Como está a ajudar CEOs a pensar melhor e a tomar decisões com maior consciência
Da intensidade do mundo corporativo nas telecomunicações à liderança inspiradora na Vistage Portugal, Idalina Martins percorreu um caminho de transformação profunda. Hoje, desafia líderes a repensarem o verdadeiro significado de resiliência, equilíbrio e sucesso sustentável — mostrando que liderar com empatia e propósito é o novo imperativo num mundo empresarial em constante mudança.
Com uma sólida experiência corporativa na NOS, e agora como Chair na Vistage Portugal, que lições de resiliência e equilíbrio entre vida profissional e pessoal retira do seu percurso, e como tem inspirado outras mulheres a abraçarem papéis de liderança em contextos exigentes?
A minha jornada, desde a intensidade do mundo corporativo nas telecomunicações até à minha atual fase na Vistage Portugal, foi um processo profundo de transformação. Ao longo do caminho, percebi que a maior mudança da minha carreira não foi, simplesmente, mudar de função, mas transformar a forma como entendo a liderança e o equilíbrio na vida.
Foi nesse percurso, que aprendi que a resiliência não é resistência cega, mas sim capacidade de adaptação, consciência e autoconhecimento. E que o equilíbrio entre vida profissional e pessoal não é um estado fixo de 50/50. É um movimento dinâmico – a capacidade de estarmos inteiras e presentes nos diferentes papéis que assumimos ao longo da vida.
Aquilo que procuro partilhar com outras mulheres é a importância de desconstruir o mito da “super-mulher”. Liderar em contextos exigentes não deve implicar abdicar da vida pessoal, mas sim aprender a gerir a nossa energia, estabelecer limites e reconhecer que liderança sustentável exige também cuidar de nós próprias.
Na Vistage trabalhamos muito esta dimensão: a ideia de que liderança de topo e bem-estar não são caminhos opostos. Pelo contrário, reforçam-se mutuamente. A verdadeira resiliência nasce quando percebemos que não temos de carregar tudo sozinhas. O sucesso sustentável é uma maratona, não um sprint.

A Vistage promove grupos confidenciais de pares para CEOs. De que forma tem adaptado estes peer advisory groups para fomentar uma maior inclusão de lideranças femininas, valorizando estilos mais empáticos e colaborativos?
A magia da Vistage reside na criação de um porto seguro onde a vulnerabilidade é vista como uma ferramenta de força, não de fraqueza. Criamos contextos onde diferentes estilos de liderança podem coexistir e enriquecer a tomada de decisão. Costumo dizer que os CEOs não precisam de mais informação – precisam de melhores conversas. Valorizamos particularmente abordagens baseadas na escuta ativa, na empatia e na colaboração, que se revelam cada vez mais determinantes para liderar em ambientes complexos.
Ao fomentar um ambiente de absoluta confidencialidade, onde os membros são criteriosamente selecionados pelo seu mindset de crescimento e solidez de percurso, permitimos que os líderes tragam para a mesa não apenas os indicadores que normalmente ocupam a agenda de um CEO – crescimento, resultados, performance – mas também as dúvidas e dilemas que raramente têm espaço noutros contextos. Esta abordagem human-centric transforma a tomada de decisão: passamos do comando e controlo para uma liderança por influência e colaboração. Não estamos apenas a incluir mais mulheres nos grupos; estamos a elevar a fasquia da liderança para todos, provando que a empatia é o catalisador que torna as equipas mais ágeis e resilientes num mercado global incerto.
Num tecido empresarial português onde as mulheres CEOs enfrentam barreiras, que desafios específicos observa e que estratégias de mentoring recomenda para potenciar o crescimento acelerado?
Em Portugal, a “solidão do topo” é muitas vezes ainda mais acentuada para as mulheres, em parte, devido a redes de influência historicamente mais fechadas e a uma menor presença feminina em alguns círculos informais onde muitas decisões estratégicas acabam por acontecer. A isto junta-se, por vezes, um nível de escrutínio mais elevado sobre a liderança feminina e uma autoexigência particularmente forte, que pode tornar o caminho para decisões mais ousadas de crescimento ainda mais exigente.
Tudo isto pode traduzir-se num certo isolamento estratégico – líderes muito focadas na operação diária, mas com menos espaço para refletir sobre visão, posicionamento e escala.
Para ultrapassar este desafio, acredito muito naquilo a que gosto de chamar mentoria com intenção. As líderes precisam de contextos e mentores que as desafiem a sair da pressão da operação e a focar-se verdadeiramente na visão de longo prazo. Isso implica desenvolver confiança na delegação, fortalecer redes de relacionamento estratégico e criar espaços de reflexão onde decisões complexas possam ser discutidas com pares.
O ponto de viragem acontece quando a líder deixa de estar absorvida pela resolução constante de problemas e assume plenamente o seu papel estratégico: definir visão, tomar decisões estruturantes e construir escala para a organização.
Na Vistage, esse mentoring acontece de forma coletiva. A experiência de um líder torna-se frequentemente o atalho para a evolução de outro, criando um espaço onde a partilha, o desafio construtivo e a confiança permitem acelerar decisões e crescimento.
Que contributos concretos tem a Vistage Portugal dado para o empoderamento feminino e como mede o impacto transformador destas iniciativas?
A Vistage Portugal cria, antes de mais, um espaço onde líderes podem pensar melhor e decidir melhor. Através dos grupos de pares, de workshops com especialistas internacionais e do acesso a uma rede global de conhecimento, oferecemos às executivas um contexto de desenvolvimento de liderança exigente e profundamente colaborativo.
Um dos contributos mais relevantes é a quebra do isolamento que muitas vezes acompanha posições de topo. Nos grupos Vistage, as líderes encontram um espaço de confiança onde podem discutir decisões estratégicas, testar ideias e beneficiar da experiência de outros líderes que enfrentam desafios semelhantes.
O impacto mede-se naturalmente também através de indicadores empresariais – crescimento, rentabilidade e capacidade de escala das empresas lideradas pelos membros. Existe, porém, uma dimensão igualmente importante: a transformação da forma como as organizações são lideradas.
Observamos decisões mais conscientes, culturas organizacionais mais fortes, maior retenção de talento e modelos de negócio mais sustentáveis. Quando uma CEO leva para a sua organização uma decisão ou uma perspetiva que nasceu de uma discussão no seu grupo Vistage, o impacto estende-se muito para além da própria líder, chegando às equipas e à cultura da empresa.
No final, o verdadeiro impacto mede-se pela capacidade de gerar valor económico enquanto se constroem organizações mais humanas, mais resilientes e preparadas para o futuro.
Olhando para o futuro da Vistage em Portugal, que visão ambiciona para duplicar a representação feminina nos programas de executivos, contribuindo para um ecossistema mais equitativo e competitivo?
A minha ambição é que a Vistage Portugal se afirme como uma das principais plataformas de desenvolvimento de liderança no país, com um papel ativo no crescimento da representação feminina em posições executivas.
Duplicar essa representação não é uma questão de quotas, é uma questão de competitividade. Sabemos hoje que equipas de liderança diversas tomam decisões mais informadas, gerem melhor o risco e criam organizações mais inovadoras e resilientes.
Queremos atrair executivas em diferentes fases da sua trajetória e proporcionar-lhes acesso a um espaço de reflexão estratégica, a uma rede forte de pares e a ferramentas que as ajudem a liderar num contexto empresarial cada vez mais complexo. Desafios como a Inteligência Artificial, a sustentabilidade ou a gestão de equipas multigeracionais exigem líderes preparados para pensar de forma sistémica e tomar decisões com impacto de longo prazo.
Acredito que, ao criar estas condições, estamos não só a apoiar o crescimento de líderes individuais, mas também a contribuir para um ecossistema empresarial português mais forte, mais inovador e melhor preparado para competir na economia global.







