Pedro Carreira, CEO da Fábrica da Continental em Lousado, revela como a confiança mútua, a inovação e o talento das equipas portuguesas transformaram esta unidade num dos maiores símbolos da cooperação industrial entre Portugal e a Alemanha. De uma aposta modesta nasceu um centro de excelência tecnológica e sustentável, pioneiro no grupo alemão e prova viva de que a determinação e a criatividade nacionais podem acelerar o futuro da mobilidade verde na Europa.
A Continental é frequentemente citada como um exemplo de sucesso da cooperação industrial luso-alemã. Que fatores considera determinantes para que esta parceria tenha atingido tal nível de maturidade e confiança mútua?
Sem dúvida que o maior fator foi a equipa, a sua abertura para aceitar novos desafios, o seu compromisso. Na verdade, quando a Continental decidiu fazer o primeiro investimento, as expectativas eram baixas, mas ao sermos rápidos na execução, com todo o profissionalismo, dentro ou antes do prazo esperado e com um investimento inferior a outros projetos idênticos, a confiança em Lousado tornou-se mais evidente. O Grupo Continental percebeu que tinha em Lousado uma “joia em bruto” que a seu tempo podia tornar-se num “diamante polido e brilhante” e assim foi. De facto, tornamo-nos numa das “joias da coroa”.

A Fábrica de Lousado é vista como um polo de inovação dentro do grupo alemão. De que forma Portugal tem contribuído para o avanço tecnológico e para a sustentabilidade global da Continental?
Temos universidades à nossa volta que preparam os jovens e os potenciam para as questões da inovação. Fazemos protocolos com essas Universidades e apoiamos diversos concursos. Internamente, incentivamos todos os nossos colaboradores, desde o operador do chão de fábrica, a apresentar as suas ideias através do nosso sistema de sugestões.
Assim, a atmosfera de inovação está e esteve sempre presente na nossa empresa. Atualmente, somos a única fábrica do Grupo a ter uma direção de inovação na nossa estrutura orgânica (com 13 colaboradores).
No contexto atual de transição energética e mobilidade verde, que papel desempenha a unidade portuguesa no desenvolvimento de soluções mais sustentáveis para a indústria automóvel europeia?
Bom, somos para já a única fábrica a ter a capacidade de produção totalmente elétrica sem recurso a combustíveis fósseis uma vez que a nossa energia é toda verde desde 2020. Temos investido de forma considerável na colocação de painéis solares. Não temos mais painéis porque, somos travados pela falta de capacidade para as ligações até às inspeções serem feitas, o que pode levar meses. Temos uma caldeira totalmente elétrica. Estamos a revestir as fachadas dos edifícios com painéis – uma solução à base do tratamento Pureti – que gere uma reação pelo efeito de fotocatálise, oferece uma autolimpeza sustentável, purificando o ar. Somos uma fábrica piloto para diversas soluções de inovação que posteriormente são replicadas para outras fábricas do Grupo.
As relações económicas entre Portugal e Alemanha assentam fortemente na indústria. Que lições podem ser retiradas desta cooperação para inspirar outros setores estratégicos em Portugal?
Do meu ponto de vista, podemos considerar que a relação entre estes dois países é beneficiadora para ambos. Por um lado a Alemanha tem acesso a recursos humanos bem preparados e inovadores, de mente aberta, que gostam de desafios (Portugal). Por outro lado, em Portugal recebemos apoios, em investimentos ou na abertura a outros mercados, que de outra forma não conseguíamos lá chegar, quer pelas barreiras de logística, quer pela distância. A dimensão que a nossa parceria acaba por nos proporcionar, abre-nos as portas que de outra forma não seriam possíveis abrir ou levaríamos muitos anos a fazê-lo. Só assim nós conseguimos enviar os nossos pneus para cerca de 70 mercados para cinco continentes.

Como é que a Continental equilibra o rigor e a eficiência da cultura empresarial alemã com o talento e a criatividade que caracterizam a força laboral portuguesa?
Foi um namoro difícil entre cumprir a regra e respeitar os tempos definidos e, depois deixar a imaginação resolver os impossíveis. Desde muito cedo se soube que tínhamos formas diferentes de olhar para o mesmo problema e aquilo que por vezes leva décadas a entender, no nosso caso, ao resolvermos no imediato e nada ser um problema, arranjávamos sempre uma solução, desde logo nos colocou num nível de respeito mútuo que nos permitiu sempre de forma parcimoniosa avançar com investimentos que rapidamente davam resultado, pelo que a partir daí foi sempre a nossa postura, estar sempre abertos às novidades, e mais tarde inclusivamente começámos de forma consistente a desenhar projetos e soluções para que, quando e se necessário, estivéssemos sempre prontos.
Olhando para o futuro, que desafios e oportunidades identifica na consolidação das relações bilaterais entre Portugal e Alemanha, sobretudo no campo da inovação industrial e da formação de talento?
As escolas duais que existem na Alemanha, permitem o acesso posterior às universidades são cruciais para Portugal, para focar os jovens em áreas com futuro. As universidades portuguesas devem cada vez mais aliar a teoria à prática, mas muito mais cedo temos que tornar as escolas profissionais mais atrativas, fazendo os jovens exporem-se aos novos meios digitais e não apenas ao iphone e às redes sociais que farão parte do seu crescimento, mas sim, maior qualificação nos meios que um dia farão parte da sua vida profissional. Em relação à inovação industrial, bom aqui é outro caminho, inovar não é fácil, mas será mais difícil e tão mais necessário de o fazer quanto mais pequena for a empresa, e quanto menor o valor acrescentado da sua parte for para o todo, pois só em associações conseguirão reduzir o investimento inicial que é necessário para apostar em inovação. Inovar é o futuro que tem que ser feito todos os dias.





