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A Alma da liderança feminina na arquitetura

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À medida que a presença feminina na arquitetura ganha força, os desafios para alcançar uma verdadeira equidade continuam a ser uma realidade. Em entrevista, a Arquiteta Carla Carvalho, com uma visão crítica e inspiradora, aborda os caminhos para um futuro mais inclusivo e equilibrado na profissão.

 

 

Carla Carvalho, Arquiteta

 

 

A sua trajetória profissional é marcada pela excelência académica e paixão pela arquitetura. De que forma o ensino e a prática arquitetónica se complementam no seu percurso e como essa dualidade influencia a sua abordagem nos projetos?

O meu percurso profissional foi sempre pautado pela crença de que o ensino e a prática da arquitetura se nutrem mutuamente. Como arquiteta, procurei sempre aplicar na minha prática profissional aquilo que ensino, e como professora, procuro constantemente entender as necessidades do mercado e os desafios da profissão, para transmitir um conteúdo que seja, não apenas teórico, mas aplicável no dia a dia dos meus alunos. Acredito que a prática da arquitetura oferece vivência e compreensão do processo criativo e técnico, elementos que são fundamentais para a formação de um arquiteto completo. No meu trabalho académico, tento transmitir aos meus alunos a importância de se desenvolverem não apenas como profissionais técnicos, mas também como pensadores críticos que saibam como adaptar as soluções arquitetónicas a diferentes contextos e necessidades.

A arquitetura é uma área tradicionalmente dominada por homens, mas tem vindo a assistir a uma crescente presença feminina. Como avalia a evolução da representação das mulheres no setor e que desafios ainda persistem para alcançar uma verdadeira equidade?

Tenho observado uma mudança significativa na presença das mulheres no campo da arquitetura. Tenho visto, especialmente nos últimos anos, um número crescente de mulheres a assumir papéis de liderança, tanto em escritórios de renome como em instituições académicas. Os desafios para alcançar uma verdadeira equidade são múltiplos. A arquitetura exige um equilíbrio delicado entre a vida profissional e pessoal, e as mulheres, muitas vezes, ainda enfrentam a pressão de conciliar essas duas esferas, especialmente quando há a expectativa de que assumam responsabilidades familiares. Essa sobrecarga de tarefas pode limitar as oportunidades para o desenvolvimento de uma carreira plena. Além disso, há a questão do preconceito estrutural e da subvalorização do trabalho feminino.

A liderança no feminino é frequentemente associada a características como empatia, flexibilidade e visão estratégica. De que forma essas competências influenciam a dinâmica das equipas e o sucesso dos projetos na sua empresa?

A liderança no feminino, com foco em características como empatia, flexibilidade e visão estratégica, tem um impacto muito positivo na dinâmica das equipas e no sucesso dos projetos. Essas qualidades, que muitas vezes são vistas como características naturais de liderança feminina, são essenciais não apenas para criar um ambiente de trabalho harmonioso, mas também para impulsionar a criatividade e a eficácia no desenvolvimento de projetos de arquitetura. Com essa abordagem mais empática e estratégica, não melhoramos apenas a dinâmica das equipas, mas também contribuímos para o sucesso dos projetos. No meu escritório, essa filosofia tem sido essencial para construir uma cultura forte de inovação, respeito e excelência, sempre a procurar o equilíbrio entre criatividade, eficiência e responsabilidade social.

A versatilidade define o trabalho do seu gabinete, que integra uma marca própria de decoração de interiores. Como surgiu a ideia da «Eclética» e de que forma a sua visão artística e arquitetónica se reflete nesta marca?

A ideia da “Eclética” surgiu de uma necessidade de traduzir a minha visão de arquitetura num universo mais amplo, que fosse além dos projetos de arquitetura em si. A “Eclética” nasceu do desejo, de unir várias influências e estilos que sempre me fascinaram, criando uma marca que fosse capaz de oferecer soluções de interiores que não se limitassem a um único estilo, mas que refletissem a riqueza e a diversidade de possibilidades que a arquitetura e o design têm a oferecer. A palavra “eclética” foi escolhida porque ela traduz exatamente essa busca por um equilíbrio entre diferentes influências, épocas e estilos, sem abrir mão da harmonia e da funcionalidade. Além disso, a marca reflete o meu compromisso com a qualidade e com a sustentabilidade. O equilíbrio entre o tradicional e o moderno, entre a funcionalidade e a estética, é o que caracteriza a “Eclética” e faz dela uma extensão natural da minha prática profissional como arquiteta.

 

 

 

O mercado da arquitetura e design de interiores está em constante transformação. Como a sua empresa se mantém atualizada e inovadora para responder às exigências dos clientes e às mudanças do setor?

Para estarmos sempre atualizados no mercado da arquitetura, adotamos uma abordagem dinâmica e proativa, que valoriza tanto a pesquisa contínua quanto a adaptação às novas tendências e tecnologias. Em primeiro lugar, investimos fortemente na atualização constante do conhecimento e das habilidades. Além disso, procuramos sempre a inovação através da tecnologia. As novas ferramentas BIM, 3D e inteligência artificial têm revolucionado a forma como projetamos. Implementamos essas tecnologias para melhorar a precisão e a eficiência dos projetos, além de oferecer aos nossos clientes uma experiência mais imersiva e personalizada, para criar apresentações mais realistas e interativas, permitindo-lhes visualizar melhor as ideias e os conceitos antes da execução. Por fim, o feedback constante dos clientes é um fator crucial. Estamos sempre atentos às suas necessidades e reações ao longo dos projetos, o que nos permite ajustar e aprimorar os processos de acordo com o que funciona melhor em cada situação.

Como tem conciliado a vida pessoal e familiar com a exigência de liderar uma empresa e lecionar na universidade? Que conselho daria a outras mulheres que ambicionam cargos de liderança e empreendedorismo na arquitetura e no design?

Acredito que o segredo está em priorizar, delegar quando necessário e, acima de tudo, manter um senso de propósito e paixão no que faço. Estabeleço claramente as minhas prioridades e esforço-me para garantir que, apesar da carga de trabalho, há espaço para minha família e para momentos de descanso. A comunicação com os meus e a minha equipa é essencial para que todos compreendam os meus compromissos e respeitem os momentos em que me dedico exclusivamente a eles.  Além disso, tenho procurado “não me sobrecarregar” com a ideia de que preciso de ser perfeita em todas as áreas. A autenticidade e a flexibilidade são vitais. A chave está em saber administrar as expectativas e reconhecer os limites. A determinação, a visão e a capacidade de tomar decisões são essenciais para o sucesso. Como mulheres, não devemos exigir demais de nós próprias, nem acreditar que devemos ser as “supermulheres” que fazem tudo perfeito. Às vezes, o equilíbrio é encontrado no delegar, no confiar nos outros e saber quando é o momento de pedir ajuda. A consciência sobre nós e as nossas capacidades é tão importante quanto a disciplina.

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