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Cuidar com ciência e coração

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Com um olhar que une ciência, afeto e propósito, a Dr.ª Didi tem transformado a medicina dentária numa experiência de cuidado integrativo, especialmente junto das crianças, defendendo uma prática que vai muito além dos dentes: um encontro humano, respeitoso e transformador.

Como é que começou o seu caminho na medicina dentária e o que a levou a especializar-se em odontopediatria integrativa?

Desde pequena, sempre nutri o desejo profundo de cuidar – de escutar, de estar presente. Da mesma forma que a minha paixão pela saúde nasceu desde logo, ainda na infância, movida por uma curiosidade natural pelo corpo humano e pelo desejo de ajudar o outro.

Quando escolhi a medicina dentária, sabia que queria fazer mais do que tratar as efemeridades dentárias: queria criar relações de confiança, especialmente com os mais pequenos, que muitas vezes chegam até nós com medo ou insegurança.

A odontopediatria entrou na minha vida como um caminho natural, mas foi a vertente integrativa que me fez realmente sentir que estava no lugar certo. Aqui, olho para cada criança como um ser único – com emoções, histórias e necessidades diferentes. Trabalho com o coração e com ciência, lado a lado com as famílias, para que cada consulta seja mais do que um tratamento: seja um momento de cuidado, respeito e conexão.

Foi ao longo do meu percurso académico e da prática clínica que compreendi que queria exercer de uma forma diferente – mais humana e verdadeiramente centrada nas pessoas e mais especificamente, na criança, como um todo. Percebi que o que verdadeiramente me realizava ia além da técnica: era o encontro humano. Sempre senti que a infância merece uma atenção especial, não apenas pelo impacto que os primeiros anos têm no desenvolvimento global, mas porque é nessa fase que se forma a relação com o próprio corpo, com o autocuidado e com o outro. Ao tratar uma criança, estamos a entrar num universo mais sensível, responsável, simbólico e tão influente. Isso exigia para além de conhecimento – uma escuta que integrasse o corpo, a mente, as emoções e o contexto da criança, com empatia, leveza e profundo respeito. Ao longo do tempo, fui percebendo que os aspetos emocionais, ambientais e relacionais influenciam absolutamente a forma como as crianças vivenciam os cuidados de saúde. Isso, juntamente com alguns problemas de saúde pessoais em que não tinha respostas concretas e eficazes por parte da medicina convencional, levaram-me a procurar uma abordagem mais integrativa, que me dava mais respostas, que procurasse a causa raiz, que unisse o rigor da ciência à escuta ativa, que trabalhasse sobre os vários pilares de saúde, e construísse um vínculo de confiança. Mais do que tratar dentes, acredito que cuido de pessoas pequenas em crescimento, atuando assim num terreno fértil e contribuindo para um futuro melhor – e isso exige delicadeza, presença e uma escuta. Acredito que é neste encontro entre ciência, afeto e respeito que realmente fazemos a diferença. Foi esta inquietação que me levou a mergulhar no mundo da Medicina Dentária Integrativa. Através dela, encontrei uma forma de unir ciência, práticas baseadas em evidência e abordagens complementares, com uma visão mais humana e respeitosa da infância. Este é o meu propósito: criar experiências de saúde positivas, que deixem marcas boas na memória afetiva da criança. Porque quando o cuidado é vivido com respeito e afeto, ele não só cura – ele transforma.

 

Dra Didi, Odontopediatra

 

De que forma a medicina dentária funcional e biológica considera o impacto da boca na saúde global do paciente?

A medicina dentária integrativa, funcional e biológica parte do princípio de que a boca não está isolada do resto do corpo – pelo contrário, é uma porta de entrada e um reflexo direto do estado geral de saúde. Não trata apenas dos dentes isoladamente, mas analisa como a saúde oral pode influenciar ou refletir problemas noutras partes do corpo:

  • Valoriza a conexão entre a saúde oral e sistémica;
  • Usa materiais biocompatíveis que respeitam o organismo e evitam reações adversas;
  • Procura a causa dos problemas dentários e não apenas tratar os sintomas;
  • Atua com foco na prevenção, equilíbrio funcional e bem-estar geral do paciente.

Este tipo de medicina dentária promove uma abordagem personalizada e preventiva, considerando fatores como:

  • Alimentação e estilo de vida;
  • Respiração e sono;
  • Postura corporal;
  • Níveis de stress e equilíbrio emocional.

Ao longo da minha prática com crianças, tenho observado que muitos sinais orais são, na verdade, manifestações visíveis de desequilíbrios sistémicos mais profundos.  Por exemplo, alterações no esmalte dentário ou atrasos na erupção dos dentes podem estar associados a distúrbios hormonais ou carências nutricionais. Problemas digestivos, como refluxo ou disbiose intestinal, muitas vezes refletem-se através de mau hálito persistente, erosões dentárias ou inflamações frequentes na mucosa oral. Nestes casos, é essencial trabalhar em equipa, com outras especialidades para intervir na origem do problema, e não apenas no sinal e sintoma. É por isso que, numa abordagem integrativa, escutamos para além da boca. Observamos o comportamento, acolhemos a história familiar, analisamos os hábitos, a respiração, o sono, a alimentação e o contexto emocional da criança.

Que desafios marcaram a sua trajetória e como vê o papel feminino na liderança em saúde?

Ser mulher empreendedora na área da saúde tem sido uma jornada de superação e amadurecimento. Muitos desafios, mas a par deles surgiram grandes oportunidades, como:

– Construir uma carreira com propósito, focada no cuidado com o outro;

– Liderar equipas com uma abordagem mais humana, empática e colaborativa;

– Inspirar outras mulheres a seguir o caminho da liderança e do empreendedorismo;

– Aproveitar o avanço das tecnologias e da comunicação para ampliar o impacto do trabalho, seja através de projetos sociais ou educação em saúde.

Um desafio marcante, mas muito necessário, é conciliar as múltiplas jornadas: o empreendedorismo, a família e o autocuidado. Existe uma expectativa não dita de que a mulher precisa dar conta de tudo, o tempo todo – e quebrar esta narrativa é fundamental para conseguir crescer sem sobrecargas. Acredito que liderar, enquanto mulher, é também um ato de amor e inspiração coletiva. E esse é o verdadeiro poder da liderança feminina: construir pontes, criar oportunidades e transformar realidades.

 

 

 

 

Como vê a evolução da medicina dentária integrativa e que mudanças gostaria de ver implementadas?

Acredito que a medicina dentária integrativa vai continuar a ganhar espaço e reconhecimento, tanto entre os profissionais de saúde como entre os pacientes. Esta abordagem, que vê o paciente de forma global – considerando não apenas os dentes, mas todo o corpo, mente e estilo de vida – está alinhada com a crescente procura por uma saúde mais individualizada, preventiva e consciente.

Acredito que haverá uma maior integração entre especialidades; apostar-se-á no uso de tecnologias avançadas e menos invasivas, com foco na biocompatibilidade e na regeneração natural dos tecidos. Tendencialmente a crescente valorização da prevenção e da educação em saúde oral e geral. A implementação de abordagens mais focadas no equilíbrio funcional do corpo (funções orofaciais, postura, sono). Uma expansão natural da investigação científica que comprove a eficácia das práticas integrativas, tornando-as mais aceites no meio académico e institucional.

Em Portugal, embora a medicina dentária integrativa esteja a dar os primeiros passos, ainda há um longo caminho a percorrer, para que seja uma realidade ampla, justa e de qualidade, considero que algumas mudanças estruturais e políticas são necessárias:

– Maior reconhecimento institucional e integração no SNS/ políticas públicas de saúde oral integrativa;

– Formação curricular e contínua para profissionais de saúde oral;

– Regulação e normativas claras sobre materiais, terapias complementares e integrativas;

– Investigação e evidência local;

– Financiamento e sustentabilidade económica;

– Sensibilização pública;

– Aproximação entre a medicina dentária e outras áreas da saúde.

Que mensagem pode deixar a outras mulheres que sonham empreender na área da saúde?

Antes de mais, dizer que cada mulher tem dentro de si a força necessária para construir algo extraordinário – seja na área da saúde ou em qualquer outro setor. O caminho do empreendedorismo é desafiador, especialmente para nós, mulheres, mas é também uma oportunidade imensa de transformação, tanto pessoal como coletiva, é possível, sim, liderar com coragem, com empatia. Acreditem: o mundo precisa da vossa visão, da vossa sensibilidade, de vulnerabilidade, da vossa força, compaixão e da vossa liderança empática. Criem redes de apoio, celebrem as pequenas vitórias e mantenham-se fiéis aos vossos valores. Ser mulher na saúde, hoje, é um ato de liderança e amor. E empreender com propósito é um ato de resiliência e de esperança.

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