Há vários anos que a área de Farmácia Comunitária é encarada como um parente pobre da profissão farmacêutica. As baixas remunerações, a dificuldade de equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, ou a aparente falta de progressão profissional, são alguns dos aspetos que os farmacêuticos insatisfeitos com a profissão frequentemente identificam como os principais fatores de constrangimento nesta área profissional. Também vários são os desabafos de proprietários que dizem, com frequência, não conseguir encontrar farmacêuticos interessados em entrar e ficar nas suas equipas uma vez que, tendencialmente, procuravam singrar em outras áreas da profissão.
As entidades do setor farmacêutico reconhecem este afastamento como preocupante. No entanto, todas as discussões à volta deste tema se baseavam em achismos, nunca tendo existido uma verdadeira auscultação aos profissionais que trabalham nesta área. Na área da saúde é difícil – e até perigoso – tirar conclusões que não sejam baseadas em evidência.
Com um espírito aberto em relação ao tema e determinados a obter um diagnóstico verdadeiro e representativo, em Outubro de 2024 a Associação Portuguesa de Jovens Farmacêuticos desenvolveu e disseminou um inquérito metodologicamente validado que pretendia caracterizar a realidade dos farmacêuticos comunitários e dos desafios do dia a dia destes profissionais.

Com mais de 1000 respostas de colegas que trabalham ou trabalharam em farmácia comunitária, foi possível perceber que 60% dos farmacêuticos comunitários trabalha entre 40 a 45 horas semanais e que 71% não estão satisfeitos com a sua remuneração atual. Ainda que 67% dos farmacêuticos comunitários não sintam que exista um equilíbrio saudável entre a vida profissional e pessoal, quase a totalidade (96%) daqueles que continuam a dedicar a sua vida a esta vertente assistencial da profissão, acreditam que o seu trabalho tem um impacto positivo na saúde e bem estar da comunidade à qual prestam os serviços e cuidados farmacêuticos.
Talvez este último aspeto seja aquilo que mantém quase 12 300 farmacêuticos nesta área da profissão… no entanto, e porque é necessário tomar medidas sérias que sejam mais do que apenas intenções, que visem a sustentabilidade do setor farmacêutico e da saúde, a APJF liderou a criação de um Pacto para a Valorização da Profissão e da Atividade do Farmacêutico Comunitário. Para tal, reuniu à volta da mesma mesa a Ordem dos Farmacêuticos, a Associação Nacional das Farmácias, a Associação de Farmácias de Portugal, o Sindicato Nacional dos Farmacêuticos e a Associação Portuguesa de Farmacêuticos para a Comunidade e a Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia, para discutir soluções que visem a melhoria das condições de trabalho dos farmacêuticos comunitários e a evolução da farmácia.
No passado dia 20 de Setembro, foi realizada a Cerimónia de apresentação e assinatura do Pacto, que cria uma agenda conjunta entre todas as organizações signatárias fundamentada em 18 compromissos com objetivos e medidas como a promoção de condições para o papel das farmácias no sistema de saúde, a valorização e promoção dos cuidados e serviços farmacêuticos e o desenvolvimento de regulamentação.
Nesta que foi uma iniciativa liderada pelos jovens farmacêuticos, procurou-se encontrar consenso para combater este flagelo da profissão. Agora espera-se o comprometimento e dedicação para a implementação das medidas reconhecidas por todos os envolvidos como essenciais.





