2021, a Grande Final das Golden Trail National Series; em 2023, o Prémio Nacional de Turismo, na categoria Turismo Inovador.

De que forma o conceito Ultra Blue Island traduz a identidade dos Açores e contribui para diferenciar a prova no panorama internacional do trail running?

O Faial é a Ilha Azul, e o Ultra Blue Island é exatamente isso: uma ilha azul no meio do Atlântico, percorrida do mar ao vulcão. Os percursos partem do Porto do Comprido, junto ao Vulcão dos Capelinhos, a terra mais nova dos Açores e de Portugal, atravessam a Caldeira e terminam na frente-mar da Horta, uma das mais belas baías do mundo. Não desenhámos um percurso para uma corrida; pusemos os corredores dentro da paisagem e da cultura que nos definem: as canadas ancestrais, os impérios, as casas do povo, o mar sempre presente. Quem vem ao Ultra Blue Island não vem só correr: vem viver o património natural e cultural dos Açores.

 

Costado da Nau, Vulcão dos Capelinhos
Freguesia da Ribeirinha, Ilha do Faial

 

Como avaliam o impacto do evento na projeção dos Açores enquanto destino de turismo ativo e de natureza, particularmente junto de mercados internacionais?

Em 2025, 59,3% dos participantes vieram do estrangeiro, e 2026 foi o terceiro ano consecutivo com maioria internacional: mais do dobro da Transvulcania, nas Canárias, a grande referência insular ibérica. Desde 2014 somamos mais de 8.400 inscrições e 73 nacionalidades de seis continentes numa ilha com 15 mil habitantes, com Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália e Polónia à cabeça e uma ligação especial à diáspora açoriana da América do Norte. Não vêm só correr: 89% fazem outras atividades turísticas e 76,5% visitam outras ilhas. No Golden Trail Championship 2020 (290 milhões de impressões, L’Équipe, SIC, Eurosport), 99% das notícias referiam os Açores. É promoção externa a potenciar o trabalho da Visit Azores.

 

Ponte da Levada, Ilha do Faial

 

A sustentabilidade é hoje um eixo central em eventos desta natureza. Que práticas concretas têm sido implementadas para garantir a preservação dos ecossistemas onde decorre a prova?

A sustentabilidade está na génese: o evento nasceu com o Parque Natural do Faial. Para mim, que sou geógrafo de formação e inspetor do ambiente, é uma convicção antiga. Praticamos política de Lixo Zero: não fornecemos um único copo descartável e as marcações são bandeiras reutilizáveis. Compensamos a pegada do evento com plantação de espécies endémicas, com o projeto Pegada Zero – SOS Laurissilva dos Açores, e recuperamos trilhos e caminhos ancestrais. Num destino que foi o primeiro arquipélago do mundo certificado como sustentável, 77% dos corredores de trail preferem eventos sustentáveis. A próxima etapa é a certificação do evento como sustentável.

De que forma o Azores Trail Run® tem contribuído para a dinamização económica local, nomeadamente ao nível do envolvimento de comunidades e agentes turísticos?

O Estudo de Impacto que concluímos em 2026 quantificou-o: cada participante internacional gasta em média 1.065 € nos Açores, o impacto acumulado ronda os 10 milhões de euros e cada euro de investimento público devolveu entre 11 e 15 € nas edições recentes (6,7 € no acumulado desde 2014), acima dos referenciais internacionais. Só o UBI representa mais de 10% de todas as dormidas do Faial no mês de maio. Um estudo da Universidade de Coimbra, já em 2020, referia que 76% dos residentes consideravam os eventos muito importantes para a região. No terreno, o evento mobiliza centenas de voluntários, juntas de freguesia, casas do povo, hotelaria, restauração e animação turística.

Qual o papel dos parceiros institucionais e das ligações aéreas no crescimento do evento e do destino?

A Direção Regional do Turismo e a Câmara Municipal da Horta são parceiros de primeira hora, e o evento trabalha ao serviço das metas do PEMTA 2030: menos sazonalidade, mais dispersão pelas ilhas, um destino sustentável.

A SATA é a nossa ponte aérea: 89% dos participantes chegam nos seus aviões e, só no Faial e só de corredores, o fluxo acumulado desde 2014 equivale a encher mais de 100 Airbus A320 entre Lisboa e a Horta, contando ida e volta, porque quem entra tem de sair. No período dos eventos, os voos de Lisboa para a Horta e para o Pico esgotam todos os anos, tal como as ligações a partir de Ponta Delgada e da Terceira; nos dias seguintes, o movimento repete-se no regresso. As queixas públicas dos residentes, que nessas datas não conseguem viajar, dizem tudo: a procura excede a oferta, e maio e outubro merecem capacidade aérea programada.

 


O Ultra Blue Island em números

  • 73 nacionalidades, de seis continentes
  • Mais de 8.400 inscrições desde 2014
  • 1.065 € de gasto médio por participante internacional
  • 11 a 15 € de retorno por euro de investimento público nas edições recentes
  • Mais de 10% das dormidas do Faial no mês de maio
  • 40,3% de participação feminina em 2026
  • 290 milhões de impressões nos media internacionais no Golden Trail Championship 2020, acolhido pelo evento no Faial

 

Que condições considera necessárias para que eventos com este retorno se consolidem como instrumentos estáveis de promoção do destino?

O retorno está medido: cada euro de investimento público devolveu entre 11 e 15 € nas edições recentes. O que falta não é prova, é previsibilidade. Um evento internacional planeia-se com 12 a 18 meses de antecedência. Contratos-programa a três anos permitiriam contratar melhor, negociar com parceiros internacionais e crescer com segurança. Não pedimos mais do que aquilo que o retorno já justifica: estabilidade, para transformar um evento com provas dadas num instrumento permanente do destino, como fazem os destinos que competem connosco.

Que oportunidades existem para empresas e marcas que queiram associar-se ao Azores Trail Run®?

O trail running é o segmento do running que mais cresce no mundo, cerca de 12% ao ano há mais de uma década, e a nossa audiência é de elevado valor acrescentado: média de 42 anos, 79% com formação superior, poder de compra médio-alto, 73 nacionalidades e 40,3% de participação feminina em 2026, muito acima dos 27,8% de mulheres ativas no trail mundial. Uma marca associada ao Azores Trail Run® chega a este público nos Açores e lá fora, com valores ambientais, autenticidade e superação. Procuramos parceiros que queiram crescer connosco: o ativo existe e está medido.

 

Partida da Whalers’ Great Route 100K, Vulcão dos Capelinhos

 

Olhando para o futuro, que ambições e projetos estão definidos para consolidar o Azores Trail Run® como referência global no segmento do trail running e turismo sustentável?

A ambição é consolidar o Azores Trail Run® como uma infraestrutura permanente de captação de turismo de natureza para os Açores. Não um evento que acontece, mas uma plataforma do destino. Isso passa por profissionalizar a estrutura; por abrir o evento a marcas globais; pela certificação do evento como sustentável; e pelo sonho de um circuito de trail que una várias ilhas. Os eventos de pequena escala devolvem mais à comunidade do que os mega-eventos: é esse o nosso modelo. Crescer em valor, não em volume. A nossa natureza é nossa, e é ela que nos traz o mundo.

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