A Associação Portuguesa de Ortoptistas (APOR), liderada pelo presidente Dr. Diogo Marques, destaca o papel dos ortoptistas na prevenção, diagnóstico e monitorização de disfunções visuais, sublinhando a proximidade aos cuidados de saúde primários e a inovação como fatores-chave para melhorar a saúde ocular em Portugal.
Poderia apresentar, sucintamente, a Associação Portuguesa de Ortoptistas (APOR), delineando a sua génese histórica, missão fundacional e contributo distintivo para o avanço da saúde ocular em Portugal?
A APOR foi fundada em 1982, num período em que a Ortóptica começava a afirmar-se como uma especialidade técnica essencial e autónoma em Portugal. Portanto, já é uma associação que ultrapassou os 40 anos de existência para uma profissão que conta com mais de 60 anos, desde a sua criação no sistema nacional de saúde. A criação da associação surgiu da necessidade de reunir os profissionais da área para garantir a regulamentação da profissão, a proteção dos interesses da classe, e acima de tudo, a qualidade da formação técnica e científica prestando o melhor serviço à população.
O papel da APOR é garantir que a profissão tem o desenvolvimento necessário, às carências atuais e que vão surgindo com a evolução tecnológica e também com o envelhecimento da população. Isso é garantido com recurso a parcerias com as instituições de ensino, em que a APOR funciona como consultora para a melhoria do plano de formação das licenciaturas em Ortóptica e Ciências da Visão, garantindo que a formação está de acordo com o que a profissão precisa ao momento, uma vez que está em constante desenvolvimento técnico e científico. Também com o recurso a formações específicas que consideremos (APOR) necessárias em determinada área, e sendo responsável pela elaboração e concretização de planos formativos relevantes para a profissão. Para tal, e felizmente, contamos com o apoio das Indústrias: Oftálmica, Lentes de Contacto, Aparelhos Médicos e Farmacêuticas, que nos consideram parceiros valiosos, sendo obviamente recíproco da nossa parte.

Em que medida os ortoptistas contribuem para a prevenção, diagnóstico e monitorização de disfunções visuais?
A APOR defende que o Ortoptista é o profissional ideal, não só a nível hospitalar, mas sim ao nível dos Cuidados Saúde Primários (CSP), garantindo proximidade com as populações, levando o diagnóstico, rastreio e monitorização para os Centros de Saúde (CS), evitando que os utentes se desloquem ao Hospital quando o podem fazer no conforto do seu CS de forma mais prática e rápida.
Sendo um profissional altamente qualificado, pode atuar como um agente definidor de prioridades visuais em colaboração com o médico de medicina geral e familiar, levando a menores listas de espera para problemas visuais mais comuns e que podem ser resolvidos nos CSP. Atualmente estão envolvidos nos rastreios visual infantil, escolar e da retinopatia diabética. Mas a visão da APOR é que o Ortoptista nos CSP pode funcionar como um “filtro qualificado”. Esta presença não só valoriza a profissão, como torna o sistema de saúde mais sustentável e eficiente.
A APOR ainda está presente em rastreios à comunidade, de diversa natureza, garantindo também a promoção da saúde ocular, estando inserida muitas vezes em feiras de saúde e promoção de hábitos de vida saudáveis.
Como é que a Inteligência Artificial está a revolucionar o diagnóstico precoce de patologias oculares e de que forma a sua aplicação no fabrico de lentes oftálmicas melhora a experiência do utilizador final?
Os avanços tecnológicos mais relevantes e cruciais para o diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças oculares, focam-se na Inteligência Artificial (IA). Sobretudo, no rastreio e diagnóstico precoce de patologias como o glaucoma e a retinopatia diabética. A leitura do resultado e possível outcome resulta numa decisão que é sempre da responsabilidade do profissional de saúde.
Contudo, fornece dados mais rápidos e precisos pelo que retira aos Ortoptistas e Oftalmologistas tempo para se dedicarem a outras tarefas, claramente vantajoso numa área em que existem poucos recursos humanos para tanta procura, devido à alta necessidade de cuidados visuais em Portugal.
Relativamente à utilização de IA no fabrico de lentes oftálmicas, o que podemos afirmar é que a experiência do utilizador final é melhorada no sentido em que se consegue prever, de forma mais precisa e acertada o comportamento dos olhos ao longo de determinadas tarefas visuais, otimizando a lente oftálmica nesses pontos de referência, afastando as limitações que antes existiam, garantindo mais conforto, comodidade e adaptação às lentes oftálmicas.
Quais os principais sinais de alerta que devem motivar uma consulta precoce ao ortoptista ou oftalmologista, à luz dos alertas da OMS sobre o aumento global de cegueira evitável?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o crescimento mundial de casos de cegueira, que incluem tanto condições reversíveis (como os erros refrativos) quanto condições irreversíveis (como retinopatia diabética, glaucoma e degenerescência macular ligada à idade) relacionadas com o aumento da esperança média de vida e a hábitos pouco saudáveis. É fundamental a promoção de hábitos protetores e de vigilância em todas as fases da vida, permitindo um diagnóstico e tratamento precoces para um impacto significativo na reabilitação visual. As alterações mais comuns incluem diferenças na visão entre os olhos, dificuldade em ver nitidamente a certas distâncias, olho vermelho ou dor, e a crescente prevalência de olho seco devido ao uso de dispositivos digitais entre outros. Caso apresente alguma destas condições deve consultar um Ortoptista ou um Oftalmologista.
No âmbito do Dia Mundial da Ortóptica, celebrado a 2 de junho, como é que a APOR divulga a importância dos cuidados de saúde da visão e da prevenção de patologias oculares?
Os Ortoptistas já desempenham um papel crucial na prevenção através de rastreios visuais, como o infantil e o da retinopatia diabética. A APOR defende que a sua intervenção deve ser expandida, especialmente para os Cuidados de Saúde Primários (CSP).
Os Ortoptistas podem realizar avaliações sumárias da função visual nos centros de saúde. Isso permitiria acompanhar problemas visuais comuns, como os erros refrativos (presentes em 2/3 dos adultos portugueses), e fazer a triagem e priorização dos casos, encaminhando apenas os mais complexos para os Oftalmologistas (especialistas máximos da visão).
É essencial uma forte colaboração entre Ortoptistas e Oftalmologistas para uma abordagem conjunta nos cuidados da saúde da visão. Além da prevenção e dos CSP, os Ortoptistas contribuem no diagnóstico de erros refrativos e alterações da visão binocular em hospitais, clínicas e óticas, utilizando meios tecnológicos que complementam o diagnóstico final.
O atual contexto português enfrenta longas listas de espera para primeiras consultas em Oftalmologia (de 4 meses a 2 anos), o que reflete a dificuldade de resposta face à procura e a falta de recursos humanos e técnicos.
A criação das novas Unidades Locais de Saúde (ULS) é vista como uma oportunidade para resolver estes problemas, desde que se garanta a contratação de mais Ortoptistas e o reforço dos Cuidados de Saúde Primários na Saúde da Visão (CSPV). A contratação de Ortoptistas nos CSP permitiria a referenciação personalizada em colaboração com os médicos de família, fazendo a triagem dos casos e reduzindo significativamente as listas de espera para consultas especializadas em Oftalmologia. Pelo que consideramos ser esta a solução para o desafio na promoção e prevenção de doenças oculares em Portugal.
Em suma, a APOR divulga nas redes sociais, no seu site, nas diversas reuniões com entidades públicas e privadas, nos grupos parlamentares e na realização de eventos científicos, profissionais e promocionais da profissão e da promoção da saúde visual. Porque acreditamos que, juntos, defendemos a visão de cada um.






