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A importância de preservar o sistema imunitário – um desafio na jornada da esclerose múltipla

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O cérebro está no centro daquilo que somos. É nele que nascem os nossos pensamentos, as nossas memórias, os nossos movimentos e as emoções que moldam a nossa vida. Por isso, quando uma doença neurológica compromete a sua função, não está apenas em causa um órgão, mas também a autonomia, os projetos e a qualidade de vida de cada pessoa.

É precisamente esse o propósito do Dia Mundial do Cérebro, assinalado a 22 de julho: recordar a importância de preservar a saúde neurológica e sensibilizar para doenças que podem alterar profundamente a vida das pessoas. Entre elas encontra-se a esclerose múltipla (EM), uma doença neurológica crónica, inflamatória e imunomediada do sistema nervoso central que afeta milhares de pessoas em Portugal, muitas delas em idade ativa. O processo inflamatório desencadeado pelo sistema imunitário provoca lesões no cérebro e na medula espinal, traduzindo-se em sintomas tão diversos como alterações da visão, dificuldades motoras, perturbações do equilíbrio, fadiga intensa ou alterações cognitivas.

Nas últimas décadas, a investigação científica permitiu desenvolver terapêuticas altamente eficazes que atuam sobre o sistema imunitário, controlando a resposta inflamatória responsável pela doença. Estes avanços transformaram profundamente o tratamento da esclerose múltipla, permitindo reduzir a atividade inflamatória, diminuir o risco de surtos e reduzir o risco de desenvolver incapacidade.

 

Prof. Sónia Batista, Vice-Presidente, Sociedade Portuguesa de Neurologia. Neurologista nos Hospitais da Universidade de Coimbra (ULS de Coimbra) Professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

 

À primeira vista, pode parecer um contrassenso falar em preservar o sistema imunitário numa doença em que é precisamente esse sistema que desencadeia a inflamação. No entanto, é também ele que diariamente nos protege contra infeções e contribui para eliminar células que podem dar origem a cancros. Encontrar o melhor equilíbrio entre controlar a doença e preservar, tanto quanto possível, as funções do sistema imunitário tornou-se, por isso, uma das prioridades da abordagem terapêutica da esclerose múltipla.

Esta abordagem assume uma importância crescente porque as pessoas vivem hoje mais tempo com a doença. Sabemos também que, com o envelhecimento, o sistema imunitário sofre alterações naturais – um fenómeno conhecido como imunossenescência – que reduzem progressivamente a capacidade de responder às infeções e à vacinação. Por isso, preservar a função imunitária desde fases precoces da doença pode traduzir-se em benefícios que se prolongam ao longo da vida.

Não existe uma solução única. A decisão terapêutica deve ser sempre individualizada e partilhada entre o neurologista e a pessoa com esclerose múltipla, tendo em consideração a atividade da doença, a idade, as comorbilidades, o planeamento familiar e o perfil de segurança de cada tratamento.

 

 

Em suma, na esclerose múltipla, o objetivo continua a ser controlar eficazmente a doença. O verdadeiro desafio é fazê-lo preservando, tanto quanto possível, as funções essenciais do sistema imunitário. Afinal, preservar o sistema imunitário é também preservar a capacidade de viver mais e melhor.

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