Num contexto internacional marcado por incertezas económicas, desafios climáticos e transformações tecnológicas profundas, o setor segurador português mostrou uma notável resiliência e capacidade de adaptação. Mantendo níveis de solvência muito acima do mínimo regulatório e registando, em 2024 e 2025, crescimentos expressivos tanto nos ramos Vida como Não Vida, o setor consolidou a sua posição como um pilar de estabilidade financeira e social. Para José Galamba de Oliveira, Presidente da Associação Portuguesa de Seguradores (APS), este desempenho deve-se à capacidade das seguradoras em antecipar tendências, inovar na oferta e reforçar o seu contributo para uma sociedade mais protegida, resiliente e preparada para os riscos do futuro.
O setor segurador português manteve níveis de solvência e de estabilidade muito acima do mínimo regulatório, garantindo confiança e robustez. Por outro lado, registou em 2024 e 2025 um crescimento expressivo, designadamente com a produção de seguros diretos a atingirem valores bem significativos. Que fatores considera terem sido determinantes para este desempenho positivo, num contexto internacional marcado por incertezas económicas e geopolíticas?
2024 e 2025 foram, de facto, anos que mostraram um sólido crescimento nos vários ramos de negócio do setor segurador. A verdade é que, independentemente deste contexto de grande incerteza económica e geopolítica, aonde as seguradoras já hoje operam, o setor, no seu todo, desenvolve cenários de evolução dos vários riscos da sociedade em geral, das famílias e dos negócios em particular, de modo a poder antecipar tendências e necessidades e, assim, poder continuar a adaptar e a inovar a sua oferta de produtos e serviços que acrescentem valor e que ajudem os clientes a terem vidas seguras e prósperas.

Tanto os ramos Vida como Não Vida contribuíram para esse crescimento, ainda que com dinâmicas distintas. Como caracteriza a evolução recente, ao longo de 2025, de cada um destes ramos?
Ainda não temos apurados os números finais do crescimento anual da produção em 2025, mas podemos adiantar que o crescimento anual do ramo Vida rondará cerca dos 6% sendo de destacar, neste ramo, o crescimento acima dos 8%, dos seguros de vida risco, tipicamente associados a operações de crédito. Já quanto ao crescimento anual, em 2025, dos ramos não vida, cujo desempenho está tipicamente relacionado com a evolução da atividade económica, os indicadores que temos apontam para um valor ligeiramente acima dos 9%.
No caso específico dos seguros do ramo Não Vida, que contribuição tiveram os seguros de saúde para esse crescimento? E que acompanhamento tiveram os respetivos prémios?
Os seguros de saúde são hoje a segunda componente mais importante da carteira seguros não vida do setor, depois do seguro automóvel. Em 2025 os seguros de saúde terão tido um crescimento de cerca de 13%, acima da média de crescimento do conjunto dos ramos não vida, mas abaixo do crescimento registado em 2024. É de salientar que este crescimento anual em 2025, de cerca de 13% nos prémios emitidos, compreende tanto o aumento do valor dos prémios no momento da renovação do seguro, como o aumento da carteira por contratação de novos seguros.
De uma forma geral, os prémios médios dos seguros têm vindo a apresentar aumentos significativos. Ainda assim, Portugal continua a apresentar prémios per capita abaixo da média europeia. Que leitura faz deste indicador e que papel pode o setor segurador desempenhar no reforço da literacia financeira e da cultura do seguro junto da população?
É bem verdade que temos em Portugal um valor de prémios per capita abaixo da média europeia, e muito especialmente nos seguros não vida. Isto demonstra que temos gaps de proteção (rácio entre perdas económicas seguras sobre o total de perdas económicas) das pessoas e do património muito significativas, e as estatísticas mostram que apesar dos crescimentos sólidos do setor nos últimos anos, este gap de proteção tem vindo a aumentar em algumas áreas relacionadas com os riscos agravados, decorrentes das catástrofes naturais, da evolução demográfica ou até do impacto das novas tecnologias. Neste sentido, temos desenvolvido na APS, um conjunto de iniciativas que procuram dar resposta a esta realidade que tem passado por um maior investimento na melhoria da comunicação com o público e com a sociedade em geral sobre o papel e a importância do seguro e esta é uma área em que a Associação continuará a investir.
Enquanto entidade representativa de mais de 99% do mercado segurador, que prioridades estratégicas define para a APS nos próximos tempos e que papel deverá a Associação desempenhar na resposta aos desafios climáticos, demográficos e tecnológicos que se colocam ao setor e à sociedade em geral?
Na APS temos um plano de atividades consensualizado com os nossos associados que visa dar continuidade a projetos em curso, aprofundando iniciativas estruturais que deem resposta aos desafios que hoje enfrentamos enquanto sociedade, nomeadamente aqueles relacionados com a temática da longevidade, das alterações climáticas e da disrupção digital com o advento do IA. Acreditamos que o setor segurador desempenha um papel central na construção de sociedades resilientes sob o ponto de vista económico e social, fornecendo proteção financeira para uma grande abrangência de riscos em permanente evolução, mas tendo a consciência, ao mesmo tempo, que as seguradoras não podem enfrentar esses desafios sozinhas. A Associação estará, assim, especialmente empenhada em dar relevo ao contributo do setor segurador no domínio das pensões complementares de reforma e na criação do Fundo de Catástrofes. Mas o progresso sustentado depende de políticas e ambientes regulatórios coordenados, favoráveis e colaborativos que permitam a inovação, a mitigação de riscos e o acesso equitativo ao seguro.






