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“O futuro da medicina passa por tratar mais, agredindo menos”

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Com visão pioneira e liderança determinada, a radiologista de intervenção Teresa Dionísio transformou a termoablação da tiroide num novo paradigma de cuidado em Portugal — provando que inovar na Medicina é tratar melhor, com precisão, menos invasão e mais humanidade.

Como médica e líder na área de Radiologia de Intervenção, que visão tem para posicionar a termoablação da tiroide não apenas como uma alternativa técnica, mas como um novo paradigma de cuidado ao paciente em Portugal? De que forma a sua liderança tem contribuído para acelerar a adoção desta inovação no sistema de saúde nacional?

A termoablação traduz muito daquilo em que acredito enquanto Radiologista de Intervenção: tratar a doença de forma eficaz, com a menor agressão possível ao organismo, atuando de forma precisa sobre a lesão e preservando o órgão, a sua função e a qualidade de vida. É uma das grandes evoluções da Medicina moderna: não tratar mais, mas tratar melhor – de forma mais dirigida, menos invasiva e personalizada. Fui pioneira na introdução da ablação por microondas da tiroide em Portugal e tenho procurado contribuir para a sua divulgação, formação e integração na prática clínica. Esse percurso levou-me a integrar a Task Force de Ablação Térmica da Tiroide da CIRSE e o grupo internacional responsável pela elaboração do SOP para a ablação térmica da doença tiroideia.

No Hospital da Luz Guimarães acompanho doentes de diferentes regiões do país e também do estrangeiro. Acredito que é através dos resultados, da formação e da colaboração entre especialidades que uma inovação passa a integrar verdadeiramente as opções que oferecemos aos doentes.

 

 

Teresa Dionísio, Médica Especialista em Radiologia e Subespecialista em Radiologia de Intervenção

 

A introdução de técnicas minimamente invasivas como a termoablação exige mudança de mentalidades, formação de equipas e, muitas vezes, superação de resistência institucional. Que momentos de maior determinação marcaram o seu percurso na implementação destas práticas e como manteve o foco numa altura em que o caminho não era ainda claramente traçado?

Os momentos de maior determinação foram aqueles em que foi necessário construir algo inovador antes de existirem estruturas consolidadas. Sempre procurei desenvolver a Radiologia de Intervenção não apenas através dos procedimentos, mas também da organização dos serviços, das equipas e da introdução sustentável de novas técnicas.

Quando integrei, em 2020, a equipa de Radiologia de Intervenção da ULS Gaia e Espinho, participei na expansão da atividade, introdução de novos procedimentos e apoio a outros hospitais. Foi também um período de consolidação da resposta de urgência 24 horas por dia, permitindo tratar situações potencialmente graves, como hemorragias, infeções ou obstruções, através de procedimentos minimamente invasivos. Entre 2023 e 2025 assumi a coordenação da Unidade. Trabalhei também para que o serviço se tornasse um centro reconhecido pela CIRSE para formação em Radiologia de Intervenção e organizei em Portugal um curso ESIR dedicado à ablação da tiroide. Quando o caminho não está traçado, é preciso acreditar no projeto, reunir as pessoas certas e demonstrar, através dos resultados, que vale a pena avançar.

A termoablação por microondas e radiofrequência representa uma evolução significativa no tratamento de nódulos tiroideus benignos e casos selecionados de cancro inicial. Na sua perspetiva, quais as barreiras que ainda limitam a sua expansão e como vê o papel da Inteligência Artificial ou de sistemas robóticos no futuro próximo destes procedimentos?

As principais barreiras continuam a ser o desconhecimento destas opções terapêuticas, a referenciação limitada e a necessidade de formação específica. A Radiologia de Intervenção exige treino supervisionado, experiência e volume de procedimentos, pelo que o mentoring, o proctoring e a colaboração entre centros são fundamentais.

A Inteligência Artificial terá um papel crescente na seleção de doentes, planeamento, fusão de imagem e avaliação de resultados, enquanto a robótica poderá aumentar a precisão e a reprodutibilidade. Vejo ambas como ferramentas ao serviço do médico: a experiência, a decisão clínica e a capacidade de adaptação continuarão a ser determinantes.

Uma das grandes vantagens da termoablação é a preservação da glândula e a redução de complicações associadas à cirurgia tradicional. Como avalia o impacto clínico e na qualidade de vida dos pacientes a médio e longo prazo, e que critérios considera essenciais para garantir a segurança e eficácia destes procedimentos?

Preservar a tiroide significa, em muitos doentes, preservar a sua função, evitar uma cicatriz cervical e permitir uma recuperação mais rápida. A médio e longo prazo, procuramos controlar os sintomas, manter a função tiroideia e obter um resultado duradouro com o menor impacto possível na vida do doente.

Mas uma técnica minimamente invasiva não é sinónimo de menor complexidade. A segurança depende da indicação e seleção adequadas, de um planeamento rigoroso, do domínio da anatomia e da imagem, da experiência técnica e do acompanhamento posterior. Inovação só faz sentido quando acompanhada de rigor.

Tendo participado em workshops internacionais e sessões práticas sobre termoablação, como vê o estado atual da formação em Radiologia de Intervenção em Portugal? Que iniciativas considera prioritárias para capacitar mais médicos nestas técnicas e garantir que a inovação chegue de forma equitativa a diferentes regiões do país?

Portugal tem excelentes Radiologistas de Intervenção, mas precisamos de percursos de formação mais estruturados e de maior exposição dos médicos internos a estas técnicas. A Radiologia de Intervenção exige diferenciação, treino supervisionado e experiência prática.  No meu percurso, procurei esse reconhecimento através da certificação europeia EBIR e, posteriormente, do título de Subespecialista em Radiologia de Intervenção pela Ordem dos Médicos, atribuído após vários anos de experiência, um número mínimo de procedimentos diferenciados e avaliação curricular.

Tenho procurado manter a ligação entre prática clínica, formação e investigação, também através do meu projeto de doutoramento na Escola de Saúde da Universidade do Minho e da participação em projetos internacionais. Mais recentemente, fui convidada a integrar o Social Media Subcommittee da CIRSE como Society Channel Editor.

Em Portugal, considero prioritário criar redes de referenciação e formação que desenvolvam competências fora dos grandes centros. A inovação deve ser realizada por profissionais devidamente preparados e estar acessível independentemente da região onde o doente vive.

 

 

Numa área historicamente dominada por homens, de que forma a sua trajetória pode inspirar outras mulheres a assumir cargos de direção e liderança técnica? Que mensagem deixaria a jovens médicas que desejam seguir um caminho semelhante, combinando excelência clínica, inovação e responsabilidade na gestão de equipas?

Nunca construí o meu percurso pensando em ocupar determinado lugar por ser mulher. Procurei ser tecnicamente competente, desenvolver projetos em que acreditava e assumir responsabilidades. Com o tempo, percebi a importância da representatividade: ver outras mulheres liderar, inovar e participar em projetos internacionais mostra-nos que esses caminhos são possíveis.

Às jovens médicas diria para investirem na competência, procurarem bons mentores e não recusarem uma oportunidade apenas porque sentem que ainda não estão totalmente preparadas. Muitas vezes crescemos precisamente porque a aceitamos.

Para mim, liderança não é um título. É transformar ideias em projetos, envolver pessoas, criar oportunidades e deixar estruturas melhores do que aquelas que encontrámos. Na Medicina, a medida mais importante continua a ser aquilo que conseguimos melhorar na vida dos nossos doentes.

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