No âmbito do Mês da Consciencialização para a Fertilidade, iniciativa que foi instituída para alertar para um problema que afeta – estima-se, segundo a OMS – 48 milhões de casais e 186 milhões de indivíduos em todo o mundo, importa trazer para o centro do debate uma questão que ultrapassa a esfera individual e assume dimensão estratégica: o declínio da natalidade na Europa. Mais do que um desafio demográfico, trata-se de um tema com implicações diretas na sustentabilidade económica, na competitividade e na capacidade de projeção futura das sociedades europeias, exigindo uma resposta integrada, informada e urgente.
A Europa enfrenta um dos mais profundos desafios estruturais do nosso tempo. Não se trata apenas de uma questão estatística, nem de um fenómeno restrito à esfera privada das famílias. Falamos de demografia, de sustentabilidade económica, de competitividade e de futuro. Em muitos países europeus, incluindo Portugal, nascem hoje menos crianças do que aquelas necessárias para assegurar a renovação geracional. É um sinal silencioso, mas com consequências cada vez mais evidentes. Portugal conhece bem esta realidade. Nos anos 60, nasciam mais de 200 mil bebés por ano. Hoje esse número ronda os 84 mil. A taxa de fertilidade situa-se perto de 1,4 filhos por mulher, muito abaixo dos 2,1 necessários para garantir a reposição da população. Estes dados traduzem uma transformação profunda da sociedade e levantam questões centrais para o crescimento do país nas próximas décadas.

Quando falamos de natalidade, falamos também de talento disponível, de produtividade, de inovação e da capacidade de financiar modelos sociais exigentes. Uma população ativa mais envelhecida, associada à escassez de gerações mais jovens, cria pressões evidentes sobre o mercado de trabalho, sobre os sistemas de proteção social e sobre a dinâmica económica. Menos população significa, inevitavelmente, menos capacidade de gerar riqueza e menor peso estratégico no contexto internacional. Mas seria um erro olhar para este fenómeno como inevitável. O declínio demográfico resulta de múltiplos fatores e, por isso mesmo, pode e deve ser enfrentado com políticas integradas. O adiamento da parentalidade por razões económicas, profissionais ou sociais, a dificuldade em conciliar carreira e família, os obstáculos no acesso a cuidados de fertilidade e a reduzida literacia nesta área contribuem para um cenário que exige resposta coordenada. Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida: a confiança no futuro. Muitos jovens adultos desejam constituir família, mas hesitam perante custos de habitação elevados, carreiras marcadas por instabilidade e a perceção de que ser pai ou mãe implica abdicações difíceis de suportar. A questão demográfica também se joga na capacidade das sociedades oferecerem previsibilidade e condições para projetos de vida sustentáveis.
Os dados mais recentes confirmam esta urgência. O Barómetro FutURe, promovido pela Merck, mostra que uma parte significativa dos jovens europeus não pretende ter filhos ou adia essa decisão por insegurança económica, falta de condições e ausência de informação. Muitos desconhecem ainda aspetos essenciais sobre fertilidade e saúde reprodutiva, o que significa que decisões com enorme impacto pessoal e coletivo continuam, demasiadas vezes, a ser tomadas sem conhecimento suficiente. Foi precisamente para discutir soluções concretas que Lisboa recebeu recentemente a cimeira europeia Tackling Infertility, reunindo representantes de onze países. O encontro permitiu identificar prioridades comuns e demonstrou que este debate já ultrapassou fronteiras nacionais.
A fertilidade deixou de ser um tema marginal para se afirmar como questão de saúde pública, de sustentabilidade social e de visão estratégica.
Das conclusões do encontro emergiram três eixos claros de atuação. O primeiro é a literacia. Precisamos de informação rigorosa, acessível e sem estigma sobre fertilidade e saúde reprodutiva. Isso implica chegar às escolas, às universidades, aos locais de trabalho e aos canais digitais onde as novas gerações constroem hoje grande parte do seu conhecimento. Implica também criar programas de rastreio e aconselhamento que permitam decisões mais informadas sobre planeamento familiar.
O segundo eixo é o trabalho. Não haverá recuperação demográfica sem organizações capazes de compatibilizar parentalidade e carreira. Horários flexíveis, modelos híbridos, licenças parentais equilibradas, apoio no regresso ao trabalho e culturas empresariais que valorizem a família são medidas cada vez mais relevantes. O tema não pertence apenas ao Estado. As empresas têm um papel decisivo na forma como as pessoas planeiam o seu futuro.
Criar ambientes profissionais favoráveis à família não é apenas uma opção reputacional. É uma decisão estratégica. Empresas que compreendem esta mudança estarão melhor preparadas para atrair novas gerações, responder à escassez de talento e construir equipas mais comprometidas no longo prazo.
O terceiro eixo é o acesso. Em muitos contextos europeus persistem barreiras financeiras, territoriais e burocráticas no acesso a cuidados de fertilidade. A igualdade de oportunidades nesta matéria exige sistemas mais eficientes, respostas atempadas e políticas públicas que reconheçam o impacto económico da decisão de ter filhos.
É neste ponto que o setor privado pode e deve assumir responsabilidades. Durante demasiado tempo, a natalidade foi tratada como assunto exclusivamente público ou estritamente individual.
Hoje sabemos que também é um tema empresarial. Organizações que criam ambientes favoráveis à parentalidade atraem melhor talento, reforçam retenção, reduzem rotatividade e constroem culturas mais resilientes. São empresas mais humanas, mas também mais preparadas para competir. Na Merck acreditamos que liderança implica antecipar desafios e contribuir para soluções. Enquanto líder mundial em fertilidade, temos a responsabilidade de colocar conhecimento, capacidade de mobilização e compromisso ao serviço desta agenda. Foi com esse espírito que impulsionámos iniciativas como o Movimento +Fertilidade, aproximando empresas, profissionais de saúde e sociedade civil para promover literacia, partilha de boas práticas e ambientes de trabalho mais amigos da família.
Nenhuma entidade resolverá sozinha este desafio. Nem governos, nem empresas, nem setor social. A resposta exige cooperação, visão de longo prazo e capacidade de execução. Exige também coragem para reconhecer que o futuro demográfico da Europa se decide agora.
Os próximos anos serão determinantes. Se quisermos sociedades sustentáveis, economias dinâmicas e países capazes de competir num mundo em rápida transformação, precisamos de colocar a fertilidade e a natalidade no centro das prioridades. O inverno demográfico não é um destino inevitável. Pode ser enfrentado com liderança, compromisso e ação coletiva.







