Numa conversa que cruza prática clínica, crescimento organizacional e responsabilidade ética, Eduarda Figueiras, Psicóloga, reflete sobre os desafios de manter profundidade num tempo de respostas rápidas, o equilíbrio entre cuidar e gerir, e a urgência de colocar a prevenção no centro das políticas de saúde mental em Portugal.
Ouvimos falar de “escuta ativa”, mas raramente sobre “escuta transformadora”. No seu trabalho clínico, o que muda numa pessoa quando a escuta se torna verdadeiramente transformadora?
Quando a escuta deixa de ser apenas ativa e passa a ser transformadora, noto na minha prática clínica, que o cliente deixa de se sentir apenas ouvido, e passa a sentir-se compreendido, reconhecido e com a segurança necessária para começar a explorar os temas que o levaram a pedir ajuda. A escuta ativa é essencial na nossa profissão! Mas por si só, não garante mudança. A escuta transformadora acontece quando estas competências deixam de ser apenas técnicas e passam a fazer parte da minha postura interna. É quando eu não estou apenas a ouvir o cliente para entender, mas a ouvir para permitir que a pessoa se descubra, se organize e se veja com “uma nova lente”. É quando eu estou a ouvir o cliente e devolvo essa mesma narrativa, mas com as mudanças necessárias para a mudança acontecer.
Na prática clínica a escuta transformadora faz com que a pessoa comece a organizar-se internamente. A presença do terapeuta ajuda a dar forma ao que estava difuso. Pensamentos e emoções começam a encaixar de forma mais coerente. Surge coragem para abordar temas difíceis. A escuta transformadora cria um espaço seguro. A pessoa sente que pode ir mais fundo sem medo de julgamento e da crítica e tem a segurança necessária e o acolhimento suficiente para que o “ir mais fundo” possa ser feito no seu ritmo e de forma leve. E aparecem novas possibilidades de mudança. Quando alguém se sente profundamente compreendido, deixa de funcionar em modo automático e começa a escolher. A escuta abre espaço para transformação interna.
Por isso, costumo dizer que toda escuta transformadora inclui escuta ativa, mas nem toda escuta ativa se torna transformadora. A diferença está na profundidade da presença e no impacto que essa presença tem na forma como a pessoa se relaciona consigo mesma.

A expansão do seu consultório trouxe novos papéis, entre gestora, mentora e psicóloga. Que dilemas éticos ou emocionais surgem ao conjugar o cuidado das pessoas com a sustentabilidade de um projeto em crescimento?
O crescimento do consultório de Psicologia Eduarda Figueiras foi muito grande nos últimos três anos. E, claramente que este crescimento, mais rápido, do que o que alguma vez esperava trouxe-me novos papéis e muitas exigências. Passei a ser gestora de um projeto e de uma equipa psicóloga presente em consultas online, presenciais e, ainda, participante em palestras e responsável por vários programas e grupos terapêuticos relacionados com a Psicologia e Saúde Mental.
Claramente, que com o crescimento surgem muitos desafios que não são apenas logísticos, mas também éticos e emocionais e o maior desafio tem sido equilibrar o cuidado das pessoas com a sustentabilidade de um projeto que cresce e exige decisões que nem sempre são simples. É importante tomar decisões que implicam pensar e refletir como vou garantir que o aumento da procura dos meus serviços não compromete a qualidade da intervenção! A gestão do tempo, da agenda e da equipa torna-se uma responsabilidade clínica, não apenas administrativa. Para resolver esta questão foi necessário abrir espaço para mais duas psicólogas e uma psiquiatra. E posso já adiantar que brevemente teremos novos serviços. Além disso, é fundamental definir limites saudáveis entre acessibilidade e o descanso. Há sempre alguém que precisa “só de um encaixe”, mas também é importante definir tempo pessoal e de descanso para evitarmos nós próprios entrarmos em exaustão. Outra dificuldade prende-se, por exemplo, com burocracias e decisões financeiras: preços, políticas de cancelamento, expansão da equipa. Tudo isto necessita de ser gerido e planeado com tempo. Emocionalmente, a dificuldade foi outra: crescer implica deixar de fazer tudo sozinha, delegar, confiar e aceitar que o papel de psicóloga já não vive isolado. Há dias em que sinto orgulho pelo impacto ampliado; noutros, surge a culpa por não conseguir estar tão disponível como antes. Mas são as chamadas “dores do crescimento”. O que me ajuda é lembrar que sustentabilidade não é o oposto de cuidado é o que o torna possível. Um projeto que cresce de forma consciente permite oferecer melhores condições, mais estabilidade e mais qualidade, tanto para quem procura ajuda como para quem a oferece.
Tem falado muito sobre ética, empatia e formação contínua como pilares da prática clínica. Numa era de psicologia nas redes sociais, como se mantém a profundidade da intervenção psicoterapêutica num espaço que tende à superficialidade?
A ética, a empatia e a formação contínua são pilares tanto da minha prática clínica como da prática da minha equipa. Na era em que vivemos, em que muitos de nós passam muitas horas nas redes sociais é importante termos a responsabilidade de manter a profundidade num espaço que tende à superficialidade. As redes sociais são úteis para informar e sensibilizar, mas não substituem a relação terapêutica. O desafio é comunicar de forma acessível sem transformar a psicologia em frases feitas ou soluções rápidas. Para isso, sigo três princípios fundamentais: Diferenciar o conteúdo educativo da intervenção clínica. O que partilho nas redes sociais é sempre geral. A profundidade terapêutica acontece no consultório, na relação e no tempo de cada pessoa. Até porque cada pessoa é diferente e, por isso, a solução para um caso mesmo que semelhante pode ser bem diferente. Manter a ética: evito simplificações que possam induzir diagnósticos, promessas de mudança rápida ou mensagens que reforcem dependências. A psicologia não é entretenimento; é cuidado. Preservar a complexidade humana. Mesmo quando comunico de forma leve, não reduzo o sofrimento a “dicas”. Cada pessoa tem uma história e um ritmo próprio. E há um ponto que considero essencial: na minha equipa, a formação contínua não é opcional é estruturada. Temos intervisão individual com as psicólogas e reuniões mensais para debate de casos clínicos e aprofundamento de temas. Isto garante que, mesmo num contexto onde a psicologia se tornou altamente visível e rápida, o nosso trabalho mantém o rigor, a reflexão e a profundidade.
As redes sociais podem ser uma porta de entrada para a procura de ajuda, mas não são o lugar onde ela acontece. A profundidade mantém-se quando o conteúdo é coerente com a prática clínica e quando existe um compromisso real com o desenvolvimento profissional e humano.
A sua prática integra múltiplas abordagens terapêuticas. Como decide, na presença de uma pessoa real e das suas vulnerabilidades, quando é hora de seguir o método ou de o reinventar?
Integrar várias abordagens terapêuticas dá-me liberdade, mas também responsabilidade. Na presença de uma pessoa com a sua história de vida, vulnerabilidades e necessidades a decisão não é entre “seguir o método” ou “reinventá-lo”. É entre qual a abordagem baseada em evidência científica é mais útil naquele momento e que mais se ajusta ao caso clínico. Por isso, em primeiro lugar é necessário escutar e compreender as dores da pessoa, os seus objetivos para que depois possamos optar pela abordagem mais eficaz. As abordagens são ferramentas validadas, mas a escolha depende sempre da problemática que o cliente nos traz.
Após isso, avalio o que é clinicamente mais benéfico e seguro. Sigo uma abordagem quando percebo que a estrutura oferece contenção, clareza e organização interna. Mudo para outra quando sinto que a pessoa precisa de uma linguagem diferente, de outro ritmo ou de uma técnica mais ajustada sempre dentro do que é sustentado pela ciência. A flexibilidade não é “inventar” algo novo, mas sim articular abordagens reconhecidas de forma ética, fundamentada e adaptada à singularidade da pessoa. A minha formação contínua, supervisão e intervisão garantem que esta escolha é sempre responsável.
A prevenção em saúde mental é uma das suas bandeiras. Se pudesse desenhar uma política pública simples e eficaz para a saúde mental, que medidas implementaria já amanhã?
Se pudesse desenhar uma política pública simples e eficaz para a saúde mental em Portugal, começaria por uma ideia central: a prevenção é a base da saúde mental (não pode ser vista como um extra). E, a partir daí, definiria algumas medidas prioritárias, como, por exemplo: falar de saúde mental nas escolas, desde cedo para as crianças começarem a ter contacto com o que são emoções, saber identificá-las e aprender a regulá-las; mais psicólogos nas unidades de saúde familiar, com consultas acessíveis e encaminhamento precoce. Quanto mais cedo se intervém, menor o sofrimento e o custo humano e económico. Planos de saúde mental nas empresas. Medidas que vão além de “palestras motivacionais”: avaliação de riscos psicossociais, formação de lideranças, promoção de ambientes saudáveis e canais seguros para pedir ajuda.
Campanhas claras, contínuas e baseadas em ciência, que ajudem a reconhecer sinais de sofrimento, a pedir ajuda sem vergonha e a desconstruir mitos, ou seja, aumentar a literacia sobre saúde mental. E condições dignas para quem cuida. Psicólogos com tempo, supervisão e estabilidade contratual. Não há prevenção eficaz se quem cuida está em burnout. A prevenção em saúde mental quanto mais cedo for feita, mais vidas, relações e projetos de vida conseguimos proteger.






