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Guardiões do essencial: A voz da Pampilhosa da Serra

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No coração do Pinhal Interior, Pampilhosa da Serra afirma-se como um dos territórios que melhor expõe os contrastes, desafios e potencialidades do interior português. Jorge Alves Custódio, Presidente da Câmara Municipal, fala sem rodeios sobre a riqueza natural, a floresta, a energia, as pessoas e o futuro, defendendo que estes territórios não são um problema do país, mas antes parte da sua solução.

Um interior dentro do interior

Falar do interior de Portugal é, muitas vezes, recorrer a uma ideia vaga e simplificada. Para Jorge Custódio, essa abordagem falha logo à partida. “Quando se fala do interior, tem de se falar claramente de Pampilhosa da Serra. Porque este é, sem medo das palavras, um concelho mesmo do interior”, afirma.

O autarca defende que o país tende a colocar no mesmo saco realidades muito diferentes. Há territórios afastados do litoral, mas bem servidos por autoestradas e ferrovia, e há outros, como Pampilhosa da Serra, que enfrentam um isolamento mais profundo. “Estamos no coração do Pinhal Interior, uma mancha do território que sente dificuldades muito próprias e que não pode ser comparada a zonas que estão a 70 ou 80 quilómetros do litoral”, sublinha.

 

Jorge Alves Custódio, Presidente

 

A riqueza que sustenta o país

Apesar das fragilidades, o Presidente da Câmara da Pampilhosa da Serra não hesita em afirmar que estes territórios são fundamentais para o futuro nacional. “Continuo a achar que são estes territórios do interior os guardiões do que verdadeiramente este país tem de mais valioso”, afirma.

A começar pela água. Pampilhosa da Serra alimenta barragens, linhas de água e aquíferos essenciais ao sistema nacional. “O que nós temos de água dava para falar horas”, diz, destacando a qualidade e abundância deste recurso. A energia é outro pilar estratégico. O concelho acolhe o maior parque eólico do país, três barragens e novos projetos fotovoltaicos. “Em termos de energia, a Pampilhosa tem para vender”, resume.

A tudo isto junta-se a floresta, enquanto matéria-prima e ativo económico, e ainda o potencial mineral. “De repente, percebeu-se que estes territórios esquecidos têm riquezas que importa explorar”, refere, lembrando a recente possibilidade de prospeção de lítio na região.

A exigência constante de resistir

Viver e governar no interior implica um esforço acrescido. Jorge Custódio admite que, apesar da resiliência local, a sensação de isolamento persiste. “Aqui tudo é mais difícil, tudo é mais perigoso. Temos de trabalhar dez vezes mais do que noutros territórios”, destaca.

Para o autarca, o problema não está apenas no discurso político, mas na falta de medidas concretas. “É muito bonito falar do interior, mas depois faltam ações”, critica. Entre as principais reivindicações está a criação de uma diferenciação fiscal positiva. “Não estou a pedir nada de especial. Defendo que se aplique aqui o que já existe na Madeira e nos Açores”, explica. A lógica é simples: sem incentivos, as empresas não vêm; sem empresas, não há pessoas. “É uma pescadinha de rabo na boca que nunca mais acaba”, resume.

 

Nascer do Sol – Freguesia do Cabril
Albufeira da Barragem de Santa Luzia

 

Entre a riqueza natural e a ameaça constante

A floresta ocupa um lugar central na identidade e nos problemas do concelho. Os incêndios de 2025, que destruíram cerca de sete mil hectares, voltaram a expor fragilidades estruturais. Para o Presidente da Câmara, o maior obstáculo à prevenção está na propriedade. “Para fazer prevenção, tenho de saber de quem é o terreno. Não posso entrar onde quiser”, explica.

Em territórios marcados pelo abandono e pela fragmentação fundiária, a gestão torna-se quase impossível. Ainda assim, Jorge Custódio acredita numa floresta rentável e estruturada. “Quero que a floresta seja economia, mas também turismo”, defende.

A experiência acumulada, boa e má, permite atualmente ao concelho dar contributos relevantes na prevenção e no combate aos incêndios. “Temos sido um bom exemplo, mas quando localmente não se consegue fazer mais, é porque algo está a falhar a nível legislativo”, aponta.

Pessoas, o recurso mais escasso

Quando questionado sobre o futuro, o autarca é claro: o maior desafio chama-se população. “Estes territórios precisam sobretudo de pessoas”, afirma. O objetivo para 2030 passa por atrair empresas, criar emprego e, assim, fixar habitantes. “Com mais pessoas, consigo ter mais vigilância, mais cuidado com a floresta, mais vida”, explica.

A pandemia trouxe uma prova inesperada desse potencial. “Durante a covid, muita gente percebeu que ter uma casa aqui fazia a diferença”, recorda. Para o Presidente da Câmara, essa procura mostrou que o interior pode ser parte da resposta a crises futuras.

 

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Dome do Geoscope – Observatório Astronómico de Fajão

 

Um valor que o país ainda vai reconhecer

Jorge Alves Custódio acredita que Pampilhosa da Serra guarda uma verdadeira “joia da coroa” que o país ainda não soube reconhecer plenamente. Entre a abundância de água, a produção de energia, a riqueza florestal e o potencial ligado ao mercado do carbono, o concelho começa a posicionar-se em áreas estratégicas com impacto local e nacional. “Mais tarde ou mais cedo, estas riquezas vão dar uma mais-valia ao país”, garante o autarca, convicto de que o interior não é um território esgotado, mas sim um espaço de oportunidade.

No final, a mensagem é clara e sem dramatismos: o interior não pede piedade, pede visão, coerência e decisões políticas consequentes. Pede condições para transformar recursos em desenvolvimento sustentável, para fixar pessoas e criar futuro. “Continuo a achar que somos os guardiões da natureza”, conclui. E talvez seja precisamente nessa guarda silenciosa, feita de resiliência, conhecimento do território e persistência diária, que reside uma das chaves para repensar o modelo de desenvolvimento e o futuro de Portugal.

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